UNDERGROUND

Underground – Mentiras de guerra (Underground).

Direção: Emir Kusturica.

Duração: 162 minutos.


Demorei para assistir um filme do Kusturica, na verdade, estou a um bom tempo querendo ver algo dele, mas nunca tive a oportunidade e me falavam muito dele na Argentina, então resolvi baixar este, underground não sabia nem que ele tinha ganho Cannes e que o Kusturica é o único diretor a ter levado mais de uma vez a palma de ouro.

Underground começa com uma cena um tanto quanto inusitada, dois bêbados numa carroça com uma banda tocando atrás deles, Marko e Crni, Crni parece ser o mais louco e totalmente insano, Marko, apesar de acompanhar o amigo é o mais ciente do que está fazendo, eles gritam, atiram e vão andando por um vilarejo em Belgrano na Iuguslávia. Alem de viverem vidas extra-conjugais e viverem atrás de mulheres, chegam até a brigar entre eles por causa de uma atriz, que tem um envolvimento com um militar nazista.

Tudo parece bizarro no filme,  Marko e Crni vivem bêbados, arrumando confusão, eles fazem parte do partido comunista, e aqui parecem loucos que querem apenas se divertir. Em alguns momentos me lembrou alguns filmes do Monty Python, porém nem tão exagerado, mas com toques de humor junto de um assunto sério, que é o fim de um pais na leste europeu, a Iuguslávia. Em meio a tudas as situações, vemos um pais pobre, cheio de problemas sociais e sobre ataques da segunda guerra.

Após a segunda guerra mundial, muita coisa acontece com os personagens,  Crni vira um guerrilheiro e Marko vira um empresário do ramo de armas, confinando pessoas em um porão, no underground, para que eles construam armas para a “guerra” que já acabou, mas ele usa de artifícios que fazem com que as pessoas acreditem que a guerra não acabou, vejo aqui uma influência da caverna de Platão. O filho de Crni é um possível  messias, o visual dele lembra muito a imagem de Jesus Cristo.

No mundo real, a guerra acabou, mas, ainda há várias guerrilhas na Iuguslávia, na guerra civil que desmanchou a Iuguslávia em outros dois países, Crni vive com seu exército procurando pelo seu filho enquanto Marko vira um símbolo do pais e um cineasta começa a fazer um filme sobre a estória que ele contou, sendo que Crni que seria o “verdadeiro herói”.

Entre todas estas situações políticas acontecendo ao mesmo tempo, há diversos momentos que são emblemáticos, o subterrâneo onde diversos carros andam pela Europa, o filme sendo feito dentro de outro filme, as brigas pelo amor, a traição dos amigos, confinamento de presos, alienação e diversos outros assuntos que são abordados neste filme que tem quase três horas, mas que tem um ritmo muito bom, você não se cansa de ver a fabuloa de Marko e Crni que vivem grandes aventuras e os loucos personagens vão mudando conforme os acontecimentos, mostrando que as pessoas não são sempre as mesma e suas atitudes são influenciados pelo ambiente e as pessoas que vivem ao redor.

A loucura é um assunto bastante abordado no filme, mais uma loucura que nos remete a grandes empresários que exploram seus funcionários, a loucura das pessoas que vivem em função de apenas um sonho, a loucura das pessoas que se submetem a situações ruins pelo dinheiro, a loucura das pessoas que não conseguem esquecer seus passados e a loucura dos artistas que são capazes de qualquer coisa para alcançarem seus objetivos. Gosto do jeito que este assunto é tratado no filme, não é algo forçado ou dramático demais, pode até passar despercebido em alguns momentos, mas basta um momento de reflexão para enxergarmos uma mensagem ou um ponto de vista do Kusturica quanto a loucura do ser humano. E digo loucura porque as pessoas fogem muito do que estamos acostumados a ver na sociedade, por isso, se torna absurdo, porem, existe ao nosso redor e deixamos de enxergar, por uma vontade de que tudo seja bonito e perfeito.

Gosto do jeito que o filme foi feito, parece uma pequena produção, em alguns momentos com efeitos toscos, no entanto, deve-se ter gasto muito tempo para ser feito, nem tanto pela duração do filme, mas pela complexidade das cenas, há cenas grandiosas de batalhas, com bastante figurantes, as cenas em que gravam um filme. Há uma fotografia escura com momentos muito interessantes, a fotografia só fica mais clara no final do filme, quando há um “delírio” ou poderia dizer que é uma fantasia, com uma linda cena,  onde todos estão comemorando no litoral e um pedaço se desprende, se transformando numa pequena ilha, levando a Iuguslávia para sempre do mapa. Muito emblemática e simbólica esta cena, incrível.

O tom de sarcasmo quanto ao Socialismo, é um aspecto importante do filme, não que o filme seja contra ao regime ou movimento, só que não é tratado como o melhor modo para se viver. Ao mesmo tempo é criticado o modo capitalista que estão implantando, após final da segunda guerra, seja através de guerras, guerra fria e guerra civil, seja através do comércio e da exploração da mão de obra, o underground onde Marku manipula a informação e explora os seres humanos.

Underground mereceu todos os prêmios que foram conquistados, tem um ótimo roteiro, um direção impecável e é um filme lindo. Que infelizmente me faz pensar que o cinema está acabando, que não se faz filmes como esse hoje em dia, apesar de ainda terem filmes interessantes, a beleza de underground, não é encontrada com facilidade, uma pena. Kusturica fez desta obra um dos melhores filmes que já vi. Imperdível.

 

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