Consumindo para o declínio.

A Grande Noite (Le Gran Soir) – 2012.
Direção: Benoit Délépine e Gustave Kervern.
Duração: 92 minutos.

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Filmes que tem personagens punks sempre me chamam a atenção, por isso, resolvi assistir “A grande noite”, um dos personagens é um punk-cachorro, como ele mesmo se rotula, que é um punk que mora na rua e vive pedindo, contrapondo as amarras da sociedade capitalista europeia atual. Este é um filme franco-belgo que contém um ator Albert Dupontel, como o irmão trabalhador do punk, Dupontel que fez o inesquecível filme “Irreversível” de Gaspar Noe.

O punk que gosta de ser chamado de NOT, ele renega o seu nome de registro, ele tem soiraté o nome NOT tatuado na testa, ele é um morador em situação de rua que vive com seu cachorro, dormindo em praças e parques e pedindo e ou roubando comida e cervejas de clientes em um estacionamento de um hipermercado e também dentro do próprio mercado, as vezes por troca de favores, como carregar a compra das pessoas ou simplesmente enfiando a mão no carrinho de compras e pegando aquilo que deseja, em geral as pessoas, mesmo que revoltadas, não fazem nada além de algum resmungo ou reclamação. Os pais de NOT tem um restaurante que serve pratos feitos à base de batatas, seu pai parece ser um simples comerciante e a sua mãe parece ter alguns distúrbios mentais, o irmão de NOT, Jean-Pierre, é um vendedor de uma loja de colchões, ele tem uma esposa e uma pequena filha, NOT, Jean-Pierre e seus pais estão comemorando o aniversário da matriarca da família e conversando sobre diversas coisas em uma verborragia quase enlouquecedora dos dois irmãos, se não fosse pela tranquilidade do pai que tenta ajustar algo em seu telefone celular que ele não sabe mexer screenshot_00010e a mãe que fuma na cozinha do restaurante tranquilamente, o caos estaria completamente instalado nas conversas familiares.

Enquanto NOT vive em sua preocupação de arrumar comida para si e também para seu cachorro, Jean-Pierre vive uma crise em seu trabalho, seu chefe cobrando que ele atinja a meta do mês que ele não atingiu e ele começa a pirar, bebe e “bagunça” a loja, seu chefe grava tudo com seu celular, assim Jean-Pierre se vê sem emprego e sua esposa também não quer um homem desempregado e o abandona, Jean-Pierre se junta ao seu irmão NOT em uma jornada de andarilho punk.

20496542.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxNOT e Jean-Pierre que agora se chama DEAD e tem uma tatuagem caseira na testa igual ao irmão, começam a pedir pelas ruas, tomam banho em fontes de água em locais públicos, até que são expulsos da cidade, o pai diz que eles não são filhos dele e da esposa. Então, eles partem para uma zona rural dirigindo uma empilhadeira.

Há diversas cenas interessantes no filme, uma delas é quando eles encontram um camponês que está prestes a se matar enforcando-se e eles convencem o cara a não fazer aquilo daquela maneira que aquilo não é a solução, que não é nada criativo o cara morrer enforcado em uma viga, em um celeiro, mas o camponês acaba colocando fim em sua vida de um modo um pouco mais criativo, só que NOT e DEAD ficam achando que salvaram a vida do cara; outra cena que vale a pena citar é quando o segurança do hipermercado vai falar com o pai de NOT e DEAD que um dos filhos vivendo na rua e “perturbando a ordem” dava para aguentar, mas dois é um problema, o interessante é que o diálogo acontece de um modo estranho, não é um diálogo direto com palavras duras é como se o segurança não quisesse ir até lá falar aquilo para um velho amigo e que o pai deles se sentisse um pouco constrangido e entendesse que ele era responsável em resolver “o problema”, é um diálogo amigável e triste; uma das cenas que marcam é le grand soir 2012 25quando os dois querem recrutar pessoas para uma revolução, algumas pessoas até ouvem o que eles estão falando, mas, ouvindo-os como loucos, apenas para não contrariá-los e ninguém aparece na reunião que eles estavam planejando.

Há frases que ficam na cabeça por serem engraçadas, como quando NOT está no mercado e uma mulher passa com um carrinho de compras cheio de coisas orgânicas e ele diz para ela depois que ela passa ignorando seu pedido de ajuda com comida: – tudo orgânico hein? Vai fazer quimioterapia com beterraba? Tem outra cena onde NOT está dormindo em uma casinha de criança e o segurança do local pergunta o que ele está fazendo e pergunta é sobre a raça do cachorro, NOT responde que a raça dele é punk, o segurança pergunta se ele é inglês, porque se for, espera que ele não faça suas necessidades dentro da casinha, para não precisar limpar no dia seguinte.

Apesar de caricatos em alguns momentos, os personagens são muito bem construídos, não são apenas aquilo que eles mostram com suas roupas e diálogos, são em detalhes de suas ações que vemos o que há na formação de cada um deles, mostrando que a sociedade não é apenas pessoas que trabalham e tem bons empregos e ternos que podem ter vidas boas, que há alternativas em se realizar e sentir-se bem sem estar consumindo, mesmo que de certa forma eles estejam indiretamente consumindo, não são escravos de um modelo que o objetivo final é o consumo. As atuações são muito boas, muito convincentes, hoje em dia o cinema parece ter encontrado diversas maneiras de fazer com que os filmes passem credibilidade em seus personagens através principalmente das atuações e não com truques de câmera, de som, de closes e trilhas le-grand-soir-2-480x250sonoras que ajudam a criar um clima, o ator parece estar se tornando o foco da representação da história, o que valoriza muito mais o trabalho humano em cena.

NOT vive tendo sonhos que está num show punk, onde ele sobe no palco e dá um “mosh”(…é quando a pessoa pula do palco e cai sobre as pessoas que assistem o show e “nada” entre elas), também canta junto com a banda que está se apresentando, em um dos “mosh” ele vai parar fora do local que está acontecendo o show, dentro de uma lixeira enorme, onde ele acorda num outro dia. Quando o seu irmão junta-se a ele, ele até sonha que o irmão está junto com ele, os dois parecem estar sonhando juntos neste momento, como se fosse uma cumplicidade entre os dois, estes sonhos remetem ao relaxamento, a hora de diversão e de extravasar os estresses diários.

O filme ganha ao mostrar uma cidade do interior da Europa onde há poucas pessoas e grandes redes de fast-food, móveis, materiais de construção e objetos que não precisamos a todo o momento comprar mais, trocar por produtos novos, um mundo de hipermercados e shopping centers, onde há poucas pessoas frequentando o pequeno comércio que é esmagado pelas grandes empresas e há muitas pessoas desempregadas e trabalhando em “sub-empregos”, onde os graduados já não arrumam empregos e o preço do imóvel absurdo faz com que pessoas morem nas ruas enquanto uma minoria tem alguns privilégios, onde cada vez mais uma pequena elite se forma através do capitalismo e outros se sentem da elite ao poderem consumir o que é mais caro, uma visão sobre a crise européia.

“A grande noite” pode ser um filme um pouco lento, porque ele tem longos planos-sequência, planos abertos e poucos diálogos, acredito que esta escolha seja para mostrar um pouco o que são os personagens por dentro, o que eles estão sentindo, que há vazios de sentido em suas vidas, que estão cansados de trabalhar e consumir, mas, a busca por mais dinheiro é a única alternativa que a publicidade e os meios de comunicação dizem existir e serem realmente prazerosos, estão procurando um lugar para seus pensamentos em meio aquela imensidão de grandes empresas e placas e outdoors com propagandas para eles consumirem cada vez mais, até eles não conseguirem pagar mais por aquilo e se afundarem em dívidas e depressões, mas também parece ser uma tendência cada vez maior nos filmes de hoje em dia, estes longos planos e silêncios, revivendo filmes de cineastas como Tarkovski, Antonioni e Bergman. É uma forma interessante de se contar estórias, principalmente porque é também uma forma de antagonismo do cinema comercial hollywoodiano, que domina as salas comerciais de cinema em países que não tem tradição em fazer cinema para entretenimento, cinema para o grande público, um cinema cheio de cortes e barulhos de tiros e efeitos especiais, talvez esta contemplação lenta, onde se aproveita mais as paisagens e os personagens seja uma boa forma de aproximar a estética de um filme ao existencialismo e também confrontar estéticas prontas, de sucesso, que cada vez mais prima por estórias de super-heróis, vindos dos quadrinhos, muitas vezes, apenas para ajudar a fixar a imagem de que os Estados Unidos da América está sempre em prontidão paraa salvar e ajudar as pessoas do seu país e dos aliados. A grande noite é um filme gostoso de assistir, é divertido e faz pensar.

 

TRAILER:

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