LOUCURA E REALIDADE.

Em nome da filha (em el nombre de la hija) – 2011
Dirigido por: Tânia Hermida.
Duração: 108 minutos.

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Fui ao festival de cinema Equatoriano que estava acontecendo no cine Olido, aonde quase não se vê intelectuais e entusiastas do cinema, por estar no centro de São Paulo, “lugar perigoso”, vê-se apenas os habituais e estranhos frequentadores relâmpagos, que entram e saem à todo momento da sala, foi em mais uma destas estranhas sessões no Olido que tive a oportunidade de assistir “Em nome da filha”, que narra a estória sobre dois irmãos de pais comunistas que irão passar algumas semanas de férias no sítio dos avós conservadores.

Os irmãos chegam no sítio dos avós, o irmão mais novo, chama-se Camilo e a irmã mais velha chama-se Manuela, no início somente Camilo parece estar com mais vontade de ficar ali, Manuela está mais resistente aos avós. Manuela tem muita influência das ideias comunistas dos pais, então ela logo quer ir brincar e trazer para brincar o filho da empregada, Pepe, que tem apelido de Saci, vye05yh120911-photo01_456_336ao contrário dos outros primos que sempre estão na fazenda que não costumam brincar com o menino porque ele é empregado como ensinam os pais deles e os avós e a própria empregada não deixe o menino brincar com os sinhozinhos, como assim são chamados os filhos dos patrões da fazenda. Manuela não entende porque tem que haver estas diferenças, já que como crianças, todos deveriam brincar juntos.

Os primos são diferentes entre si, um deles é um primo mais bagunceiro e atentado, uma menina é a “puxa-saco” e fofoqueira dos avós, o irmão dela é um pouco mais velho, meio ponderado. Eles vivem tentando brincar de algo ao mesmo tempo em que vivem brigando, porque cada um quer defender uma opinião que acha certa, mesmo assim, mudam de opinião com certa facilidade, me parece que as crianças, em geral, não só no filme, tem muito mais facilidade para ouvir criticas e se adaptar do que os adultos, mas, me parece que muito do que elas cedem é para poderem estar juntos, as crianças em geral não gostam muito de ficar sozinhas quando estão com muitas pessoas e não tem vídeo-games e outros aparelhos eletrônicos.13092011_054657

Uma das cenas interessantes do filme é quando nasce filhotinhos de algum cachorro da fazenda e eles começam a brincar e dar nomes para os cachorrinhos, até que um deles morre, e eles ficam tristes e fazem um enterro para o cachorrinho, tudo muito simbólico, mas no dia seguinte, já estão todos correndo e brincando novamente.

Outro embate da Manuela com os avós é que por ela falar muito sobre comunistas e coisas diferentes que os avós e primos não estão acostumados, os avós querem que ela seja batizada na igreja católica, em um primeiro momento ela se recusa, mas depois de um tempo ela resolve aceitar o batizado para ter uma tranquilidade maior na fazenda. Na hora do batismo, eles dão o nome de Dolores, mas a menina se recusa a ter o nome, ela já tem um nome, que é Manuela, ela diz; apesar de toda confusão e resistência ela acaba sendo batizada.

Até certo momento, o filme fala mais sobre a diferença dos filhos de comunistas com os primos mais conservadores e seus avós, este embate de opiniões políticas através das crianças, já que os pais e avós não se falam muito, preferem manter o básico do relacionamento para não se afastarem, já que são parentes e se gostam de alguma maneira, mesmo que não concordem com as mesmas ideias políticas. No entanto o filme tem uma virada muito boa, na festa de batizado de Manuela aparece uma prima mais velha, a típica prima que sabe de tudo e é mais corajosa e esperta e todos vão para um local secreto, um local cheio de coisas velhas e antigas e lá também vive uma estranha pessoa, provavelmente um louco, que vive entre livros, roupas velhas, e um monte de coisas que já não se usam mais na casa grande. As crianças começam a se interessar por aquela pessoa que até então eles não sabiam que existia e descobrem que é um tio, Manuela ganha um diário de presente do batizado e o tio louco lhe dá o nome de Alicia, uma referência à Alice no País das Maravilhas, em espanhol a menina se chama Alicia e também pode ser interpretado como uma referência para a menina que está deixando a infância para entrar na adolescência. Esse mesmo tio recorta as palavras das páginas dos livros, porque, ele está libertando as palavras, essa parte do filme é muito poética e fantasiosa.97b2cefacd4d83652cd719ea95db9070

As crianças são descobertas pelos adultos e elas são proibidas de voltarem a ver o tio, em um dia pela manhã o tio é levado de ambulância para algum lugar, as crianças, sobe o comando de Manuela resolvem fazer uma greve de fome, até que o tio volte, elas ficam sem comer durante algumas horas, os adultos estão fora e as crianças acabam cedendo e comendo antes que os adultos voltem, Manuela acusa alguns primos de fura-greve, mas acaba cedendo também.

A fotografia de “Em Nome da filha” é linda, principalmente quando o filme se torna um pouco onírico, fantasioso, com cores quentes e muita luz e sombra, porque antes deste momento, a fotografia mostrava mais os aspectos da natureza e do naturalismo de um local com muito mato, de uma casa bucólica mesmo. Além das atuações das crianças que são muito boas, a direção em geral é muito boa também, me deu curiosidade em ver outros filmes da Tania Hermida, en-el-nombre-de-la-hija--640x429O que me chamou muita atenção foi a qualidade do roteiro, me faz lembrar bastante a literatura que é feita na própria América latina, que conta sempre um pouco da história sofrida do continente, mas contém também traços de fantasia, o que muitos gostam de chamar de realismo fantástico ou realismo fantasioso. O roteiro fala de muitas coisas, da criação das crianças, como elas copiam seus pais até em seus discursos, do jeito que elas acabam fazendo as coisas para que todos tenham um bom entendimento, elas, de forma alguma querem ver outra criança triste, por mais que estejam bravas umas com as outras, elas tentam sempre “fazer as pazes”, no filme há também a diferença de tratamento das pessoas conforme sua opinião política e o aprendizado da criança no dia-a-dia de uma fazenda, com a simplicidade, com a vida na natureza e etc. Com a virada do roteiro para algo mais fantasioso, vemos como as crianças se aproximam dos “loucos” quando eles sonham e imaginam um mundo onde as coisas seriam do jeito que elas gostariam, até que vem uma força maior, os “adultos responsáveis” e as faz desistir de tudo aquilo e voltar a rotina, um bom questionamento sobre até onde vão os sonhos e quando começa a realidade, será que podemos mudar a realidade com sonhos? (cada um responde para si mesmo). É um filme de aventura para crianças e adultos, em certos momento me lembrou até o filme “A culpa é do Fidel” guardada as devidas proporções, em “Em nome da filha” há a beleza do desenvolvimento de uma inocência e inexperiência e também pode-se fazer um paralelo de tudo que acontece com as crianças para o mundo dos adultos, desde que os adultos espectadores ainda sonhem.

Trailer:

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