Allende! Allende!

A culpa é do Fidel!! (La faute à Fidel!)

Dirigido por: Julie Gavras.

Duração: 99 minutos.

Mais um filme que eu deveria ter assistido anos atrás, lembro de uma pessoa ou outra comentando do filme, mas nunca ninguém havia falado com tanto entusiasmo que me despertasse vontade de assistir o filme, no entanto, o bom de assistir filmes que você não sabe o que esperar é quando eles te surpreendem.

Anna de la mesa é a protagonista deste filme, uma pequena menina considerada normal pela alta burguesia francesa, mora num grande apartamento com seus pais e seu irmão, sempre que pode vai para a casa de campo onde moram seus avós, ela estuda numa ótima escola católica, se comporta direitinho e também tem um ar de superioridade quanto as pessoas que não fazem parte da sua vida, digno de quem tem sentimento burguês ou é da própria burguesia.

Quando uma tia e uma prima de Anna vem da Espanha para passarem um tempo com sua família em sua casa, as coisas começam a mudar, Anna não vai com a cara da sua prima espanhola, por ela não falar Frances e porque ela é uma comunista, segundo seus avós, os comunistas não são pessoas boas. O pai de Anna resolve viajar depois de saber que sua família está tendo problemas na Espanha e ele volta a suas origens comunistas e aproveita para ir ao Chile lutar na revolução, na época do Salvador Allende.

Anna muda-se para um novo apartamento, muito menor do qual vivia antes, a sua família começa a ter uma vida mais agitada e também mais simples, tornam-se vegetarianos, deixam de se importar tanto com coisas materiais e mais com a parte social e com as outras pessoas que vivem ao seu redor. O pai de Anna volta para o lar e o pequeno apartamento passa a ser base de encontros dos revolucionários franceses que apóiam Allende.

Certamente que Anna não quer deixar sua vida burguesa de lado, ela não quer deixar a escola e as mordomias que tinha quando morava em um apartamento maior, agora eles não tem mais empregadas, algo interessante acontece neste momento, eles continuam tendo uma empregada, mesmo que ela seja mais como uma ajudante em alguns trabalhos e não uma funcionária desprezada pela família e as crianças começam a desenvolver pequenos trabalhos em casa.

O pequeno irmão de Anna, poucos anos mais novo, parece se adaptar melhor e chega até a decorar musicas e gritos de guerra e começa a falar espanhol, que aprendeu com a moça de origem hispânica que trabalha na casa deles, aos poucos Anna vê que seu pequeno apartamento está cheio de pessoas estranhas durante as noites e um dia ou outro ela sai para conversar com eles, tendo debates totalmente sadios e interessante, aqui vemos tanto o questionamento com argumentos fracos por parte de uma burguesinha, mesmo ela sendo uma criança, mostra que os argumentos são os mesmos de um adulto e do outro lado adultos falando sobre seus ideais com um certo ar de arrogância revolucionária. Somente seus pais lhe ensinam de um jeito mais suave o socialismo, mostrando na prática como são as coisas e não apenas usando palavras de ordem e frases prontas no final de cada frase que dizem.

Na escola Anna começa a questionar o que lhe é ensinado e a professora que não está acostumada com isso, apenas lhe dá um castigo e faz com ela deixe de questionar, um bom paralelo com o militarismo que não aceita a opinião de outras pessoas, age com violência para calar e fazer com que as pessoas aceitem as suas idéias e também o sistema de ensino que de certa forma age de forma fascista, porque não há dialogo e questionamentos, seja em qual área for, tem-se que aceitar o que é dito como verdade absoluta e pronto, algo que a igreja também faz muito.

A mãe de Anna começa um projeto, são entrevistas com mulheres que sofreram algum tipo de violência, não fica explicitado o que é o projeto, se é um documentário ou material para um livro, parece que é sobre violência domestica, um dia Anna ouve uma das conversas e fica totalmente confusa a ouvir palavras como estupro, o que sua mãe lhe esclarece depois.

A culpa do Fidel é um filme para se admirar o enredo, o roteiro é muito bem escrito, o filme tem um belo ritmo, com todos os momentos políticos mostrados no filme, não fica algo forçado e panfletário, mostra muito bem o embate de uma geração burguesa que quer também ajudar politicamente, entrar de cabeça numa revolução para “um mundo melhor” e como as crianças, em processo de formação ideológica reagem com todas estas mudanças, com a quebra de tudo aquilo que lhes foi ensinado e conseqüentemente deixar de lado tudo aquilo que lhes foi ensinado e começar um novo processo, o filme me lembrou uma frase do livro O idiota do Dostoievski, que reproduzo aqui com as minhas palavras: “…que as crianças não podem ser tratadas como burras e ingênuas, elas entendem qualquer assunto de adulto e são até mais inteligentes do que os adultos…”.

Este é o primeiro filme da filha do famoso diretor Costa Gavras, famoso pelo também imperdível filme Z. Como complemento deste filme ainda recomendo outro filme sensacional, Machuca, um filme chileno que fala também da época em que Allende é perseguido e está tentando chegar a presidência do Chile, para implementar o socialismo no pais.

Cinematograficamente o filme não traz nada de novo, mas é muito bem feito, a fotografia é bela, os enquadramentos fogem um pouco do tradicional, a atuação dos atores no filme é sensacional, em alguns momentos, como o das reuniões no pequeno apartamento, parecem muito com cenas da vida real, praticamente como se deixassem câmeras ligadas numa festa particular, a direção do filme é impecável. Quem se interessa por bons filmes, gosta de pensar, gosta de visões políticas, de psicologia, de antropologia, é um ótimo filme para assistir e depois marcar um encontro num bar para dialogar as impressões com amigos. Um dos filmes mais lindos que eu vi na minha vida.

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