A TENSÃO DA FÉ.

Paraíso: Fé (Paradies Glaube) – 2012.
Dirigido por: Ulrich Seidl.
Duração: 109 minutos.

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Outro filme que consegui uma cópia e somente depois de um tempo que fui assistir e já não lembrava nem do que se tratava a estória, depois de uma pesquisa sobre o diretor descobri que ele havia feito o excelente documentário “Animal Love” e já tem diversos trabalhos no cinema, “Paraíso: Fé” é o segundo filme parte da trilogia chamada paraíso, que tem ainda os filmes, “Paraíso: Amor” e “Paraíso: Esperança”, o filme “Fé” é um filme intenso, perturbador e angustiante sobre a fé.

Anna Maria, a personagem principal do filme, vive em uma cidade Austríaca, é uma fanática religiosa, provavelmente católica, uma senhora aposentada, vive em uma grande casa, parece ter uma boa condição financeira pelo tamanho e localização de sua casa e estilo de vida. Ela faz um trabalho de pregação que é de ir até as casas das pessoas para deixar uma palavra religiosa e muitas vezes uma imagem de nossa senhora durante um tempo, tentando converter para que tenham uma vida igual à dela, à qual ela julga ser Paradies-Glaubemelhor, mas ela nem sempre é bem recebida e para conseguir resistir aos pecados carnais ela usa de violência contra si mesma, autoflagelação. As cenas em que Anna Maria se castiga são bastante perturbadoras, bate com força com um chicote, coloca uma espécie de coleira na coxa para a autopenitencia, também anda de joelhos pela casa, dando chicotadas nas costas e rezando. Mas, sua religiosidade não é apenas autoflagelação, ela canta músicas enquanto toca um teclado e encontra-se com um grupo em sua garagem para fazer rezas, provavelmente semanais, que lhe passa uma tranquilidade e sensação de estar fazendo aquilo que julga ser certo.

Nabil, o ex-marido de Anna Maria, volta para casa depois de um tempo fora, ele é um senhor cadeirante e muçulmano, ele esteve um tempo com sua família, não sabemos se foi um acidente ou alguma doença que o deixou na cadeira de rodas, só que ele esteve 10fora, porque estava passando um tempo com sua família. Nabil voltou porque quer tentar reatar o casamento, mas Anna Maria só se interessa por jesus agora, o relacionamento dos dois não evolui como Nabil quer, Anna Maria está sempre se esquivando, seu foco agora é jesus.

Há agressões constantes de Nabil contra a religiosidade de Anna Maria são tanto agressões verbais, contra os objetos religiosos dela, quanto à violência física, por mais que seja cenas intensamente absurdas um cadeirante batendo em uma mulher, vemos que o machismo da religião dele e a aceitação da religião dela, faz com que a mulher acabe sendo uma vítima atroz, ela aceita toda essa violência com a justificativa de que é um castigo ou uma provação pela qual está passando e tem que manter sua calma e bondade. Em dado momento Anna Maria perde a sua paciência cristã e cria uma espécie 20485821.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxde prisão para Nabil, eles moram em uma casa que tem dois andares, então ela pega a cadeira de rodas dele e coloca no andar de baixo e leva o elevador também, esta cena é interessante porque temos um sentimento de vingança permeando a cena por todo o sofrimento que Nabil está causando à Anna Maria, ao mesmo tempo em que é uma crueldade contra uma pessoa que tem problemas sérios de locomoção e tudo fica essa confusão de qual é o limite da bondade das pessoas diante de constantes ataques de violência e como pode ser a reação tanto de quem está oprimindo como quem está sendo oprimida.

Paradies GlaubeOs desejos carnais de Anna Maria se intensificam, em uma das cenas mais hereges do filme, com um crucifixo com Jesus crucificado Anna Maria começa a esfregar ele pelo corpo até começar a se masturbar, ela está com desejos carnais, mas, ao mesmo tempo sabe que não deve cometer este “pecado”, muito menos com um homem de outra religião, já que Nabil é muçulmano. Creio que este tipo de cena questiona até quando a religião é avessa a biologia humana, por mais que a sociedade influencie nossas atitudes, inclusive as sexuais, me parece que temos uma sexualidade latente que deseja o sexo, mesmo que seja apenas para a reprodução.

Anna Maria fica por alguns dias com o gato de uma vizinha, ela parece não ser dar muito bem com o animal, apenas o alimenta e limpa sua sujeira na garagem de sua casa até que Nabil encontra o gato e o liberta para dentro da casa e até na cozinha. Aqui vemos a falta de habilidade de Anna Maria com os animais, ela parece cuidar do gato apenas para ajudar uma vizinha e não por gostar e ter jeito com gatos ao contrário de Nabil que tem mais carinho com o gato e o usa como um companheiro para sua estadia solitária, principalmente quando Anna Maria sai para seus deveres.

694504Em algumas cenas Anna Maria tenta converter algumas pessoas totalmente peculiares, um velho senhor que depois da morte da mãe, vive entre uma bagunça gigantesca, parece até um colecionador de coisas velhas e lixo, ela tenta falar com ele, ele é até solicito com ela, mas não quer fazer muitos esforços para seguir as regras de reza que Anna Maria lhe passa. Outra pessoa que dá trabalho é uma mulher solteira em seu pequeno apartamento que está muito bêbada e quer continuar bebendo, tenta agarrar Anna Maria sexualmente, ela fica constrangida, porém fica ali para tentar enfrentar aquela situação difícil salvar aquela mulher daquele mundo de hedonismo e alcoolismo. Ela também encontra problemas em converter pessoas que não falam o alemão corretamente, algumas não têm o mínimo de interesse em serem religiosas e questionam a sua religiosidade por serem mais materialista, Anna Maria acredita tanto em deus, em jesus, que ela é totalmente apática as ideias alheias, ela tenta fazer o seu trabalho, pregando a palavra de jesus e tentando converter as pessoas para a sua religião.

Percebi que a todo tempo o filme tenta deixar Anna Maria como uma pessoa extremamente religiosa e ignorante, meio que transformando ela em uma pessoa ruim, paradoxalmente, ela é essa pessoa ruim por ter essa visão conservadora/católica segundo o que as imagens do filme vão passando e não por ser uma pessoa que não liga 01para os problemas que a cerca. “Paraíso: Fé” é um filme muito intenso, deixa a todo o momento uma sensação de revolta, tanto pela dedicação cega de Anna Maria; mas que parece lhe trazer paz até certo momento, quanto pelo machismo de Nabil e também pela subserviência de Anna Maria, a religiosidade é muito criticada neste filme, mostrando um lado de sofrimento pelo fundamentalismo de seguir uma religião não abrindo espaço para diálogos e a pessoa vai se afundando em sua crença, esquecendo que outras pessoas podem pensar diferente, atrapalhando o convívio social com quem não concorda e vive o mesmo estilo de vida.

Gosto muito dos enquadramentos de câmera do filme, que tem muitos planos fixos, mostrando estabilidade ou até mesmo dando uma sensação de tédio e tensão, estas câmeras fixas são mais onde Anna Maria está sozinha, quando ela está interagindo com outras pessoas a câmera costuma ter mais movimento, pode ser que o diretor quisesse ter passado a tranquilidade e intranquilidade interior de Anna Maria através dos movimentos de câmera. Tem planos incríveis no filme, onde não há a interação dos personagens com arquiteturas frias e também com as intempéries da natureza e com a sociedade em geral que continua acontecendo com diversas opiniões, estilos de vida e religiosidades.

“Paraíso: Fé” é um filme indicado para aqueles que gostam de ver como são as atitudes humanas diante de pessoas extremamente religiosas e como é a visão de uma pessoa sobre isso, no caso o diretor “Ulrich Seidl”, penso que este tipo de filme é algo que faz as pessoas que não acreditam em religião nenhuma gostar do filme e aquelas que são religiosas não gostarem do filme.

 

TRAILER:

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2 comentários sobre “A TENSÃO DA FÉ.

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