MONTAGEM QUE DESTRÓI.

4F – nem esquecimento, nem perdão (4F, ni oblit, ni perdó) – 2013.
Direção: 15Mbcn.tv
Duração: 120 minutos.

cartell4F – NEM ESQUECIMENTO, NEM PERDÃO é o tipo de documentário que mostra como a injustiça praticada pelo maior representante do governo, a polícia, pode fazer para defender os próprios interesses e manter a pose de poder, o filme é sobre um dos casos de montagem policial mais absurdos hoje em dia na Espanha.

Durante uma operação policial para acabar com uma festa que estava acontecendo em um prédio abandonado da prefeitura de Barcelona as pessoas começam a jogar coisas do prédio para afastarem os policiais, um destes objetos é um vaso de plantas que cai em cima da cabeça de um policial, o deixando incapacitado. A polícia então começa a procurar um culpado e prende pessoas que poderiam ser suspeitas de cometer um crime, como roqueiros, pessoas com corte de cabelo e vestimentas diferentes, gente que é criminalizada pelo que veste e não pelo que é, a polícia então prende pessoas que nem estavam na festa, mas, estavam algumas quadras dali e os incriminam pelo crime, entre os presos alguns são estrangeiros que continuam presos e os espanhóis continuam respondendo o processo em liberdade.

Este filme é realizado por um coletivo audiovisual chamado 15mbcn.tv, um coletivo de mídia independente, criando e produzindo sem ter que recorrer aos modos tradicionais e mercadológicos de se fazer cinema, é interessante porque se deixa de lado o ego de profissionais de cinema e também não se cria ídolos e sim obras, o que é mais interessante do que vender um filme por quem o realizou, “vende-se” o filme pela história retratada, também é um filme independente, sem incentivos fiscais, dinheiro governamental e também dinheiro privado, é um filme independente.

Como retratado no filme a polícia de Barcelona incrimina pessoas por um de conduta errada da própria polícia. Um dos pontos interessantes de se conhecer esta história é que 4ff4a polícia da cidade de Barcelona não é uma polícia militar, é uma polícia desmilitarizada, só que, os policiais tem as mesmas atitudes de militares, continuam sendo a cara violenta do estado, infelizmente é a única que muitos tem a oportunidade de enxergar. Os policiais, mesmo quando são estrangeiros, mantem a ideologia fascista e por incrível que possa parecer, até os policias estrangeiros são xenofóbicos. A polícia continua enxergando aqueles que não se parecem com obedientes trabalhadores apáticos como marginais e em qualquer situação de não saber a quem culpar, vão tentar culpar aqueles que vivem, pensam e se vestem à margem, mesmo que não sejam pessoas que estejam quebrando a lei, tentando revoltas, qualquer pessoa que não represente o padrão social vigente pode ser enquadrada e sofrer abusos autoritários.

As pessoas que foram incriminadas neste caso, que ficou conhecido como 4F, vivem em uma completa incerteza, porque em alguns momentos estão presas, em outros ficam em prisão domiciliar e a cada julgamento os acusadores vão se complicando cada vez mais por apresentar falsas provas, mas que são aceitas porque os acusados não tem um bom álibi e a maioria deles são estrangeiros, pobres e considerados marginais, eles não tem condições de pagarem bons advogados que possam trabalhar com mais afinco no processo deles. Patricia Heras, uma das mulheres acusadas em todo esse processo, cansada das prisões, julgamentos e toda a violência física e psicológica que todo esse processo está lhe causando, comete o suicídio e o caso começa a ter um pouco mais de exposição nos meios de comunicação de massa e grupos de apoio ao caso criam um cinema chamado Patrícia Heras em sua homenagem.

Via-Laietana-Cinema-Patricia-Heras_EDIIMA20130608_0341_5No geral o filme mostra como o sistema e as autoridades usam o conhecimento e o poder ao seu favor, a justiça não é justa, a justiça só é justa com aqueles que podem ter acesso ao conhecimento e ao poder. Uma das principais reflexões que me suscitou foi a de que cria-se um tipo básico de conduta pessoal, de comportamento social e até de apresentação visual que as pessoas tem que seguir, qualquer desvio deste padrão é visto como algo fora da lei, dos padrões e quando não é visto como ameaça a esse padrão, as pessoas são tidas como loucas e quando houver uma oportunidade essas pessoas serão excluídas, seja através de prisões, como o cárcere ou até prisões sociais, como a pessoa não ter oportunidade de entrar em determinado local ou até mesmo não conseguir um emprego em determinada empresa, etc. É descriminar o diferente só por ele ser diferente, e talvez nem tão diferente no pensar, mas, apenas no vestir; e tudo isso desencadeia uma série de preconceitos que chega em todas as camadas sociais, desde a própria população, como até mesmo os policiais que também fazem parte da população, até pessoas que legislam as leis e as que julgam e determinam como devem ser cumpridas estas leis, acredito que tudo isso venham da cultura de repressão do estado, de calar aqueles que não participem do “status quo”.

4FF2O filme poderia ser dividido em três partes, a primeira é a apresentação da história, contando o que foi o caso e tentando dar o máximo de detalhes dos personagens do caso 4F, uma segunda parte seria mais uma parte investigativa, tentando derrubar todos os argumentos da acusação e mostrando a hipocrisia da polícia e seus erros que são apoiados pelo governo de Barcelona e uma terceira parte é o desdobramento do caso, quais foram os resultados até o momento, já que ainda não se tem o veredito sobre o caso que está em vigor desde 2006 e como diz o site do próprio documentário o principal acusado está preso desde 2012.

O filme é muito bem produzido, imagens da cidade de Barcelona, imagens conseguidas da situação da festa, provavelmente feita com celulares e entrevistas feitas com alguns dos acusados e também com advogados e ativistas do caso 4F, tem uma montagem bem dinâmica, bem parecida com o que vem sendo feito com a maioria dos documentários ativistas que tem aparecidos nos últimos anos, uma linguagem mais acessível à quem está acostumado com a linguagem televisiva, principalmente na edição. 4FF3As entrevistas feitas com os acusados são feitas em salas vazias o que causa uma certa cumplicidade através da estética, porque o lugar além de parecer inóspito à quem está sendo entrevistado parece que toda aquela situação que viveram lhes trouxeram um vazio existencial e hoje eles também não tem muito em que se apoiar, essa percepção pode ir mudando para quem está assistindo após ouvir um pouco da história de cada um.

Após assistir este filme você provavelmente irá sentir um sentimento de injustiça e revolta, porque temos que ter pessoas sendo sacrificadas para manter a credibilidade de uma instituição, é a pergunta que respondo, mas não consigo concordar com tal atitude.

OBSERVAÇÕES:

– Pude assistir este filme através da prévia do III festival do filme punk e anarquista de São Paulo que acontecerá em Dezembro de 2014 no Tendal da lapa, quem quiser saber mais sobre o festival visite: http://anarcopunk.org/festival/?page_id=187

– O cartaz desta postagem não é oficial do filme, é de uma exibição do filme com presença de alguém que colaborou na realização.

– O site do filme tem mais informações sobre o caso: http://documental4f.wordpress.com/

TRAILER:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s