TUDO PODE DAR CERTO

Tudo pode dar certo (Whatever works)

Dirigido por: Woody Allen

Duração: 92 minutos

Sou fã confesso dos filmes do Woody Allen e este é mais um belo exemplo de sua genialidade com filmes de comédia, as comédias dele é claro exigem um pouco mais de conhecimento de diversos assuntos para que as piadas fiquem muito bem entendidas, já outras são tão comuns no nosso cotidiano que podem passar batidas, tem que ter uma atenção e uma sensibilidade extremas para aproveitar todo o roteiro.

Em Tudo pode dar certo um velho ranzinza e manco, Boris, dá aulas de xadrez para crianças e vive de conversas com alguns amigos artistas em bares da periferia de nova York, gaba-se de sua inteligência e conhecimento de cultura, mas também tem hipocondria e um enorme rancor da humanidade, tem algumas estranhas manias como a de lavar as mãos cantando duas vezes parabéns para você, me lembrou o vídeo do Obama ensinando a lavar as mãos enquanto fala o Abecedário. Boris acha que estão fazendo um filme da vida dele, ele fala diretamente com a câmera, assim como Allen já havia feito em Noivo neurótico, Noiva nervosa, até cita alguns estereótipos de espectadores no cinema, mas ninguém mais vê os espectadores, dentre os personagens do filme, eles acham que Boris é louco.

Boris começa contando como ficou manco, ele tentou se matar, mais caiu em cima de um toldo de algum comércio e apenas ficou manco. A estória começa a mudar depois que Boris conhece Melodie, uma garota nova que estava na porta de seu apartamento e lhe pede um prato de comida, seu charme simples, sulista e infantil, convence Boris a lhe dar comida, depois um local para dormir e depois um tempo pra ficar enquanto não arruma um emprego. Boris vive dando broncas em Melodie, porque ela vive dizendo frases prontas, ditos populares, que ele chama de clichê. Os dois acabam se apaixonando, Melodie pela inteligência de Boris e Boris talvez pela juventude e beleza de Melodie, que no início dava nota 3, talvez 5 depois de um banho, mas no final lhe daria nota 8 facilmente. Em alguns momentos Melodie também tem seus momentos de genialidade que provavelmente fazem com que Boris também olhe a vida com um ar de inocência e simplicidade que mostre belezas escondidas aos olhos cansados e ranzinzas de Boris.

O relacionamento dos dois não deixa de ser engraçado, com todo o conhecimento de Boris que diz que quase foi indicado a um prêmio Nobel em alguma área da mecânica. O relacionamento deles vai indo bem até que aparece a mãe de Melodie, uma perua do interior que foi traída pelo marido, o pai de Melodie, na cidade grande a mãe de Melodie conhece outros homens e um dom artístico, ela então começa a fazer exposições e vive com dois homens, os dois dormem na mesma cama, lembro de Aline, o quadrinho de Adão Iturrusgari, li que o filme foi escrito por Woody Allen em 1977, então, caso ele não tenha mudado o roteiro, não houve influência, mas é muito parecido, ela dormindo com os dois caras na mesma cama, e os dois sendo amigos, outra influência brasileira está na trilha sonora, que em dado momento toca Desafinada do Tom Jobim, que eu só conhecia na voz do João Gilberto, e confesso que não reconheci de início se não tivessem me avisado. Tem outras citações como o do serial killer americano Ted Bundy, aqui não muito famoso, mas que nos EUA fez um rastro de violência por onde passou. Estas me chamaram mais a atenção, mas tem muitas outras que podem ter passado despercebidas, já que não conhecia as influências ou que não me surpreenderam como estas que citei.

Depois de um tempo chega o pai de Melodie, que se assume gay e começa a se relacionar com um homem que conheceu em um bar. Melodie conhece um ator, o qual sua mãe que força que os dois se conheçam, desanimado com a vida, Boris se joga da janela, novamente ele fracassa em sua tentativa, acaba caindo em cima de uma mulher que tem algumas fraturas e ele sai ileso, ele visita a mulher no hospital, ela é vidente e talvez tenha visto que um homem iria cair do céu em sua vida e deixou que Boris caísse em cima dela. Há várias piadas muito boas, o filme tem um andamento muito bom, não tem como não se divertir e sair da sala não admirando o talento para fazer filmes do Woody Allen, e ainda é uma produção simples, barata, com ótimos atores Larry David que foi roteirista e produtor da série Seinfield interpreta com perfeição Boris, deveria ter sido indicado a algum prêmio certamente.

Vejo o Boris como um alter-ego do próprio Woody Allen, pelo menos da imagem que tenho de como o Woody Allen seja, um ser Misantropo que tem uma dificuldade extrema de conviver com o ser humano. Boris até chega a esculachar as crianças por não conseguirem entender suas aulas de xadrez e tem tolerância zero com quem não consegue manter um dialogo intelectual com ele. O final do filme tem uma piada que acho genial, mas vou me abster do comentário para que você não deixe de assistir este filme porque sabe o final, mesmo não sendo um filme de suspense, onde o final realmente importa. Um filme de comédia o importante é todo o contexto e as piadas e novamente elogio a genialidade de Woody Allen que fez um filme surpreendente. Veja.

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2 comentários sobre “TUDO PODE DAR CERTO

  1. Quantos comentários mentais fiz por aqui.

    Vou escrever um ou outro, nada muito importante.

    Sobre a influência musical brasileira em filmes de “gênios”, lembrei do Caetano cantando no filme do Almodóvar, Hable con Ella.

    Quando ouvi a melodia do “Desafinado”, não lembrei do Tom Jobim (http://letras.terra.com.br/tom-jobim/49032/), lembrei da interpretação de Os Desafinados, por causa do filme sobre eles (http://www.youtube.com/watch?v=sVp2gYV-zvs).

    Outras anotações mentais:

    Boris acha-se gênio, pelo que estudou, pelo que viu e por ter (depois diz que isso “quase” aconteceu) ganhado um prêmio Nobel.

    Ele começa um filme dizendo que não é um filme de auto-ajuda, que não veremos coisas bonitas. Essa é a sua maneira de ver as coisas. Nada é bonito mesmo. Nem a menina, que a primeira vista julga como uma prostituta do leste europeu, antes mesmo de que possamos ver o seu rosto ou que ele possa conhecê-la.

    Sobre a aparência física dela, o figurino vai mudando, na “evolução” da personagem, ela vai saindo de “roupas Lolita” (meias soquetes), teens (usa até dois rabinhos de cada lado, uma coisa meio Xuxa, anos 90). Depois ela começa a usar roupas que nos remetem mais à “mulher” madura.

    Nem sei nada sobre moda, só percebi que o figurino e maquiagem acompanharam o crescimento da personagem que tantas vezes repetia as “teorias” de seu ídolo gênio, sobre a vida. As “teorias” que repetia para seus amigos “minhocas”.

    Sobre a mãe dela, foi engraçado porque ela fazia fotos incríveis da filha, com uma Kodak antiga e nem imaginava que não estava só vivendo a vida da filha. Ela – “perua”-barbie, que chega na ‘casa da filha’, a casa de Boris, vestida toda de rosa -, fez um quarto escuro, sozinha. Acho que ela tinha mais do que dois neurônios, mais do que cabelo loiro e um conjunto rosa. Foi o que os amigos de Boris descobriram. Depois de desejarem seu “traseiro”, nunca admirado por seu marido – que no fim, descobre e confessa ser “gay”.

    É… e a Lolitinha, com nome de melodia, cresce ao cuidar de Boris, ao se descobrir naquela grande cidade. Cresce entre ser a mulher ideal para Boris, o gênio cocho. “Por que cocho se”… feio? Porque tentou se matar e não conseguiu. É, talvez nem tudo possa dar certo.

    Na segunda vez que tenta o suicídio, cai em cima de uma mulher. Médium. Talvez ela não tenha ganhado prêmio Nobel e talvez nem se importe com isso. Talvez ela não seja loira, nem o reensine a andar de bicicleta, como fez Melodie.

    Perguntam:

    – Se é médium, por que não previu que Boris cairia em cima dela, e ela teria que ficar dias no hospital, sem saber se voltaria a andar?

    – Talvez eu soubesse. – ela responde no filme.

    Vai entender porque ela queria o Bóris. Nos filmes de Woody Allen, os homens sempre têm todas as mulheres mais lindas, sexys, inteligentes, ricas e/ou religiosas.

    Bóris fora casado com uma mulher linda, inteligente e rica. Era professor, lecionava música erudita. Não era feliz. Pulou a janela pela primeira vez. Ficou manco, passou a ensinar xadrez para crianças que chamava de “burras”, chegou até a “deixar as peças do tabuleiro caírem” na cabeça do garoto” – como justificou ao ser indagado pela mãe sobre a agressão.

    Enfim… a supervalorização do cérebro, por parte de Bóris o levou para caminhos estranhos como janela abaixo, agressão física e moral a crianças e , principalmente, o levou a perder a companhia e suas duas grandes paixões: a primeira mulher e Melodie.

    E com sua nova mulher, em cuja cabeça caiu.

    Pergunto: “Quanto dura o amor?” (filme de Roberto Moreira)

    E o filme de Wooddy Allen me responde:

    “Tudo pode dar certo”.

    Seja o que for o tudo. Seja o que for o certo. Seja o que for que pode.

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