O peso de uma câmera.

As Harmonias Werckmeister (Werckmeister Harmóniák) – 2000.
Dirigido por: Béla Tarr.
Duração: 145 minutos.

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Este foi o primeiro filme que assisti do diretor Húngaro Béla Tarr, o único até o momento deste texto, estou para assistir o filme Satantango, mas para encarar sete horas de filme tem que estar com disposição e tempo, para assistir de uma única vez. “As Harmonias Werckmeister” me encantou logo na primeira cena, é um filme totalmente intenso, não há como não ficar de olhos vidrados na tela com as imagens em preto e branco do filme, as muitas imagens em planos-sequência (onde não há cortes de câmera), para quem acha que isso deixa o filme cansativo, está muito enganado, não é o que acontece neste filme, mesmo que você esteja acostumado com filmes de ação.

Logo no início do filme há um balé astronômico comandado pelo personagem principal do filme, que se chama János Valuska, o balé acontece num bar que está prestes a fechar, cheio de clientes bêbados que ainda queremfilmes_8602_Harmonia02 tomar mais algumas antes de irem embora, a câmera gira em volta de um sistema solar que se formou com os frequentadores do bar para a coreografia do balé, bêbados dançando conforme as instruções de János, numa demonstração artística impressionante, tanto da cena em si e dos personagens, como dos atores e da movimentação da câmera.

János parece desenvolver vários trabalhos na comunidade onde vive, ele cuida de um velho senhor com Alzheimer, entrega jornais, faz trabalhos com crianças, conhece várias pessoas na cidade, nunca está parado. A chegada de um enorme caminhão com uma baleia morta, provavelmente empalhada ou embalsamada, não sei dizer, muda um pouco a rotina das pessoas da comunidade com aquele enorme caminhão na praça da cidade, mediante um pagamento as pessoas podem entrar no caminhão e ver de perto aquele enorme animal, na praça há muitas pessoas, homens aparentemente desempregados conversando em grupos, olhando para a baleia do lado de fora, as pessoas parecem tristes e isto remete à época da depressão na Hungria, onde as pessoas não tinham perspectivas de vida, estavam num momento totalmente apático. Ao mesmo tempo em que a baleia simboliza algo grandioso, poderoso, matador, a baleia está morta, a baleia também pode simbolizar obscuridade, imersão do consciente, a baleia reflete o que as pessoas daquela cidade estão passando, “estão mortas” e não podem sair daquela jaula e realmente saber o que está acontecendo ao redor.5_werckmeiste
János é um pianista, mas ele nem chega a tocar no filme, parece não ter tempo de fazer a sua arte em um momento tão difícil para a comunidade onde vive. Jánus conversa com um velho poeta intelectual e amigo, é com ele que acontece a maioria dos diálogos relevantes do filme, eles falam um pouco sobre situações do cotidiano e problemas, as outras falas que há no filme são apenas pedidos e sociabilidades do cotidiano. János com seus pequenos trabalhos parece ser uma das únicas pessoas da cidade que mantém a sanidade e a vontade de viver, de construir, de mudar aquele lugar.

Há duas cenas que me impressionaram muito, uma delas é de um grupo andando, marchando, com um som muito forte de botas contra o chão de pedras, a sensação de opressão foi aumentando aos poucos a causar em um longo plano de uns 10 minutos pelo menos, o que parece uma eternidade, vai sufocando, parece um exército caminhando para uma guerra; a outra cena acontece logo após esta cena, é uma invasão, um massacre, que é uma bela cena de violência, bela porque você sente a tensão e não pela violência em si, que não tem nada de belo, não consegui me desvencilhar daquele momento, fiquei grudado no sofá, contraído, parecia estar realmente vivenciando aquele momento, a cena é umHarmonias de Werckmeister_Béla Tarr massacre de pessoas que estão em um hospital, parece ser um hospital psiquiátrico, tudo é filmado em plano-sequência e há muita violência contra as pessoas ali internadas, pessoas deitadas, moribundas, doentes, loucas, tomando banho e há também a depredação do prédio, é realmente muito impressionante, é como sentir o terror da violência, certamente estas duas cenas foi um dos momentos mais impactantes que já vi num filme.

A cidade começa a ser invadida por militares e a guerra chega até a comunidade, János vai para um hospital psiquiátrico e parece estar num estado traumático, totalmente imutável. A baleia fica abandonada no meio da praça com o baú do caminhão todo aberto.

“As Harmonias Werckmeister” é um filme muito impressionante, foi talvez o único filme que me fez perceber como deve ser a tensão e o terror de estar numa guerra, ou numa situação de violência extrema, uma violência desenfreada que parece não ter fim, onde as pessoas não sabem se estarão vivas no momento seguinte de suas vidas. Mesmo eu tendo vivido situações de violência e ter vivido muito tempo da minha juventude num local violento, parece que não tenho lembranças sensoriais tão fortes dela como eu senti neste filme. É uma sensação ruim, uma ansiedade opressiva, apertando algo no estômago, no peito, fazendo a cabeça latejar e os olhos ficarem vidrados, paralisados, como os olhos de János no hospital.

Eu não tinha muita informação sobre como era o estilo do Béla Tarr e nem sobre o que realmente era o filme, tive que ler um pouco da história da Hungria para tentar contextualizar o filme, espero não ter cometido erros sobre a história do país, que parece passar por um momento muito triste, onde as pessoas não sabiam para onde ir, o que seria da vida delas, vivendo em miséria e se apoiando, cada um do seu jeito, em algo que não as levasse à loucura. Fiquei em dúvida com a legenda que consegui, quase toda vez que János fala com alguém ele se refere à pessoa como tio ou tia, não sei se a tradução é literal, se na Hungria eles costumam chamar as pessoas assim, ou se esse tio ou tia pode ser substituído por camarada, por exemplo, mas como o filme parece ser pré-segunda guerra mundial, a Hungria ainda não tinha se tornado um país comunista, fiquei na dúvida quanto ao uso destes pronomes.0

Na parte técnica, acho o filme muito bom, as câmeras são abusadas, quando escolheram planos-sequências mais longos e enquadramentos que não se vê na maioria dos filmes e apesar de muito impressionantes, não tiram o foco da atuação e a história é contada de forma sensacional. A câmera não mostra detalhes, mesmo assim há detalhes num plano geral, você pode degustar as imagens, já que os planos são longos, aliás, é no plano geral que podemos descobrir onde estamos, como é o relacionamento dos personagens com o local onde estão e a fotografia obscura, em preto e branco, com muito mais preto e quase sempre com névoa sobre os personagens e no horizonte, como se eles tivessem vivendo num lugar isolado ou um pesadelo. O áudio do filme não usa muita trilha sonora para causar sensações e pré-anunciar situações de tensão, é feito apenas com os barulhos da cidade, das botas sobre pedras, de pessoas cochichando, de coisas quebrando, do vento, toda essa avalanche de sons e imagens. Tudo isso vai contribuindo para que a parte artística e humana do filme se tornem muito bem feitas, é um filme realmente impressionante, sendo totalmente redundante com a palavra impressionante neste texto.

TRAILER:

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