Descartes + Leminski + Imagens

Ex-Isto (nacional)

Direção: Cao Guimarães.

Duração: 86 minutos.

Desta vez escolhi para figurar aqui no blog, um filme um tanto quanto diferente, ele começa sendo diferente, porque as sessões são gratuitas, isso mesmo, gratuitas no cinema Unibanco, o filme faz parte de uma série, produzida pelo Itaú Cultural chama Iconoclássicos, onde terá ao todo cinco ou seis filmes sobre personalidades brasileiras e este filme é o único baseado em um livro, o livro é o Catatau e também em outro do René Descartes.

Com a frase, replicada aqui com minhas palavras, “…e se René Descartes tivesse vindo para o Brasil com Nassau…”, e uma estranha figura, derretendo algo sobre uma vela, temos o início desta experiência audiovisual. Este é um filme que considero poeticamente imagético, porque apesar de ter áudio, efeitos sonoros e uma livre trilha, não tem diálogos.

O filme parte da premissa que Descartes teria visitado Pernambuco, com imagens lentas e extensos planos-sequência, Descartes está descobrindo as plantas, olhando calmamente as folhas, suas texturas, cores, sabores, algo da descoberta infantil, conhecer aquilo que está ao redor em todos os sentidos sensoriais, me lembrando uma frase que usava quando era mais jovem quando alguém não trabalhava, que era “fiscal da natureza”. Piadas a parte são imagens lindíssimas de Descartes num barco, sentindo a brisa do rio, olhando o movimento das águas, dos respingos de água que sobra sobre a terra quando ela rebenta sobre a beirada de uma rocha, apenas estudando paisagens bucólicas. É praticamente a metade do filme com estas imagens, imagens com pouquíssimo desenvolvimento de roteiro como estamos acostumados a ver, certamente chega a ser cansativo aos que não estão acostumados e até para quem não estiver preparado ou no sentimento para ver um filme com esta estética.

Num segundo momento Descartes continua seus estudos em uma feira-livre de Recife, ele passeia com seu olhar apaixonadamente curioso, olha a grande variedade de frutas e legumes que existem na feira, depois começa a pegar e sentir, destaca-se a cena em que ele pega uma abóbora ou jerimum como podem preferir os nordestinos e começa a senti-la com as mãos, lentamente percebendo, com um prazer quase sexual, aquele emaranhado de fibras do centro da abóbora, ele continua depois em um mercadão, como o que tem no centro velho de São Paulo. Ele vê um homem cortando um peixe, tirando o seu olho, que ele pega de lembrança, o olho do peixe, ele olha sendo totalmente intrusivo, incomodando aqueles que estão trabalhando e não se sentem bem com alguém lhe olhando tão intensamente.

Há outro momento que acredito que tenha que ser separado, em que Descartes começa a observar, tem um longuíssimo plano-sequência, onde ele está numa rodoviária ou terminal de ônibus em Recife onde ele fica observando todas aquelas pessoas em filas esperando pelo seu transporte, pessoas que passam rapidamente, apressadas, sem se importar com o que está acontecendo ao seu redor, com a gana de chegar logo em suas residências para desfrutarem de um jantar, um momento em família, descansarem e assistirem televisão, pessoas que se organizam tanto quanto formigas que esperam sua vez de trabalhar de levar a comida de volta para o lar.

Ex-Isto é um filme que curioso que certamente tira pessoas da sala, na sessão que fui, que já não estava muito cheia, saíram pelo menos umas cinco pessoas, por ser monótono em questão de ação de imagens, de não ter muitos cortes, de não parecer um filme de publicitário, de Hollywood. Gosto muito destes tipos de filmes, também posso me entediar com filmes deste tipo, mas tive a sorte de estar na freqüência certa para assisti-lo, é um filme magnífico, inclusive é um filme que eu faria como realizador, tenho o livro do Leminski, mas ainda não tive a oportunidade de lê-lo, talvez seja difícil desvincular as imagens que eu for ler o livro, com estas lindas imagens na memória, não seria pecado nenhum ler o livro. Acho que Cao Guimarães acerta em cheio ao fazer este filme, certamente é um ousado experimento que se não fosse patrocinado, inclusive os ingressos pelo Itaú possivelmente não teria sido realizado ou até mesmo conseguido mais de uma semana em qualquer sala comercial de cinema.

É bom ver que um filme tão rico em imagens, que traz a essência do cinema, que são as imagens para a tela novamente e poder ver um filme deste numa tela grande de cinema é sensacional, com imagens silenciosas que pouquíssimo ou nenhum ruído podemos sentir o poder de uma imagem, como se fosse uma fotografia em movimento, iluminada em local escuro sem a influência de barulhos eternos, admirando um ser, Descartes, belamente interpretado pelo ator João Miguel, que também atuou no filme Estômago, vestido com suas roupas da época da colonização, que ultrapassa o tempo e se torna alguém curioso e inocentemente espantado, querendo descobrir o quão louca é essa sociedade. Somente para aqueles que estão acostumados com filmes experimentais, lentos. Talvez eu seja uma das únicas pessoas que gostaram deste filme.

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Um comentário sobre “Descartes + Leminski + Imagens

  1. Excelente filme, excelente blogger, excelente texto. Parabéns. Gosto de Descartes. A sua contribuição filosófica continua sendo assustadora. Emseu blogger. blogspot. encontrei uma resenha do filme “Dias de Nietzsche em Turim”. Curiosamente fiz uma resenha, também, no meu blogger. Até

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