POESIA

Poesia (Shi)

Direção: Lee Chang-Dong

Duração: 132 minutos.

Este é um dos filmes que só resolvi ver porque ganhou Cannes, este filme ganhou melhor roteiro no ano passado. Não sabia o que esperar, fui assistir sem nem ao menos ler a sinopse e fui surpreendido, gostei mais do que Tio Bonmee, que ganhou melhor filme no mesmo ano em Cannes.

O filme inicia com uma linda imagem de um rio, camponeses com seus afazeres, a natureza fazendo seu trabalho tranquilamente,  até que algumas crianças que estão brincando, encontram um corpo boiando no rio, sem saber o porque que o corpo está ali. Corta para uma cena de uma senhora no hospital, Mija, que está começando a ter problemas de memória, Alzheimer, conversa com um medico sobre a sua situação. No hospital ela vê uma mãe desesperada porque sua filha morreu, uma cena que choca pelo sofrimento da mãe e pela apatia das pessoas ao redor quanto a situação que aquela mãe está passando. Assistindo a desgraça dos outros, talvez com algum prazer contido em seus interiores.

Mija é uma senhora que tem uma vida simples, trabalha cuidando de um senhor doente, cuida da sua casa, onde também vive seu neto e está sempre bem vestida e arrumada como se fosse para alguma festa. Depois de ver um anuncio de um curso para aprender a escrever poesias num centro cultural, resolve se inscrever para ocupar mais o seu tempo. Seu neto se envolve em uma situação extrema, que faz com que Mija fique muito triste e a todo momento tenta sensibilizar o neto de que o que ele fez não pode passar impune, ao menos em seus sentimentos. Os dois não tem um relacionamento muito amigável, mesmo que não brigando, eles não conversam e costumam não se encontrar muito.

Depois da primeira aula Mija começa a ser muito mais observadora dos detalhes, desde as cores de uma flor, até as crianças brincando na rua, agora ela tem a missão de escrever uma poesia até o final do curso, ela começa a freqüentar um grupo de poetas amadores que alem de poesias que agradam Mija, que são as que falam de amores e sentimentos “bonitos”, também usam palavras pesadas e até sexuais em alguns poemas, o que não agrada em nada Mija, ela acha que isso não é poesia, que é algo feio para ser usado em uma poesia, ela sente e gosta da poesia que fala de coisas bonitas, como se fosse algo de outro mundo, algo transcendental.

O neto de Mija parece não se importar muito com o que aconteceu, ele não tem sentimentos nenhum, mesmo tendo participado de estupros, junto com alguns colegas de sua turma no colégio, só que o colégio resolve que para não denunciar o caso, os pais dos alunos tem que pagar uma quantia em dinheiro para a mãe da menina que acabou cometendo suicídio depois de tantos abusos, é então que Mija, não sabe o que fazer, reunida com os pais dos outros garotos, ela diz que não tem como arrumar todo o dinheiro.

Mija trabalha algumas vezes na semana, mas deixa de trabalhar durante um tempo, depois que o velho senhor, que vive praticamente como um vegetal, lhe pede para lhe dar um “Viagra” e que ela lhe desse um pouco de prazer, mesmo ele lhe tratando sempre bem e lhe dando gorjetas alem do seu salário, ela se ofende com o pedido do velho senhor e vai embora e diz para ele que nunca mais voltará.

Desesperada, Mija visita a mãe da menina, mas não consegue dizer quem é, e por alguns momentos com a beleza bucólica do campo, diz e anota palavras para um possível poema. Mija não quer que o neto vá para cadeia, resolve fazer uma proposta para o senhor do qual cuidava e numa das cenas mais poeticamente violentas que eu já vi, que tem uma força psicológica que causa um desconforto e revolta, ao mesmo tempo que vemos o esforço de uma pessoa para ajudar outra, mesmo que o neto não pareça se importar muito com a avó, a cena pode ser até mesmo nojenta.

Poesia tem lindas imagens, a fotografia do filme é linda, é poeticamente imagético, como eu não via desde os tempos do cinema colorido do Kurosawa, ao mesmo tempo tem um roteiro incrível, que fez com que eu me envolvesse com a estória e também que tivesse reações diferentes durante as várias situações apresentadas durante as mais de duas horas. São poucos os filmes novos que tem a capacidade de desenvolver estórias tão bem entrelaçadas junto com belas imagens e apesar de se passar na Coréia, é uma estória universal que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo. Alem de ser um filme cheio de símbolos, momentos lentos, com atuações magníficas, principalmente nas partes onde não há diálogos, que somente com caminhadas, olhares, gestos sutis, Mija consegue passar toda a sua confusão mental diante de uma situação que deixaria qualquer um maluco.

Poesia é um filme poético, daqueles que tiram o fôlego a cada enquadramento, a cada situação que acontece, a cada suspiro de palavras que se jogam de uma ponte para a eternidade.

Anúncios

Um comentário sobre “POESIA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s