NÃO COPIARÁS.

NÃO PERTENÇO A LUGAR NENHUM: O CINEMA DE CHANTAL AKERMAN

(I DON’T BELONG ANYWHERE: THE CINEMA OF CHANTAL AKERMAN).

REALIZADO POR: MARIANNE LAMBERT.

DURAÇÃO: 67 MINUTOS.

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Depois de mais de um ano sem postar novos textos no blog, resolvi voltar a escrever depois de assistir ao maravilhoso documentário sobre Chantal Akerman. Pude assistir a esse filme graças ao Festival É TUDO VERDADE – 21º Festival Internacional de Documentários 2016, em São Paulo.

Chantal Akerman foi uma cineasta belga, que dirigiu por volta de 50 filmes, tanto para o cinema quanto para a televisão. Faleceu em 05 de Outubro de 2015 aos 65 anos.

Para você se empolgar com esta história, vou contar um trecho de uma das histórias que a própria Chantal narra. Ela diz que trabalhou em um cinema pornô como bilheteira e dava meio ingresso para cada pessoa. Com o dinheiro que guardava, pôde fazer dois dos seus primeiros curtas metragens: LA CHAMBRE e SAUTE MA VILLE”.

Acredito que o filme conseguiu captar e transmitir com maestria a intimidade e o lado sentimental de Chantal Akerman, quando mostra o relacionamento com sua mãe por exemplo. Elas trocavam cartas frequentemente, desde que Chantal saiu de casa, para ir à Nova Iorque. Tais cartas, apesar de serem simples relatos do cotidiano dos parentes distantes, continham um afeto nas entrelinhas, e também continham dinheiro que a Mãe enviava, com a preocupação de que não passasse por necessidades. No filme, há uma cena em que as duas conversam por Skype (ou algum programa do tipo) e podemos ver a relação de afetividade que as duas tinham, mesmo que Chantal estivesse sempre viajando pelo mundo e sua mãe estivesse na cidade de Bruxelas, elas mantinham uma ligação muito forte.

Outro aspecto do filme é a relação de Chantal com o seu modo de fazer cinema, que inclui a questão da estética, dos temas e de seu modo direção.

Chantal, desde seus primeiros curtas metragens, resolveu sair do senso comum e não fazia filmes para se tornarem grandes blockbusters, apesar de ter tentando isso através de uma comédia, com Juliette Binoche e William Hurt, chamada UM DIVÃ EM NOVA IORQUE.

Seus filmes eram experimentais, abordavam temas tabu para a sociedade. Continham cenas de nudez, homossexualismo, mulheres em depressão, tudo isso com muita influência autobiográfica.

A estética que Chantal desenvolveu é totalmente contrária ao cinema de Hollywood, preza pelas câmeras fixas e planos longos. Como ela mesma diz no filme, isso proporciona uma leitura completamente diferente das imagens e prioriza a atuação do elenco, faz com que o espectador tenha a possibilidade de olhar para a imagem e ver coisas não óbvias, detalhes além do foco principal da cena, para que haja outras interpretações. Outras informações aparecem ao espectador e não apenas algo específico e direto, o que não permite e não dá tempo do espectador pensar sobre aquilo, que não dá tempo do espectador captar e interpretar as imagens, o ambiente, os detalhes, Chantal faz um cinema inverso a isso.

Acerca deste olhar, que proporciona “cenas mais lentas” nos filmes de Chantal, Gus Van Sant, um dos únicos entrevistados que aparecem no filme, fala que ele passou o filme JEANNE DIELMAN para o ator Michael Pitt assistir, como preparação antes de filmar OS ÚLTIMOS DIAS, para que Pitt entendesse a relação que um personagem tem com as locações, principalmente a relação com a casa e seus objetos, para que a locação fizesse parte das cenas como um personagem a mais. No filme JEANNE DIELMAN de Chantal, há uma “dona de casa” fazendo todos os seus serviços diários, de maneira apática ao cansaço, tristeza ou alegria, a personagem apenas cumpre solitariamente as tarefas do cotidiano.

Um dos pontos importantes abordados no filme, é o modo de direção de Chantal, ela própria conta sobre uma briga que teve com William Hurt. Ele queria ficar improvisando, e ela queria apenas que ele seguisse o roteiro, “porque em uma comédia a graça está nas frases e movimentos colocados nos momentos certos”. Vale dizer que William Hurt acabou cedendo e conseguiram fazer o filme.

Já a atriz do filme JEANNE DIELMAN, outra entrevistada no documentário, fala sobre como Chantal a fazia repetir cenas até que alcançasse as sutilezas e detalhes de movimentos e luz dos personagens.

Os filmes de Chantal são feministas, homossexuais, controversos ao status quo social, e às fórmulas para filmes de sucesso de bilheteria de sua época. Por outro lado, Chantal não quis fazer filmes segmentados, não queria que seus filmes passassem em festivais de diversidade sexual, judeus, só para mulheres e etc, ela queria que seus filmes passassem em festivais que não tem segmentação.

Ela ousou em colocar longos planos em seus filmes, em pensar que o telespectador não é alguém que apenas está lá sentado para ser hipnotizado por um filme, está para ser incomodado, para pensar sobre as propostas de assuntos que o filme promove, para fazê-lo sentir, ter uma experiência sensorial que se constrói e não a recebe pronta através de diversos estímulos de um “cinema de publicitário”.

NÃO PERTENÇO A LUGAR NENHUM tem esse título porque Chantal morou em diversos locais, e consegue contar a história de Chantal apesar de ter apenas 67 minutos. Conseguindo ser totalmente profundo, fala da relação de Chantal com sua mãe, a relação com a história da sua família – que morreu nos campos de concentração em Auschwitz, os lugares onde morou, e como tudo isso acabou sendo influência em seus filmes. Mostra ainda, como ela trabalhava com atores, porque filmava do jeito que filmou, e como pensava que deveriam ser os seus filmes, o que eles deveriam transmitir e transmitiam. Um filme sensível, completo, que cumpre em contar a história da Chantal e deixa o espectador que não conhece seus filmes, com vontade de assistir toda a sua filmografia.

OBS: tem diversos curtas e longas completos dela no youtube, sem legendas, mas com uma boa procura pela internet você encontra alguns desses filmes legendados em português.

(Revisão do texto: Talita Bello).

TRAILER (COM LEGENDAS EM INGLÊS).

RESISTÊNCIA CLITORIANA.

Moolaadé (Moolaadé).
Dirigido por: Ousmane Sembene.
Duração: 126 minutos.

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São raros os filmes africanos que chegam ao Brasil e que tenhamos acesso para assistir, apesar deste filme ser produzido pela França, não sei se o filme estreou no Brasil, as informações que tem na internet dizem que não. Este filme só assisti porque ele foi o ganhador da categoria “um certo olhar” do festival de Cannes.

Este é um filme que acontece bastante coisas e há diversos personagens durante suas pouco mais de duas horas de duração. Em uma pequena comunidade africana, colonizada pelos franceses, é uma comunidade muçulmana.

Algumas meninas se refugiam na casa de uma mulher chamada Collé, estas meninas fugiram de um ritual de purificação, que é uma tradição na comunidade, em uma certa idade, as meninas são sujeitas há uma espécie de operação, onde é retirado o clitóris das meninas. Paralelamente a está estória, um vendedor, que é chamado de Mercenário, chega a cidade, ele vende utensílios domésticos, pilhas, roupas e pães. É interessante ver que como na comunidade não há energia elétrica, as mulheres, em sua maioria tem um rádio a pilhas, onde ouvem notícias e música, é uma das únicas formas de conhecer moolaade-02o que acontece fora daquela comunidade, a pilha é quase essencial para estas mulheres que ficam a maior parte do tempo em suas casas, cuidando da casa, dos filhos e dos maridos. Estas duas situações agitam a vida na cidade.

O grupo de mulheres que faz a purificação, vai atrás das meninas que fugiram, mas não são bem recebidas por Collé que fez algum tipo de magia e que as meninas não podem sair do terreno onde vive Collé com as outras esposas do marido que está viajando a trabalho. Instala-se uma briga entre Collé e o grupo de mulheres, este último vai atrás do ‘senhor’ da cidade que faz uma reunião com outros homens para julgarem o caso.

Há vários aspectos interessantes neste filme, um deles é que o roteiro do filme pode conversar com diversas culturas, mesmo não vivenciando aquela situação, creio que boa parte do ocidente não conhece este tipo de situação onde uma mulher tem que passar por um ritual e ter seu clitóris retirado, mas, ao mesmo tempo, a mulher hoje em dia e Moolaade_Village_Life_1historicamente tem sido privada de muitas coisas que o homem tem direito, daí pode-se imaginar um paralelo com a estória do filme e não apenas uma estória absurda que acontece em um povoado em algum lugar da áfrica.

Mesmo a estória principal ser do ritual para a retirada do clitóris das meninas, ainda temos algumas estórias paralelas que complementam e engrandecem o filme. Por exemplo, o vendedor que vem para uma cidade que não há mercado, não há comércio algum na verdade e traz diversas mercadorias e ele pode vender ao preço que achar melhor, porque as pessoas não tem outra opção de local para comprar e talvez nem conheçam o preço das coisas em outro lugar. Há também as decisões que são tomadas apenas pelos homens, as mulheres não tem direito a escolher e decidir sobre o próprio futuro delas sem que os homens deem suas opiniões, não me parece muito diferente de hoje, apesar de haver uma igualdade de gêneros em alguns locais, profissões e lares, ainda há uma grande disparidade entre os direitos dos homens e das mulheres, seja formalmente, através de leis, seja informalmente, através de costumes e culturas obsoletas.

moolaade PDVD_003Depois de alguns outros incidentes, vemos novamente o homem culpando a mulher pelo que acontece de ruim, elas se rebelando é culpa do rádio, porque elas ouvem o que não deveriam no rádio, enquanto isso, algumas meninas morrem, tanto por suicídio após fugir do doloroso e desumano ritual, e outra pelo ‘processo cirúrgico’ sem muitos cuidados higiênicos e de caráter de precisão cirúrgica também.

Collé tem que ser punida em público, porque ela não quis que a filha passasse pelo processo alguns anos atrás e ainda resolveu dar abrigo há algumas meninas para que não passassem pelo bárbaro processo, enquanto Collé é chicoteada pelo marido em público, com as mulheres revoltadas e os homens omissos, cumprindo ordens de velhos senhores que decidem o que é melhor para a comunidade, o homem que parece ter menos escrúpulos, é o que faz com que Collé deixe de apanhar, o Mercenário entra na frente do agressor e proibe que ele continue agredindo aquela mulher, e isto traz consequências terríveis para o Mercenário, um estrangeiro, alguém que não faz parte da comunidade não pode intervir nos assuntos decididos pelos anciãos da comunidade.

Outro assunto que é mostrado no filme, é o dos casamentos arranjados e de um membro da comunidade ir trabalhar na colônia e trazer dinheiro para a família e para a comunidade, este membro parece até um herói quando retorna a comunidade, é ovacionado por todos e há até uma festa de recepção para ele e ele traz inovações tecnológicas para a sua família, como um televisor, que não tem lá muito sinal para funcionar. Um personagem muito interessante neste filme é o que eu chamo de ‘jornalista’ que é um homem que sabe de muitas coisas que acontecem na comunidade e ele fala/declama/canta as notícias, em eventos e durante algumas situações para que todos saibam o que os ‘donos’ da comunidade quer que a população em geral saiba, este ‘jornalista’ não sai contando tudo que ele sabe, ele conta aquilo que um pequeno grupo quer que ele conte.

Diante de um roteiro cheio de estórias interessantes que convergem na estória principal que é o da ‘purificação’ ficam diversas imagens surpreendentes, como imagens, de um local árido, de uma comunidade cheia de animas soltos, de pés descalços, de mulheres que sofrem para conseguir manter seus filhos bem cuidados, de uma ‘montanha de rádios’ para serem queimados, de cenas de meninas sofrendo em nome de um ritual, de reuniões de homens de poder para decidir o que é melhor para a sociedade, de personagens algumas vezes caricatos, mas reais.

Moolaade6O filme em si é muito bonito, é um filme consistente, muito bem realizado, que suscita muitos questionamentos, que mostra uma cultura que pode parecer distante e ao mesmo tempo muito próxima em seus papéis hierárquicos, colocando sempre um pequeno grupo de homens decidindo o que deve ser melhor para outras pessoas, e que não veem a real vida que estas pessoas levam e o que realmente é melhor para elas, que em nome de uma tradição, da interpretação de um livro, estas pessoas, se veem como representantes de uma forma de opressão e quando são questionadas, quando há uma revolta, estas pessoas agem com violência para oprimir ainda mais estas pessoas. Mas, como mostra o filme, as pessoas, cansam de apanhar e em algum momento a coragem se torna maior que a dor e elas buscam com mais afinco o direito delas e isto assusta ainda mais os opressores.

Moolaade é um filme complexo, é um filme maravilhoso, tem tanto assunto para debater, para refletir em uma pequena comunidade, que também pode representar uma sociedade maior com certeza. Não sei até onde o diretor, que não conheço outros trabalhos e nem sua biografia, tem intenção de suscitar tantos assuntos, mas, a maioria deles me pareceu bem explícito, mesmo duvidando do meu julgamento que tende para a crítica social e os modos de dominação governamental. Assista esta obra-prima do cinema mundial e tire suas conclusões, acrescente conhecimento histórico e cinematográfico com este belo filme.

 

TRAILER:

20 MELHORES FILMES DE 2014 (QUE ASSISTI EM 2014).

Como o final de ano é recheado de listas eu resolvi criar uma lista para 2014, só que está não é uma lista de filmes necessariamente lançados em 2014.

Resolvi fazer uma lista com 20 filmes que gostei muito e vi em 2014 e que por um motivo ou outro não escrevi sobre eles para o blog.

(Sem ordem de preferência).

 

LUCY (de Luc Besson).

LUCY, Scarlett Johansson, 2014. ph: Jessica Forde/©Universal Pictures/courtesy Everett CollectionUm dos filmes de ficção-científica da nova geração que mais gostei nos últimos tempos, curto e direto.

A LÍNGUA DAS MARIPOSAS (de José Luis Cuerda).

a-lingua-das-mariposas Uma aula de como fazer um filme sutil e político ao mesmo tempo.

LOLITA (de Stanley Kubrick).

arts-graphics-film_1189456aKubrick! Só de citar seu nome seria o suficiente, que atuações! Que atuações!!!

UMA DOSE VIOLENTA DE QUALQUER COISA (de Gustavo Galvão).

460235Road Movie nacional, meio doido, meio surreal.

A DANÇA DA REALIDADE (de Alejandro Jodorowsky).

la_danza_de_la_realidad_-_bande_annonceJodorowsky!!!!!!

FRANK (de Lenny Abrahamson).

frankUma história estranhamente interessante, baseado em uma história real, com música melhor do que do compositor original.

AMANTES ETERNOS (de Jim Jamursch).

Lovers-3Um filme de vampiro hipster, um dos melhores de vampiro que já assisti, sem todo aquele exagero gótico.

MAHLER (de Ken Russell).

Robert-Powell-as-Mahler-1-007Ken Russell é filme exagerado, experimental, Mahler foi um dos melhores compositores de música clássica, uma junção surpreendente.

O LOBO ATRÁS DA PORTA (de Fernando Coimbra).

37ca2c8784bc188440719133e389591921bd918dCom final surpreendente, um dos melhores filmes de suspense do cinema brasileiro.

O HOMEM DAS MULTIDÕES (de Cao Guimarães e Marcelo Gomes).

20140731072549375474uUma das melhores experimentações estéticas do cinema brasileiro, que tive a oportunidade de assistir.

METRÓPOLIS (de Fritz Lang).

????????????????????????????????? Descobri porque é um clássico grandioso.

O HOMEM URSO (de Werner Herzog).

grizzly_man_331_Outro cineasta que não precisa falar muito, documentário chocante sobre um homem que vive entre ursos.

22 DE MAIO (de Koen Mortier).

soudainle22maiSobre um atentado terrorista em um shooping na França, louco e impressionante.

AVANTI POPOLO (de Michael Warhmann).

maxresdefaultÚltimo filme com o cineasta Carlos Reichenbach atuando, filme muito interessante.

HAMLET (de Cristiano Burlan).

004Para quem não conhece Shakespeare é um ótimo filme, Hamlet trazido para uma louca e bizarra São Paulo em 2014.

O IMPOSTOR (de Bart Layton).

Imposter_2012O documentário mais interessante que já vi na vida.

HABANASTATION (de Ian Padrón). JSnRrFilme cubano sobre dois meninos em um Playstation quebrado.

KAFKA (de Steven Sodenbergh).

4594154_l4Um ótimo filme sobre Kafka.

DRIVE (de Nicolas Winding Refn).

in-the-parking-lotUm dos filmes mais violentos que já vi na vida.

CINE HOLLIUDY (de Halder Gomes).

cine-holliudy-saltoUma das melhores comédias feitas neste país com linguajar nordestino.

ARTISTA NÚ.

Nick Cave – 20.000 dias na Terra (20.000 days on Earth) – 2014.

Dirigido por: Lain Forsyth e Jane Pollard.

Duração: 95 minutos.

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Tive a oportunidade de assistir este filme em um festival em São Paulo, o indie 2014, achando que iria lotar a sessão, cheguei muito mais cedo para garantir os ingressos, o que não seria necessário, o pessoal preferiu outros programas para um final de noite de um sábado. Gosto muito do trabalho artístico de Nick Cave, desde seu trabalho musical, que é o mais conhecido, até seus roteiros e livros, este filme foi uma bela oportunidade de conhecer quem é Nick Cave e como isso influencia na sua criação artística.

O primeiro plano do filme é de Nick Cave dormindo e acordando em sua grande cama, em seu grande quarto junto de sua esposa. Daí corta para um clipe de abertura com imagens dos 20.000 dias anteriores de Nick Cave na Terra, um clipe muito bem feito com 20000-days-on-earth-bigshotum som bastante forte estalando no cinema, mostrando logo de cara a potencialidade da música do cara, se tinha é que tinha alguém na sessão que não o conhecia.

O filme é muito bem amarrado, as cenas são muito bem pensadas para que possa contar os momentos marcantes da carreira de Nick Cave. Para contar um pouquinho da estória pessoal dele, ele vai até um psicoterapeuta e conversa sobre a sua infância, o papel que o pai teve em sua formação, lembranças remotas e como ele lida com o casamento e os filhos hoje em dia. Quando ele quer conversar com alguém do seu passado ele tem devaneios enquanto desloca-se de um lugar para outro em seu carro, nestes devaneios é como se a pessoa aparecesse como se fosse uma entidade, um fantasma, a pessoa responde como eles se conheceram e algumas perguntas que ficaram ou surgiram posteriormente no relacionamento com a pessoa que aparece, aparecem parceiros musicais principalmente, como a cantora Kylie Minogue que participa do clássico disco ‘Murder Ballads’. Para investigar mais o seu passado, os realizadores usam de um recurso muito interessante, eles vão até um 20000-Days-On-Earth-bilde-4estúdio de um amigo de Nick Cave e lá eles olham fotos antigas de seu acervo pessoal que estavam em uma velha caixa e comentam principalmente sobre o início de sua carreira musical e das presepadas e encrencas que arrumava no início da carreia. Quando ele encontra sua banda os Bad Seeds vemos a sua relação com a banda e seu modo de composição conjunto com a banda em momentos quase sempre tranquilos, não há brigas, nem nada e o que parece ser o principal compositor e produtor da banda Warren Ellis tem uma boa conversa com ele enquanto almoçam em uma casa de campo na Inglaterra. Outros momentos temos de Nick Cave em sua máquina de escrever, escrevendo suas letras.

O filme não é apenas para pessoas que gostam do trabalho do Nick Cave, ou de sua figura, excêntrica e em alguns momentos com um grande ‘ego’. 20.000 dias na Terra é um filme para quem gosta de conhecer a história de figuras que criam arte, como é parte do seu processo de criação, um pouco de sua intimidade com seus filhos, seus cave_3043460bcomplexos do passado e o principal é ver como que de um rockeiro ‘porra louca’ ele se torna uma pessoa metódica, que acaba usando da música como um trabalho comum, um exercício de criação metódico, que funciona. Ele mora numa bela casa em uma cidade do interior da Inglaterra, tem um estúdio, escreve e compõe com sua banda, que parecem ser seus amigos e assim Nick Cave cria suas obras, sejam elas musicais, sejam elas literárias.

Uma parte do documentário foca sobre a composição do último disco ‘Push the Sky Away’, mostra mais como eles finalizaram as músicas e em alguns momentos ele fala como surgiu a idéia para algumas delas, não de forma direta, mas através de metáforas visuais com as imagens do filme. Ele canta a sensacional músical ‘Higgs Boson Blues’ que ele cita Hanna Montana que era o alter-ego na tv infantil para a hoje ‘abusada’ Miley Cyrus, fico me pensando se Nick Cave assisti muita televisão, lê sobre música popular ou foi através de seus filhos que ele conheceu esta personagem da música que o influenciou a escrever uma parte de uma letra de uma música totalmente surreal, mas também pode ser só uma impressão que ele passa de que ele é um ser recluso e não está sempre informado com o que acontece no mainstream.

Li e ouvi muito que o documentário era misturado com ficção, eu não acredito nisto por mais o filme tenha algumas cenas que pareçam terem sido ensaiadas ou combinadas anteriormente, é a própria vida de Nick Cave que está sendo encenada, com as pessoas que fazem parte da sua vida, não é algo invento, é apenas planejado, por isso creio que o 488728581_640filme seja apenas um documentário. É claro que não é um documentário que se liga a câmera e espera-se que as pessoas digam algo bom para ajudar a contar uma história, mas é outra forma de fazer um documentário. Penso no modo de fazer documentários, porque diante de uma câmera, as pessoas se transformam, elas podem estar atuando mesmo sem ensaios, mesmo sem ser atores, o que seria filmar a realidade então? O documentário é a realidade? Creio que o documentário é muito mais a não-ficção recortada sobre uma visão particular de um ou mais realizadores.

20,000 Days on Earth Voltando ao filme, a parte técnica é perfeita, as câmeras são muito bem posicionadas, a cor do filme combina bastante com as sensações que passam a maioria dos discos do Nick Cave, as entrevistas são muito boas, as partes encenadas ou planejadas como eu prefiro são totalmente críveis, a montagem do filme também é muito boa, os trechos de shows antigos e a hora que entra a música tem o “timing” certo, não há exageros em ter muita apresentação musical e nem apenas as pessoas falando, é um filme certinho, bem feito, bem montado e dirigido. Mesmo com o ego inflamado de Nick Cave, a última cena do filme, mostra aos poucos que Nick Cave é apenas mais um pequenino em um lugar tão grande que é a Terra.

TRAILER:

NÃO HÁ ESPERANÇA PARA A HUMANIDADE.

Vida sem destino (Gummo) – 1997.
Dirigido por: Harmony Korine.
Duração: 89 minutos.

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Este filme me chamou a atenção porque li em uma sinopse que era um filme sobre a podridão humana. Só não achei que o filmei cumpriria tão bem o que a sinopse dizia, através de uma estória em uma cidade do interior de algum lugar dos EUA. No filme são focadas as pessoas e famílias que de alguma forma são pessoas à margem da sociedade, são pessoas que vivem bêbadas, que cometem pequenos delitos, que tem problemas mentais, que não tem oportunidade de melhorar, são pessoas que vivem em meio a lixos, famílias desestruturadas e que não tem capacidades de viverem na sociedade como é ditada hoje em dia.

Gummo-1Apesar de existirem vários personagens há um que parece conduzir o filme, que é um menino de aproximadamente 13 anos chamado Solomon e que junto com um amigo mais velho chamado Tummler matam gatos para vender para um açougueiro local, que lhes paga alguns poucos dólares e lhes dão pequenos pedaços de carne, Solomon usa este dinheiro para comprar bebidas e também para pagar para transar com uma jovem que aparenta ter problemas mentais e é explorada pelo irmão como prostituta, os dois costumam transam com ela, um de cada vez. Os dois amigos vivem suas aventuras, mas ao mesmo tempo estão sempre entediados, Solomon, vive com sua mãe, uma mulher que desistiu de arrumar a casa, parece estar em depressão e cuida dele quando pode, ele se vira sozinho, mas ela parece gostar muito dele, que teve seu pai morto, provavelmente em alguma guerra. Uma 1das cenas do filme que se tornaram clássicas, visto a quantidade de imagens sobre ela na internet, é a cena em que a mãe de Solomon leva um prato de macarronada para ele enquanto ele está na banheira e enquanto ele come ela lava seu cabelo e lhe dá uma barra de chocolate, ao mesmo tempo em que é uma cena de integração entre mãe e filho, é uma cena que beira o destrato, pelo ambiente sujo e por misturar comida com água suja, sabão, tudo no mesmo ambiente.

Os personagens são personagens totalmente entediados que procuram de alguma forma deixar aquele tédio de lado e conseguir algum tipo de diversão, seja dançando em cima da cama, matando gatos, bebendo, usando drogas, fazendo sexo, urinando em carros de cima de uma ponte, brincando de policia e ladrão, o filme mostra diversas formas que estas pessoas tentam sair da letargia de suas vidas miseráveis e sem esperanças. Os personagens são pessoas comuns de alguma cidade suburbana dos EUA, são crianças que não sabem o que fazer e procuram explorar a vizinhança, adolescente que querem maxresdefaultse tornar adultos através de drogas, bebidas e sexo, adolescentes preconceituosos e racistas, mulheres sentadas na varanda enquanto conversam superficialidades, pessoas aproveitadoras tentando ganhar dinheiro com o mínimo de esforço possível, no geral são pessoas perdidas em si mesmas antes de qualquer possibilidade de sociabilidade.
A aparência de sujeira, de que tudo é sujo está no filme inteiro, não vemos em nenhum momento, um local limpo, isso tudo causa certo nojo e angústia, toda essa sujeira, muito lixo na verdade, mostra o desleixo que há com aquilo que não será consumido mais, com aquilo que não há utilidade e simplesmente fica largado em algum lugar, não sei dizer ao certo qual a relação de ambição dos personagens, eles não parecem querer muito mais do que aquilo que eles têm, as meninas querem um namorado, uma menina quer seu gato, o menino coelho algo para fazer, Solomon me parece procurar algum tipo de amor e assim o filme vai mostrando esta sociedade que com a vida moderna, não parece se gummo-chloe-sevignyimportar com o lixo em suas vidas, faz o que está mais próximo conseguir para manterem-se vivas.

Este filme me causou uma sensação de que o mundo está perdido e podre, não vejo como uma alternativa para a sociedade burguesa, branca e ocidental, o que é mostrado no filme, e sim uma sociedade atual totalmente excludente que tem de um lado a tecnologia, os ativistas, planos para uma sociedade igualitária, projetos para se chegar ao espaço, curas para doenças inventadas, no filme é mostrado uma sociedade a margem que está totalmente desesperançada e as pessoas vivem suas vidas destrutivas porque é o único modo de viver que tiveram a oportunidade de conhecer, o lado podre da desigualdade. Acho que mais do que mostrar a realidade é um filme para tirar a esperança, um filme cético em relação ao futuro da humanidade.

gummoA estética do filme é muito boa, consegue sincronizar a parte técnica com as boas atuações e o modo de contar a estória. O filme tem muita câmera na mão, enquadramentos de dentro de carros, enquadramentos não convencionais, a montagem é muito bem feita, alguns momentos do filme são quase testemunhais de documentário, há inserções com os personagens em cena solo olhando diretamente para a câmera, tudo somando para que o filme seja o mais realista possível, você pode até sentir a podridão daqueles personagens enquanto assiste ao filme, é claro que é um filme independente feito sem muito dinheiro, mas é um filme muito bem realizado, não vi nada no filme que tirasse a minha atenção para a estória que estava sendo contada e um desvio ou quebra da sensação que o filme quer passar.

968full-gummo-photoNão descobri o que significa o nome ‘Gummo’, mas creio que o personagem do ‘menino coelho’ representa o título do filme, a sonoridade lembra muito “bunny” que quer dizer coelho em português, e essa fofura que representa o coelho, pode ser encontrada, nos momentos de alegria que estes personagens encontram em todo o tédio de suas vidas miseráveis e tediosas, mesmo em toda a merda eles conseguem encontrar momentos que conseguem se divertir um pouco, mesmo que estes jovens muitas vezes acabam se comportando com sexualidade de adultos e muitas vezes pegando doenças ou tendo filhos precocemente e transando sem afeto, tentando encontrar naquele prazer algo além para suas vidas tediosas. Também pode ser um modo de mostrar que as pessoas gostam de ver a “podridão” da qual não fazem parte, que os amantes do cinema alternativo querem estar mais pertos da podridão dos gummo-weightlifting-e1373279419200outros e estarem assistindo isso da tranquilidade de um cinema ou de suas casas, Harmony Korine mostra esta sujeira para este público sedento por podridão.

O diretor Harmony Korine não é um diretor convencional, ele não faz filmes para agradar, já teve outras incursões cinematográficas suas que tive a oportunidade de assistir e são filmes totalmente podres, no sentido de mostrar uma sociedade que está cada vez mais se afundando, se autodestruindo e “Vida Sem Destino” que foi o título no Brasil é mais um destes filmes sem esperança na humanidade do diretor que também escreveu o também controverso ‘Kids’ e é o tipo de cineasta que não fica preso em fazer longas, ele faz documentários, curtas e filmes para a tv. ‘Gummo’ ou ‘Vida Sem Destino’ é um filme para sentir-se mal. ‘Gummo’ é um dos filmes mais sujos que eu já assisti, de uma sociedade totalmente desorganizada, preconceituosa e sem perspectiva de um futuro melhor.

 

TRAILER:

EXCLUÍDOS E AGREDIDOS (ou o VOYEURISMO DOENTIO).

Titicut Follies (Titicut Follies) – 1967.
Dirigido por: Frederick Wiseman.
Duração: 84 minutos.

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Acredito que haja alguns seguimentos de filme documentário, tem o documentário investigativo/jornalístico, tem o documentário com entrevistas, tem o documentário que é a realidade filmada e montada, provavelmente o mais realista dos documentários e também há a possibilidade de fazer uma mistura de todos estes modos de fazer um filme documental. O caso de Titicut Follies pode ser enquadrado como documentário realista. ATENÇÃO: Estas definições e visões sobre documentários foram pensadas por mim e não segue nenhum estudo acadêmico sobre o assunto, você está livre para discordar delas.

titicut follies PDVD_011Titicut Follies foi filmado em uma prisão para presos com problemas psiquiátricos no estado de Massachussetts nos EUA, o documentário mostra de uma maneira invasiva o cotidiano dos internos, dos funcionários carcerários, dos médicos e da diretoria e dia-a-dia do hospital.

A câmera quase sempre fica sobre um personagem e ele vai interagindo com as pessoas ao seu redor, por exemplo, temos uma pessoa que faz um discurso comunista enquanto um ou outro começa a rebater o discurso, algumas pessoas aplaudem, outras gritam. Tem um homem que é músico, um canta uma canção, outro que diz não estar louco e que ele precisa voltar para a prisão comum que ali não é seu lugar, tem pessoas que não querem fazer a higiene pessoal, outros não querem comer, há sempre estes personagens mergulhados em sua insanidade, alguns parecem até atuar para a câmera em alguns momentos, mas a maioria parece não se importar com a presença da câmera. É uma câmera investigativa, tentando descobrir as reações tf_-_man_in_cell.jpg_largedaquelas pessoas, em muitos momentos chega a ser até constrangedor ver pessoas peladas, agredindo a si mesmas, tendo colapsos, mas, a curiosidade em conhecer o ser humano, de ver como essas pessoas vivem, é maior e isso prende a atenção do espectador, é quase parecido com ver imagens de acidentes ou violência, sabemos que são coisas ruins, mas algo faz com que nossos olhos se abram para aquela realidade extrema, onde pessoas perdem seus pudores e medos e se expõem.

É interessante ver o relacionamento dos funcionários do hospital com os internos, na maioria dos casos, talvez por estarem cientes da presença da câmera, os funcionários se mantêm calmos e tentam convencer os internos a fazerem o que eles estão pedindo gavage2através de conversas, ou a tentativa de uma conversa, já que alguns podem apenas se comunicar de outra maneira e também não cederem à autoridade dos funcionários, ao mesmo tempo eles tratam os internos como pessoas inferiores, não é que eles pensam que são coitados, mas inferiores mesmo, como se não fossem humanos. Em alguns momentos, quando eles necessitam usar a força, eles não hesitam em pegar os internos e prendê-los para tomarem banho, fazer a barba, arrumarem suas celas. Tem uma cena que impressiona bastante que é quando um médico tem que alimentar um dos internos com sonda, e é mostrado todo o processo do médico enfiando um cano, parece algo como uma “tripa de mico” e o médico não têm nem vaselina para colocar aquele cano no nariz do paciente e podemos assistir a todo o processo, de alimentação por sonda em uma situação no mínimo anti-higiênica e agoniante.

titicut_1_fullA relação dos médicos com os internos já são um pouco mais tranquilas, apesar deles ouvirem os internos, parecem já ter certeza do diagnóstico que realizaram, não há muita investigação do que está ocorrendo com a mente deles e sim em tentar mantê-los o mais calmo possível, para que não voltem a serem violentos, na minha interpretação do filme, os internos não são, na sua maioria condenados de crimes hediondos, talvez hajam até mesmo presos políticos e de pequenos crimes que estão ali apenas para serem afastados da sociedade, em nenhum momento parece que algum deles está ali para ser recuperado, tanto que um dos internos com bons argumentos em uma reunião com diversos médicos tenta convencê-los de que não é mais louco, mas, os médicos não se convencem de que ele não está louco, mesmo com toda a razão e argumentos que apresenta o interno, é algo mais repressivo mesmo este hospital, não é para curá-los e sim encarcera-los com a desculpa de que estão tratando.

Titicut Follies foi o primeiro filme dos EUA censurado sem que houvesse cenas de sexo ou violência, apesar de que muitas das imagens do filme podem ser interpretadas como violentas, mostrando a realidade e de certa forma denunciando os abusos do hospital e invadindo a privacidade daqueles internos ali presentes, mas da mesma forma o diretor do filme Frederick Wiseman conseguiu autorização para filmar e teve acesso a todas as alas e locais do hospital. O que não vi muito neste filme e que costumava ver muito em outras ficções sobre hospitais psiquiátricos é o uso de medicamentos, não me lembro de ter visto o uso de medicamentos no filme. Outro dos aspectos interessantes é o número tf_-_man_in_cell.jpg_largegrande de talentos musicais que aparecem no filme, não sei se foi uma escolha do diretor em mostrar mais estas pessoas ou se havia bastante delas no hospital, se for pensar que muitas vezes, se prendiam bêbados, drogados, outsiders em geral, não é de se estranhar que houvesse muito músicos, já que os músicos, boa parte dos que não fazem sucesso, vivem em bares e locais com mais violência.

Gosto muito do filme, principalmente por poder ver de perto a situação pela qual passam estes internos, estas pessoas que foram excluídas da sociedade e que vivem em situações de extrema pobreza e além de tudo isso são consideradas e julgadas incapazes de viver em sociedade. As cenas incomodam, elas são brutalmente verdadeiras, elas causam sensações ruins, porque estas situações aconteciam e ainda acontecem, até onde isso é mais segurança para a sociedade e até onde isso é sadismo? Sentimento de superioridade e poder? É deprimente ver um filme como este, é parte da realidade jogada com peso em cima de você, essa é a sensação que tive durante o filme e depois que acabou. Um filme mais que indicado para aqueles que gostam de filmes que te causam sensações, que te fazem aprender, a questionar, a pensar, filmes que mudam sua visão de mundo e te dá uma vontade louca de sair discutindo os assuntos abordados no filme com outras pessoas, um filme que evolui as pessoas, que no mínimo vai fazer você parar e refletir durante um instante.

TRECHO DO FILME:

MONTAGEM QUE DESTRÓI.

4F – nem esquecimento, nem perdão (4F, ni oblit, ni perdó) – 2013.
Direção: 15Mbcn.tv
Duração: 120 minutos.

cartell4F – NEM ESQUECIMENTO, NEM PERDÃO é o tipo de documentário que mostra como a injustiça praticada pelo maior representante do governo, a polícia, pode fazer para defender os próprios interesses e manter a pose de poder, o filme é sobre um dos casos de montagem policial mais absurdos hoje em dia na Espanha.

Durante uma operação policial para acabar com uma festa que estava acontecendo em um prédio abandonado da prefeitura de Barcelona as pessoas começam a jogar coisas do prédio para afastarem os policiais, um destes objetos é um vaso de plantas que cai em cima da cabeça de um policial, o deixando incapacitado. A polícia então começa a procurar um culpado e prende pessoas que poderiam ser suspeitas de cometer um crime, como roqueiros, pessoas com corte de cabelo e vestimentas diferentes, gente que é criminalizada pelo que veste e não pelo que é, a polícia então prende pessoas que nem estavam na festa, mas, estavam algumas quadras dali e os incriminam pelo crime, entre os presos alguns são estrangeiros que continuam presos e os espanhóis continuam respondendo o processo em liberdade.

Este filme é realizado por um coletivo audiovisual chamado 15mbcn.tv, um coletivo de mídia independente, criando e produzindo sem ter que recorrer aos modos tradicionais e mercadológicos de se fazer cinema, é interessante porque se deixa de lado o ego de profissionais de cinema e também não se cria ídolos e sim obras, o que é mais interessante do que vender um filme por quem o realizou, “vende-se” o filme pela história retratada, também é um filme independente, sem incentivos fiscais, dinheiro governamental e também dinheiro privado, é um filme independente.

Como retratado no filme a polícia de Barcelona incrimina pessoas por um de conduta errada da própria polícia. Um dos pontos interessantes de se conhecer esta história é que 4ff4a polícia da cidade de Barcelona não é uma polícia militar, é uma polícia desmilitarizada, só que, os policiais tem as mesmas atitudes de militares, continuam sendo a cara violenta do estado, infelizmente é a única que muitos tem a oportunidade de enxergar. Os policiais, mesmo quando são estrangeiros, mantem a ideologia fascista e por incrível que possa parecer, até os policias estrangeiros são xenofóbicos. A polícia continua enxergando aqueles que não se parecem com obedientes trabalhadores apáticos como marginais e em qualquer situação de não saber a quem culpar, vão tentar culpar aqueles que vivem, pensam e se vestem à margem, mesmo que não sejam pessoas que estejam quebrando a lei, tentando revoltas, qualquer pessoa que não represente o padrão social vigente pode ser enquadrada e sofrer abusos autoritários.

As pessoas que foram incriminadas neste caso, que ficou conhecido como 4F, vivem em uma completa incerteza, porque em alguns momentos estão presas, em outros ficam em prisão domiciliar e a cada julgamento os acusadores vão se complicando cada vez mais por apresentar falsas provas, mas que são aceitas porque os acusados não tem um bom álibi e a maioria deles são estrangeiros, pobres e considerados marginais, eles não tem condições de pagarem bons advogados que possam trabalhar com mais afinco no processo deles. Patricia Heras, uma das mulheres acusadas em todo esse processo, cansada das prisões, julgamentos e toda a violência física e psicológica que todo esse processo está lhe causando, comete o suicídio e o caso começa a ter um pouco mais de exposição nos meios de comunicação de massa e grupos de apoio ao caso criam um cinema chamado Patrícia Heras em sua homenagem.

Via-Laietana-Cinema-Patricia-Heras_EDIIMA20130608_0341_5No geral o filme mostra como o sistema e as autoridades usam o conhecimento e o poder ao seu favor, a justiça não é justa, a justiça só é justa com aqueles que podem ter acesso ao conhecimento e ao poder. Uma das principais reflexões que me suscitou foi a de que cria-se um tipo básico de conduta pessoal, de comportamento social e até de apresentação visual que as pessoas tem que seguir, qualquer desvio deste padrão é visto como algo fora da lei, dos padrões e quando não é visto como ameaça a esse padrão, as pessoas são tidas como loucas e quando houver uma oportunidade essas pessoas serão excluídas, seja através de prisões, como o cárcere ou até prisões sociais, como a pessoa não ter oportunidade de entrar em determinado local ou até mesmo não conseguir um emprego em determinada empresa, etc. É descriminar o diferente só por ele ser diferente, e talvez nem tão diferente no pensar, mas, apenas no vestir; e tudo isso desencadeia uma série de preconceitos que chega em todas as camadas sociais, desde a própria população, como até mesmo os policiais que também fazem parte da população, até pessoas que legislam as leis e as que julgam e determinam como devem ser cumpridas estas leis, acredito que tudo isso venham da cultura de repressão do estado, de calar aqueles que não participem do “status quo”.

4FF2O filme poderia ser dividido em três partes, a primeira é a apresentação da história, contando o que foi o caso e tentando dar o máximo de detalhes dos personagens do caso 4F, uma segunda parte seria mais uma parte investigativa, tentando derrubar todos os argumentos da acusação e mostrando a hipocrisia da polícia e seus erros que são apoiados pelo governo de Barcelona e uma terceira parte é o desdobramento do caso, quais foram os resultados até o momento, já que ainda não se tem o veredito sobre o caso que está em vigor desde 2006 e como diz o site do próprio documentário o principal acusado está preso desde 2012.

O filme é muito bem produzido, imagens da cidade de Barcelona, imagens conseguidas da situação da festa, provavelmente feita com celulares e entrevistas feitas com alguns dos acusados e também com advogados e ativistas do caso 4F, tem uma montagem bem dinâmica, bem parecida com o que vem sendo feito com a maioria dos documentários ativistas que tem aparecidos nos últimos anos, uma linguagem mais acessível à quem está acostumado com a linguagem televisiva, principalmente na edição. 4FF3As entrevistas feitas com os acusados são feitas em salas vazias o que causa uma certa cumplicidade através da estética, porque o lugar além de parecer inóspito à quem está sendo entrevistado parece que toda aquela situação que viveram lhes trouxeram um vazio existencial e hoje eles também não tem muito em que se apoiar, essa percepção pode ir mudando para quem está assistindo após ouvir um pouco da história de cada um.

Após assistir este filme você provavelmente irá sentir um sentimento de injustiça e revolta, porque temos que ter pessoas sendo sacrificadas para manter a credibilidade de uma instituição, é a pergunta que respondo, mas não consigo concordar com tal atitude.

OBSERVAÇÕES:

– Pude assistir este filme através da prévia do III festival do filme punk e anarquista de São Paulo que acontecerá em Dezembro de 2014 no Tendal da lapa, quem quiser saber mais sobre o festival visite: http://anarcopunk.org/festival/?page_id=187

– O cartaz desta postagem não é oficial do filme, é de uma exibição do filme com presença de alguém que colaborou na realização.

– O site do filme tem mais informações sobre o caso: http://documental4f.wordpress.com/

TRAILER: