Bizarre cousine

O Cozinheiro, o chefe, sua esposa e seu amante (the cook, the thief, his wife and her lover).

Dirigido por: Peter Greenaway

Duração: 125 minutos.

Este filme estava no congelado em meu computador a uns quatro anos, e recentemente que resolvi descongelá-lo, não me lembro ter experimentado a sensação de ver algum filme do Peter Greenaway, mas já tinha ouvido falar bastante dele e lido em alguns cardápios de diretores imperdíveis para ver um filme.

A entrada é uma primeira cena que choca, claro que não é algo tão extremo e gore como o canibalismo em Cannibal Holocaust, mas causa uma certo asco quando se vê cachorros se alimentando laricamente de carne, em um lugar sujo, parecendo um futuro desolado, no melhor estilo Blade Runner, continuando a cena em um plano-sequência, um grupo liderado por um homem que fala alto, começa a humilhar um homem, fazendo ele ficar nu, passando merda nele e deixando ele totalmente sujo e no meio da rua. Há uma cena interessante deste homem sendo lavado depois, algo meio bíblico, tirando os excessos de sujeira necessários para se fazer um lindo prato.

Albert é o chefão de um grupo que comanda toda a entrega de comida para os restaurantes da cidade e envenena a comida daqueles que não colaboram com ele, algo como um policial que recebe propina para deixar algum comercio ilegal continuar funcionando. Albert parece um ditador, tem um interessante diálogo dele falando sobre a preferência gastronômica dos ditadores, Albert é um cruel e insano chefe de uma sociedade criminosa, em todo lugar que ele está, é o único que tem razão e sempre fala alto, e acredita que com o seu dinheiro e poder ele que dita as regras  e escolhe os melhores ingredientes para o restaurante que está montando em sociedade com um cozinheiro francês, Richard.

Junto com Albert está sempre sua esposa Georgina que em alguns momentos tenta discordar dele, escolhendo pratos que não agradam a Albert, porém sempre acaba apanhando, é um estereotipo de mulher de malandro, porque mesmo apanhando não deixa todo o luxo que Albert proporciona à ela. Junto a Albert também está sempre um lacaio que as vezes tenta colocar as asinhas para fora e se dá mal quando quer ser igual ao seu chefe, usando das contradições do seu chefe que em todo momento o humilha.

No primeiro dia em que eles estão jantando,  Albert todos os dias da semana janta com sua esposa, alguns empregados, sócios e amigos, numa grande mesa no meio do restaurante, acontece um inusitado encontro de Georgina com um cliente do restaurante que sempre está lendo um livro, que mais tarde ficamos sabendo que seu nome é Michel, que ele é judeu, pelo menos Albert o chama assim e além de vender livros e ter uma livraria, ainda se diz ginecologista, os dois começam a ter um relacionamento sexual silencioso, degustando a cada dia, revezando os locais do restaurante, primeiro no banheiro, depois locais na cozinha, depósito e até em um freezer gigante, eles transam com outras pessoas vendo, Georgina assume que faz isso na frente de qualquer um porque precisa de testemunhas para aquele sonho que está vivendo.

Com uma traição, acontecendo debaixo do nariz de Albert, encoberta por diversas pessoas que vivem ao seu redor, inclusive o seu sócio-cozinheiro, Albert sempre preocupado com os modos e a higiene das pessoas, sempre contando vantagem de si mesmo e das coisas que gosta e tratando com desdém aqueles que não se parecem com ele, não agem como ele e não gostam das mesmas coisas que ele. Enfim, Tudo é desvendado por Albert, que começa uma vingança e ele usa de todos modos culinariamente cruéis possíveis contra sua esposa e o amante, ao mesmo tempo que sua esposa também não deixa de lado a perversidade que pode criar uma mente querendo se vingança.

Um cozinheiro, um chefe, sua esposa e seu amante é um filme inteiro feito em estúdio, todos os cenários são construídos e belamente iluminados, cada cenário geralmente é de uma cor, a parte onde ficam os clientes do restaurante é sempre vermelha, com um grande quadro da revolução francesa ao fundo, tudo fortemente vermelho, o vermelho do sangue que escorre daqueles que são abatidos, lembrando toda a crueldade que acontece neste salão, principalmente as psicológicas e algumas físicas desenvolvidas por Albert, o banheiro é todo branco, simbolizando limpeza, é no banheiro que acontece o primeiro encontro carnal entre Georgina e o livreiro Michael. Na cozinha temos cores geralmente de alimentos, como o verde, o vermelho, o amarelo, e fora do restaurante, uma cinzenta e esfumaçada escuridão, as trevas que assola o mundo. A câmera passeia pelos cenários, geralmente com grandes planos-geral e longos planos-sequência, são poucos os momentos que vemos as expressões faciais dos personagens, o cenário que é lindíssimo, parece muito mais importante que boa parte das ações dos personagens, mesmo com maravilhosas atuações, nunca se perde o tom de intensidade seja em cenas de violência, de humor-negro, sexo e amor eterno.

Com um enredo cheio de ingredientes, misturando a submissão misteriosa do casamento entre Albert e Georgina, um ditador da alimentação num possível futuro, um estranho e intenso relacionamento sexual entre Georgina e Michel, a submissão revoltada de Richard que precisa do apoio de Albert para continuar com seu restaurante mas vai aos poucos moldando sua vendetta contra Albert e também na mesma situação de Richard, encontra-se Mitchel, lacaio de Albert, que parece paradoxalmente concordar e discordar de seu chefe, há ainda personagens secundários interessantes, a namorada de Mitchel uma mulher de geniosa que vive discordando de Albert e não leva seus desaforos para viagem, um artista que em um certo momento aparece para jantar e trata Albert com desdém, mesmo com Albert fazendo e pedindo o que ele quer, este é o único personagem que destrata Albert e não sofre nenhuma represália, um menino que trabalha na cozinha e vive cantando uma musica, um pouco desafinado de alguma ópera que desconheço e temos ainda o amante que é o intrigante livreiro Michel, que mesmo sem palavras, com seu grande conhecimento de leitura e literatura, conquista Georgina. Há diálogos ou mesmo monólogos de Albert que são muito interessante e quase toda frase no filme, faz com que você reflita sobre o assunto, um roteiro realmente fenomenal.

Talvez não agrade aqueles que não estão acostumados com filmes ditos de arte, pratos sofisticados e caros com longos planos-sequência, falta de planos mais fechados e cores mais agradáveis aos olhos, o filme é muito escuro, exceto quando há cenas no banheiro do restaurante. A mim, agrada muito como quebra de muitas técnicas e estéticas que estamos acostumados a ver na televisão e em filmes mais populares de Hollywood e de brasileiros também, ele ousa uma linguagem diferente, nada que eu já não tenha visto antes ou que não tenha visto mais ousada, mas tem uma ousadia particular quando ele usa da violência, seja ela nos diálogos, nas ações, na luz, nos movimentos de câmera e no seu olhar pessimista da humanidade, mesmo que o filme aparentemente se passe num futuro, algo que não fica totalmente esclarecido, mostra o modo que muitas pessoas agem no dia-a-dia num mundo que “ainda” não virou um caos, apenas por interesses naquilo que as pessoas podem lhes dar, seja dinheiro, poder, status e quando algo sentimental acontece, ele é penalizado. Todos estes ingredientes fazem deste filme um grande prato para qualquer gourmet do bom cinema.

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