NÃO COPIARÁS.

NÃO PERTENÇO A LUGAR NENHUM: O CINEMA DE CHANTAL AKERMAN

(I DON’T BELONG ANYWHERE: THE CINEMA OF CHANTAL AKERMAN).

REALIZADO POR: MARIANNE LAMBERT.

DURAÇÃO: 67 MINUTOS.

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Depois de mais de um ano sem postar novos textos no blog, resolvi voltar a escrever depois de assistir ao maravilhoso documentário sobre Chantal Akerman. Pude assistir a esse filme graças ao Festival É TUDO VERDADE – 21º Festival Internacional de Documentários 2016, em São Paulo.

Chantal Akerman foi uma cineasta belga, que dirigiu por volta de 50 filmes, tanto para o cinema quanto para a televisão. Faleceu em 05 de Outubro de 2015 aos 65 anos.

Para você se empolgar com esta história, vou contar um trecho de uma das histórias que a própria Chantal narra. Ela diz que trabalhou em um cinema pornô como bilheteira e dava meio ingresso para cada pessoa. Com o dinheiro que guardava, pôde fazer dois dos seus primeiros curtas metragens: LA CHAMBRE e SAUTE MA VILLE”.

Acredito que o filme conseguiu captar e transmitir com maestria a intimidade e o lado sentimental de Chantal Akerman, quando mostra o relacionamento com sua mãe por exemplo. Elas trocavam cartas frequentemente, desde que Chantal saiu de casa, para ir à Nova Iorque. Tais cartas, apesar de serem simples relatos do cotidiano dos parentes distantes, continham um afeto nas entrelinhas, e também continham dinheiro que a Mãe enviava, com a preocupação de que não passasse por necessidades. No filme, há uma cena em que as duas conversam por Skype (ou algum programa do tipo) e podemos ver a relação de afetividade que as duas tinham, mesmo que Chantal estivesse sempre viajando pelo mundo e sua mãe estivesse na cidade de Bruxelas, elas mantinham uma ligação muito forte.

Outro aspecto do filme é a relação de Chantal com o seu modo de fazer cinema, que inclui a questão da estética, dos temas e de seu modo direção.

Chantal, desde seus primeiros curtas metragens, resolveu sair do senso comum e não fazia filmes para se tornarem grandes blockbusters, apesar de ter tentando isso através de uma comédia, com Juliette Binoche e William Hurt, chamada UM DIVÃ EM NOVA IORQUE.

Seus filmes eram experimentais, abordavam temas tabu para a sociedade. Continham cenas de nudez, homossexualismo, mulheres em depressão, tudo isso com muita influência autobiográfica.

A estética que Chantal desenvolveu é totalmente contrária ao cinema de Hollywood, preza pelas câmeras fixas e planos longos. Como ela mesma diz no filme, isso proporciona uma leitura completamente diferente das imagens e prioriza a atuação do elenco, faz com que o espectador tenha a possibilidade de olhar para a imagem e ver coisas não óbvias, detalhes além do foco principal da cena, para que haja outras interpretações. Outras informações aparecem ao espectador e não apenas algo específico e direto, o que não permite e não dá tempo do espectador pensar sobre aquilo, que não dá tempo do espectador captar e interpretar as imagens, o ambiente, os detalhes, Chantal faz um cinema inverso a isso.

Acerca deste olhar, que proporciona “cenas mais lentas” nos filmes de Chantal, Gus Van Sant, um dos únicos entrevistados que aparecem no filme, fala que ele passou o filme JEANNE DIELMAN para o ator Michael Pitt assistir, como preparação antes de filmar OS ÚLTIMOS DIAS, para que Pitt entendesse a relação que um personagem tem com as locações, principalmente a relação com a casa e seus objetos, para que a locação fizesse parte das cenas como um personagem a mais. No filme JEANNE DIELMAN de Chantal, há uma “dona de casa” fazendo todos os seus serviços diários, de maneira apática ao cansaço, tristeza ou alegria, a personagem apenas cumpre solitariamente as tarefas do cotidiano.

Um dos pontos importantes abordados no filme, é o modo de direção de Chantal, ela própria conta sobre uma briga que teve com William Hurt. Ele queria ficar improvisando, e ela queria apenas que ele seguisse o roteiro, “porque em uma comédia a graça está nas frases e movimentos colocados nos momentos certos”. Vale dizer que William Hurt acabou cedendo e conseguiram fazer o filme.

Já a atriz do filme JEANNE DIELMAN, outra entrevistada no documentário, fala sobre como Chantal a fazia repetir cenas até que alcançasse as sutilezas e detalhes de movimentos e luz dos personagens.

Os filmes de Chantal são feministas, homossexuais, controversos ao status quo social, e às fórmulas para filmes de sucesso de bilheteria de sua época. Por outro lado, Chantal não quis fazer filmes segmentados, não queria que seus filmes passassem em festivais de diversidade sexual, judeus, só para mulheres e etc, ela queria que seus filmes passassem em festivais que não tem segmentação.

Ela ousou em colocar longos planos em seus filmes, em pensar que o telespectador não é alguém que apenas está lá sentado para ser hipnotizado por um filme, está para ser incomodado, para pensar sobre as propostas de assuntos que o filme promove, para fazê-lo sentir, ter uma experiência sensorial que se constrói e não a recebe pronta através de diversos estímulos de um “cinema de publicitário”.

NÃO PERTENÇO A LUGAR NENHUM tem esse título porque Chantal morou em diversos locais, e consegue contar a história de Chantal apesar de ter apenas 67 minutos. Conseguindo ser totalmente profundo, fala da relação de Chantal com sua mãe, a relação com a história da sua família – que morreu nos campos de concentração em Auschwitz, os lugares onde morou, e como tudo isso acabou sendo influência em seus filmes. Mostra ainda, como ela trabalhava com atores, porque filmava do jeito que filmou, e como pensava que deveriam ser os seus filmes, o que eles deveriam transmitir e transmitiam. Um filme sensível, completo, que cumpre em contar a história da Chantal e deixa o espectador que não conhece seus filmes, com vontade de assistir toda a sua filmografia.

OBS: tem diversos curtas e longas completos dela no youtube, sem legendas, mas com uma boa procura pela internet você encontra alguns desses filmes legendados em português.

(Revisão do texto: Talita Bello).

TRAILER (COM LEGENDAS EM INGLÊS).

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