RESGATANDO O INFANTIL.

O verão de Kikujiro (Kikujirô no natsu) – 1999.
Dirigido por: Takeshi Kitano.
Duração: 121 minutos.

El verano de kikujiro

Este é outro filme que consegui uma cópia e deixei guardado muito tempo até não lembrar mais do que se tratava o filme, isso tem se tornado recorrente por aqui. “O verão de Kikujiro” é um filme de aventura com um menino que está de férias escolares e gostaria de visitar sua mãe em outra cidade, mas sua avó, com quem mora, não pode leva-lo, até que o namorado de uma comerciante amiga da avó fica com a tarefa de levar o Menino até sua mãe.

kikujiro2O Menino (sabemos que seu nome é Kikujiro, mas todos no filme o chamam apenas por Menino), entediado com suas férias, porque seus amigos foram viajar e ele não tem muito que fazer resolve ir visitar sua mãe que vive numa cidade do interior, o Menino mora em Tóquio, o Menino não consegue viajar/fugir e é surpreendido por uma amiga da avó que o leva de volta para a avó, depois de muita confusão o namorado da amiga da avó fica a cargo de levar o menino até a casa da mãe. Um Senhor vagabundo (este é chamado de Senhor até o final do filme, quando ficamos sabendo o nome dele), o Senhor então pega o Menino para a grande viagem, mas antes disso, muitas coisas vão acontecer, o Menino vai com o Senhor em um lugar de apostas, acaba numa praça com um pedófilo, em um hotel de luxo, se perde por estradas, até que enfim chegam a casa da mãe.ete-de-kikujiro-1999-02-g

É no caminho do Menino que acontecem várias coisas bizarras ou fora do comum, o Senhor é totalmente irresponsável e briguento e o Menino só quer visitar a mãe dele, tem momentos muito engraçados dos dois no hotel, deles tentando conseguir uma carona, tem vários personagens neste caminho que são muito peculiares, como um casal que fica com eles por um instante e parecem ser atores ou trabalham em algum circo ou teatro, um poeta que vive viajando em sua pequena caminhonete cheia de livros, encontram também dois motoqueiros que não parecem nada com o estereótipo dos motoqueiros durões, muito pelo contrário, parecem dois nerds otários que usam do visual para ter um certo ar de “maldade”. Eles passam por lugares totalmente comuns que se tornam estranhos, como um ponto de ônibus que não passa nenhum ônibus, uma festa tradicional japonesa onde o Senhor arruma uma confusão com as pessoas da comunidade, e muitas outras coisas.

Quando eles encontram a casa da mãe do Menino, não é nada como eles esperavam encontrar, então a viagem deveria acabar ali, mas o Senhor vendo a tristeza do Menino, antes de leva-lo novamente para sua casa em Tóquio resolve dar umas férias divertidas ete-de-kikujiro-1999-13-gpara o Menino. Forma-se um grupo, composto pelo Menino, o Senhor, o Poeta e os dois motoqueiros, este grupo fica acampado na praia. Para alegrar o Menino, este grupo começa a fazer diversas brincadeiras para distrair e alegrar o Menino, eles contam histórias de horror ao cair da noite, brincam de esconde-esconde, de brincadeiras com fantasias e outras brincadeiras típicas japonesas, tudo muito lúdico, com muita fantasia, algo bem infantil mesmo, ao mesmo tempo em que aquilo alegra o Menino, as outras pessoas parecem se divertir também, trazendo de volta o lado infantil que há dentro deles. Mas, todas as férias têm um fim e o Menino e o Senhor com carona do poeta voltam para Tóquio.

“O Verão de Kikujiro” é um filme fantástico, uma aventura para crianças e adultos, é de certa forma uma mistura de filmes de aventura, típico dos anos 80 e 90 com uma mistura de pessimismo típico de Takeshi Kitano que fez algo parecido no filme “Aquiles e a Tartaruga”, porém em “O Verão de Kikujiro” o filme é mais otimista e feliz. Gosto muito do filme também por causa dos personagens, personagens estranhos em situações que são bizarras, mas que podem muito bem acontecer com as pessoas no dia-a-dia, não é fácil criar esta naturalidade no cinema com o bizarro, porque tudo aquilo que foge do bem comum parece falso e inclusive acabam sendo chamadas de bizarro, estranho, falso, etc. Os personagens principais são muito bem construídos psicologicamente, o Senhor, é um homem de meia idade que parece não ter tido muito sucesso na vida, é viciado em jogos, em bebidas, vive às custas de uma mulher, vive arrumando confusão, tudo isso colabora para sua personalidade agressiva Kikujiro1e ao mesmo tempo ele tem um lado de compaixão, de querer fazer o bem, mesmo que do seu jeito atrapalhado, há momentos que ele parece muito mais infantil que o próprio Menino, em alguns momentos do filme o Menino cuida do Senhor e os dois se cuidam e tentam viver o que há de melhor naquela viagem, são uma bela companhia um para o outro, são pessoas diferentes e complementares na jornada que estão vivendo. Também os personagens secundários dão muita vida para a construção dos personagens principais, tudo o que acontece no filme ajuda além de contar a estória, ajuda a construir os personagens principais.

A parte técnica do filme é muito boa, não há algo mal feito, parece um cinema milimétrico, algo japonês mesmo, se levarmos em consideração o estereótipo de que o japonês é estudioso e metódico, no entanto, sem esquecer que eles também tem uma veia bizarra e muitas vezes extremistas, como no caso de filmes violentos, mas aqui a bizarrice fica por conta dos personagens e situações, não há extremismos. Este é o tipo de filme que além de ser um ótimo entretenimento, nos faz conhecer um pouco do modo de vida de um povo muito diferente do nosso, quekikujirocd1avi003422213lh1 são os japoneses, que tem costumes às vezes muito diferentes, como as crianças fazerem as coisas sozinhas desde pequenas, ir para a escola sem acompanhantes, comer, ajudar a arrumar a casa e isso faz com que elas, de certa forma, mesmo sem saber o que fazer quando estão numa situação nova, tenham ao menos certa independência geográfica, sabem com maior facilidade como ir para um lugar e voltar sem se perder. É o que me passou este e outros filmes que mostram como é o dia-a-dia dos japoneses.

“O verão de Kikujiro” é um filme divertido recomendado para todas as idades e tipos de pessoas, fantasiar junto com o cinema sempre é prazeroso e divertido e este filme proporciona risadas espontâneas e pode até trazer lembranças da infância e aquele sentimento de divertimento puro, inocente, de leveza interior e brilho nos olhos.

 

TRAILER:

O peso de uma câmera.

As Harmonias Werckmeister (Werckmeister Harmóniák) – 2000.
Dirigido por: Béla Tarr.
Duração: 145 minutos.

938147hpt2

Este foi o primeiro filme que assisti do diretor Húngaro Béla Tarr, o único até o momento deste texto, estou para assistir o filme Satantango, mas para encarar sete horas de filme tem que estar com disposição e tempo, para assistir de uma única vez. “As Harmonias Werckmeister” me encantou logo na primeira cena, é um filme totalmente intenso, não há como não ficar de olhos vidrados na tela com as imagens em preto e branco do filme, as muitas imagens em planos-sequência (onde não há cortes de câmera), para quem acha que isso deixa o filme cansativo, está muito enganado, não é o que acontece neste filme, mesmo que você esteja acostumado com filmes de ação.

Logo no início do filme há um balé astronômico comandado pelo personagem principal do filme, que se chama János Valuska, o balé acontece num bar que está prestes a fechar, cheio de clientes bêbados que ainda queremfilmes_8602_Harmonia02 tomar mais algumas antes de irem embora, a câmera gira em volta de um sistema solar que se formou com os frequentadores do bar para a coreografia do balé, bêbados dançando conforme as instruções de János, numa demonstração artística impressionante, tanto da cena em si e dos personagens, como dos atores e da movimentação da câmera.

János parece desenvolver vários trabalhos na comunidade onde vive, ele cuida de um velho senhor com Alzheimer, entrega jornais, faz trabalhos com crianças, conhece várias pessoas na cidade, nunca está parado. A chegada de um enorme caminhão com uma baleia morta, provavelmente empalhada ou embalsamada, não sei dizer, muda um pouco a rotina das pessoas da comunidade com aquele enorme caminhão na praça da cidade, mediante um pagamento as pessoas podem entrar no caminhão e ver de perto aquele enorme animal, na praça há muitas pessoas, homens aparentemente desempregados conversando em grupos, olhando para a baleia do lado de fora, as pessoas parecem tristes e isto remete à época da depressão na Hungria, onde as pessoas não tinham perspectivas de vida, estavam num momento totalmente apático. Ao mesmo tempo em que a baleia simboliza algo grandioso, poderoso, matador, a baleia está morta, a baleia também pode simbolizar obscuridade, imersão do consciente, a baleia reflete o que as pessoas daquela cidade estão passando, “estão mortas” e não podem sair daquela jaula e realmente saber o que está acontecendo ao redor.5_werckmeiste
János é um pianista, mas ele nem chega a tocar no filme, parece não ter tempo de fazer a sua arte em um momento tão difícil para a comunidade onde vive. Jánus conversa com um velho poeta intelectual e amigo, é com ele que acontece a maioria dos diálogos relevantes do filme, eles falam um pouco sobre situações do cotidiano e problemas, as outras falas que há no filme são apenas pedidos e sociabilidades do cotidiano. János com seus pequenos trabalhos parece ser uma das únicas pessoas da cidade que mantém a sanidade e a vontade de viver, de construir, de mudar aquele lugar.

Há duas cenas que me impressionaram muito, uma delas é de um grupo andando, marchando, com um som muito forte de botas contra o chão de pedras, a sensação de opressão foi aumentando aos poucos a causar em um longo plano de uns 10 minutos pelo menos, o que parece uma eternidade, vai sufocando, parece um exército caminhando para uma guerra; a outra cena acontece logo após esta cena, é uma invasão, um massacre, que é uma bela cena de violência, bela porque você sente a tensão e não pela violência em si, que não tem nada de belo, não consegui me desvencilhar daquele momento, fiquei grudado no sofá, contraído, parecia estar realmente vivenciando aquele momento, a cena é umHarmonias de Werckmeister_Béla Tarr massacre de pessoas que estão em um hospital, parece ser um hospital psiquiátrico, tudo é filmado em plano-sequência e há muita violência contra as pessoas ali internadas, pessoas deitadas, moribundas, doentes, loucas, tomando banho e há também a depredação do prédio, é realmente muito impressionante, é como sentir o terror da violência, certamente estas duas cenas foi um dos momentos mais impactantes que já vi num filme.

A cidade começa a ser invadida por militares e a guerra chega até a comunidade, János vai para um hospital psiquiátrico e parece estar num estado traumático, totalmente imutável. A baleia fica abandonada no meio da praça com o baú do caminhão todo aberto.

“As Harmonias Werckmeister” é um filme muito impressionante, foi talvez o único filme que me fez perceber como deve ser a tensão e o terror de estar numa guerra, ou numa situação de violência extrema, uma violência desenfreada que parece não ter fim, onde as pessoas não sabem se estarão vivas no momento seguinte de suas vidas. Mesmo eu tendo vivido situações de violência e ter vivido muito tempo da minha juventude num local violento, parece que não tenho lembranças sensoriais tão fortes dela como eu senti neste filme. É uma sensação ruim, uma ansiedade opressiva, apertando algo no estômago, no peito, fazendo a cabeça latejar e os olhos ficarem vidrados, paralisados, como os olhos de János no hospital.

Eu não tinha muita informação sobre como era o estilo do Béla Tarr e nem sobre o que realmente era o filme, tive que ler um pouco da história da Hungria para tentar contextualizar o filme, espero não ter cometido erros sobre a história do país, que parece passar por um momento muito triste, onde as pessoas não sabiam para onde ir, o que seria da vida delas, vivendo em miséria e se apoiando, cada um do seu jeito, em algo que não as levasse à loucura. Fiquei em dúvida com a legenda que consegui, quase toda vez que János fala com alguém ele se refere à pessoa como tio ou tia, não sei se a tradução é literal, se na Hungria eles costumam chamar as pessoas assim, ou se esse tio ou tia pode ser substituído por camarada, por exemplo, mas como o filme parece ser pré-segunda guerra mundial, a Hungria ainda não tinha se tornado um país comunista, fiquei na dúvida quanto ao uso destes pronomes.0

Na parte técnica, acho o filme muito bom, as câmeras são abusadas, quando escolheram planos-sequências mais longos e enquadramentos que não se vê na maioria dos filmes e apesar de muito impressionantes, não tiram o foco da atuação e a história é contada de forma sensacional. A câmera não mostra detalhes, mesmo assim há detalhes num plano geral, você pode degustar as imagens, já que os planos são longos, aliás, é no plano geral que podemos descobrir onde estamos, como é o relacionamento dos personagens com o local onde estão e a fotografia obscura, em preto e branco, com muito mais preto e quase sempre com névoa sobre os personagens e no horizonte, como se eles tivessem vivendo num lugar isolado ou um pesadelo. O áudio do filme não usa muita trilha sonora para causar sensações e pré-anunciar situações de tensão, é feito apenas com os barulhos da cidade, das botas sobre pedras, de pessoas cochichando, de coisas quebrando, do vento, toda essa avalanche de sons e imagens. Tudo isso vai contribuindo para que a parte artística e humana do filme se tornem muito bem feitas, é um filme realmente impressionante, sendo totalmente redundante com a palavra impressionante neste texto.

TRAILER:

A beleza do ruim

Plano 9 do Espaço Sideral (Plan 9 from outer space) – 1959.
Dirigido por: Ed Wood.
Duração: 79 minutos.

Plan_9_Alternative_posterPlano 9 do Espaço Sideral é um daqueles filmes que você gostaria muito de assistir, mas, por um motivo ou outro, você vai deixando para depois e acaba assistindo muito tempo depois, como um grande apreciador de filmes B e filmes bizarros e por Ed Wood ser considerado o pior cineasta de todos os tempos e o “Plano 9” ser considerado o pior filme de todos os tempos, estava muito curioso para assisti-lo, mas só consegui uma cópia recentemente. Há muitas informações sobre o filme na internet, mesmo assim resolvi escrever sobre esta obra linda do cinema mundial, confesso que antes de assistir o “Plano 9” eu só tinha visto o filme que o Tim Burton tinha feito sobre o extraordinário, quase personagem da ficção, Ed Wood, e também havia assistindo o filme Glen ou Glenda.

Resumidamente o filme “Plano 9” é sobre um grupo de alienígenas que invade a terra para alertar ou destruir os seres humanos, porque eles estão usando o conhecimento, olha o Et Bilú aí, para acabar plan9_torcom a própria raça humana, assim, eles ressuscitam mortos para ajudar a capturar os humanos, isso é mais ou menos uma leitura de um roteiro muito confuso e ruim, e coisa ruim é o que não falta no filme, o elenco é péssimo, a direção é horrível, a continuação praticamente não existe, os efeitos especiais estão mais para defeitos especiais, praticamente tudo no filme é mau feito, as histórias e curiosidades são muito mais interessantes que o filme em si, o DVD que arrumei tem um documentário muito interessante sobre o filme, chamado: “Discos Voadores sobre Hollywood, onde peguei quase todas as histórias sobre o filme.

Uma das coisas interessantes do filme é logo na primeira cena onde há as previsões de Criswell que introduz a história, como se fosse um apresentador de televisão, a verdade é que Crisell tinha realmente um programa na televisão e era um farsante que fazia previsões e tinha muita audiência, ele também encerra o filme, o interessante desta apresentação, é a junção de linguagens, da tv e do cinema, mostrando que Ed Wood experimentava outras linguagens.16970_plan-9-iz-otkrytogo-kosmosa_or_plan-9-from-outer_1600x1200_(www.GdeFon.ru)

Os extra-terrestres são exatamente igual aos seres humanos, é claro que Ed Wood acabou fazendo assim por falta de recursos financeiros para criar uma maquiagem ou fantasia, então os ETS são uns humanos arrogantes, mal vestidos, que mais parecem integrantes de uma seita secreta e com a inteligência superior deles, ou saído de uma paródia de Star Trek. A arma deles, é um revolver elétrico que consegue reviver e controlar os mortos, uma idéia tão estúpida que passa por genial, a arma é tão desenvolvida que tem uma hora que ela falha e quase que o feitiço vira-se contra o feiticeiro e um Zumbi quase os mata, mesmo assim, é legal a idéia de que o ser humano tem muito medo das pessoas mortas, me faz questionar o porque a existência dos cemitérios nos dias atuais, enfim, acho que aí é ver muita coisa onde há pouco.

Os efeitos de discos voadores são um horror à parte, em alguns momentos conseguimos enxergar as linhas que os seguram, muitas pessoas diziam que eram calotas de carro, mas na verdade, -Plan 9- UFO 2Ed Wood comprou alguns discos voadores em uma loja de brinquedos, os discos voadores foram filmados com algumas imagens ao fundo, mas é até divertido ver como ele resolveu a questão dos discos voadores, há no filme algumas imagens de aviões e máquinas de guerra que acredito eu que tenham sido usadas de trechos de outros filmes, tem uma história que Ed Wood costumava pegar restos de película de outros filmes e usava em seus filmes.

Para conseguir que o filme fosse financiado Ed Wood teve que ser batizado numa Igreja Batista para conseguir um pouco de dinheiro para o filme, e ele também não contou sobre o que era exatamente o roteiro do filme, se é que ele sabia. Ed Wood usava de muita improvisação, truques e artimanhas para conseguir realizar seus filmes, a sua vontade, dedicação, era um verdadeiro amor ao “fazer cinema” e para conseguir que um filme fique pronto ele abria mão de muitas coisas por ter muito pouco dinheiro, esse é um dos maiores motivos, creio eu, para Ed Wood ser tão cultuado, principalmente junto àqueles que fazem cinema com poucos recursos ou recursos próprios, ou os dois juntos.

Bela Lugosi, o famoso ator que interpretou Drácula no início do século 20, está no filme, mas ele morreu logo no início das filmagens,Plan9-BellaFootage1 para continuar com Bela Lugosi no filme, Ed Wood arrumou um dublê que usa uma capa e a todo momento ele cobre o rosto com a capa, é simplesmente ridículo ver isto na tela, mas, ao mesmo tempo é interessante que Ed Wood não tirou as poucas cenas que já havia feito com Bela Lugosi e improvisou, novamente, outro ator, se é que era um ator, para continuar com Bela Lugosi no filme, Além do Bela Lugosi, tinha alguns personagens interessantes, todos eles fazem mortos que ressuscitam, que é a Vampira, uma apresentadora de um programa na madrugada que só passava filmes de terror e tinha uma cintura realmente muito fina e outro ator é Tor Johnson, que é um cara totalmente gigante, que se não me engano, também era lutador de lutas livre e fazia umas caras horrendas no filme, aliás, uma das cenas que acho melhor no filme é quando ele começa a sair do túmulo.

Plano 9 do Espaço Sideral que tinha como nome no roteiro de “ladrões de cadáveres do espaço sideral” é um filme, no fim das contas, bastante divertido, com todos os erros visíveis durante o filme, ele acaba não sendo um filme cansativo. Gosto mais das histórias que envolvem o filme, do que do filme em si, é interessante ver como a persistência de uma pessoa pode leva-la a conseguir fazer o que deseja e que não usava nenhuma adversidade como desculpa para desistir.plan-nine-from-outer-photo Apesar de todas estas “falhas técnicas e artísticas”, tem outros filmes posteriores que me lembram o “jeitão” simples de “Plano 9” que é possível fazer filmes de ficção científica com poucos recursos, os filmes são “The American Astronaut” de Cory McAbee, “Pi” de Darren Aronofsky e “Alphaville” de Jean Luc Godard, se estes filmes se inspiraram ou não em “Plano 9” eu não sei, mas há um jeitão parecido no modo de produçãi, isso há.

Não considero Ed Wood um gênio do cinema, longe disso, mas que sua história com o cinema é encantadora, não há dúvidas. Divirta-se com “Plano 9” e seus outros filmes. Solobonite.

Trailer:

Monstruosidade!

O Hospedeiro (The Host) – 2006.

Dirigido por: Joon-Ho Bong.

Duração: 119 minutos.

O hospedeiro

Este é outro filme que demorei muito para assistir, quase assisti quando estava em cartaz no extinto cinema Belas Artes, que parece que irá reabrir, aliás. O Hospedeiro é um filme de horror com monstro feito na Coréia do Sul, terra do diretor Park Chan-Wook que fez a maravilhosa trilogia da vingança (Mr. Vingança, Old Boy e Lady Vingança).

A estória do filme gira em torno de Park Hee-Bong, um apático garçom que trabalha no quiosque do pai num parque na beira do lago Han na Coréia, entre suas trapalhadas em servir as mesas, ele se preocupa e do seu jeito tenta cuidar de sua filha, uma adolescente típica que costuma reclamar de tudo.

Em mais um dia apático onde Hee-Bong serve mesas, um monstro aparece no lago, sabemos, por uma cena no início do filme que ele foi criado por produtos radioativos jogados anos atrás por cientistas pelo ralo de uma pia, através de um ajudante coreano de um cientista americano que não está se importando com o resultado de jogar produtos radioativos velhos pelo ralo da pia. O monstro sai da água e começa a andar pelo parque, matando algumas pessoas, o pânico se instala e Hee-Bong ao perceber que o monstro está a solta procura por sua filha, só que o monstro acaba raptando sua filha, ele desaparece pelos canais de esgoto da cidade.thehost2

Depois de todo o caos, alguns militares aparecem e leva muitas pessoas para um local que parece uma quadra de escola, inclusive Hee-Bong e seu e onde há também um mural com fotos e lembrnças das vítimas, o resto da família de Hee-Bong aparece no ginásio, a irmã, que é uma atleta de alto nível de Arco e Flecha que havia acabado de perder a medalha de ouro em uma competição e o irmão que é um graduado arrogante. Os militares começam a recolher as pessoas que tiveram contato com o monstro e podem estar contaminadas, eles passam um tempo em um laboratório e depois conseguem fugir porque eles tem um sinal de que a menina está livre, então todos começam, cada um do seu jeito, a procurar onde pic4está a menina. A menina está no esgoto junto com alguns corpos e uma criança, o monstro parece estar caçando algumas pessoas e armazenando para comer em outro momento.

Uma das coisas que me chamaram muito a atenção no filme é o roteiro e principalmente como os personagens são muito bem construídos, o roteiro parte de um momento tranquilo de uma família atípica, no sentido tradicional de família, talvez uma família moderna na Coréia, eles chegam a se unir para caçar o monstro deixando as diferenças de lado para salvar a filha de Hee-Bong, podemos ver um pouco de Seul e também como é o dia-a-dia das pessoas em Seul, o que elas comem, como sentem e agem em situações extremas e também como funciona as táticas militares quando eles estão numa situação desconhecida, em que eles parecem ter mais atitudes violentas por causa de um medo do que na consciência de estar resolvendo o problema, ou seja, atirar e matar, perseguir as pessoas e plantar informações na mídia, talvez não seja o melhor modo de resolver a situação que estão vivendo.

Quanto aos personagens temos o personagem principal Hee-Bong, que é um homem que não parece dar muita importância com as coisas da vida, está sempre cochilando em serviço, fazendo sem se importar com os clientes, sua única preocupação parece ser com sua filha, o que mesmo ele não sendo muito ajustado socialmente pode dar uma relação de humanidade para o espectador, não que ele não seja humano por não ser como a “sociedade dita”. A filha de Hee-Bong, Hyun-Seo, é uma típica adolescente atual, apesar do filme já ter oito anos, quer aparelhos eletrônicos novos, tem vergonha do pai e quer estar com os amigos, a irmã é Nam-Joo, uma atleta profissional, que está chateada ou desanimada por ter ficado apenas com a medalha de prata numa recente competição internacional, uma mulher competitiva, o irmão Gang-Doo é um arquiteto ou algum tipo de engenheiro, que é bastante arrogante com o irmão, por achar que ele é O hospedeiro2um vadio, mas, ao mesmo tempo ele é um homem formado na faculdade que não tem emprego e vive irritado e o pai de Hee-Bong, é um comerciante que cuida dos filhos e da neta, um senhor que apenas quer fazer seu trabalho e tentar viver longe de problemas, viver tranquilamente. É claro que os personagens não são apresentados em sua totalidade de uma só vez, é um diálogo ou uma atitude que vai mostrando quem é quem.

O monstro é um personagem também, que é muito bem desenvolvido, tanto fisicamente, sua aparência, que parece ser em sua maior parte, ter sido feito por CG (computação gráfica), como ele é um monstro marinho, ele parece um lagarto gigante que nada, uma mistura de lagarto com golfinho, mais uma pitada de outras coisas marítimas que não conheço talvez, a pele do monstro é muito bem feita, parece estar sempre molhada quando ele está fora da água, tem aparência de peixe sem escama mesmo, os movimentos são muito convincentes e o monstro parece até ter uma personalidade, mesmo que no filme, ele pareça agir apenas por um instinto animal de sobrevivência, que é o de se alimentar através da caça, mas também de saber armazenar comida e de defender o seu território.

Porque este é um dos melhores filmes de monstro que já vi, e também foi considerado na época por muitos críticos, inclusive muito elogiado thehostem Cannes do ano de seu lançamento, ainda não conversei com algumas pessoas muito bem sobre esse filme, então não sei como ele foi recebido pelas pessoas, mas, as que me indicaram durante esses anos, falaram muito bem. O hospedeiro é um filme de monstro muito bom, não só por ter um dos monstros mais desenvolvidos de todos os tempos, mas, por ter um ótimo roteiro, ter sido bem filmado, ter ótimos personagens, uma direção impecável, um filme digno de prêmios e admiração por parte de fãs de filmes fantásticos que nem sempre tem um cuidado técnico e artístico tão apurado, já que na maioria das vezes as pessoas não tem consciência de como fazer ou por terem um orçamento que faz com que alguns realizadores tenha que improvisar muito e não conseguir o resultado esperado ou até mesmo não tenha noção de como fazer um bom roteiro ou como ser convincente com seus atores, mas, esse não é o caso d´O hospedeiro, o filme é perfeito, é brutal, tem sutilezas de mostrar uma estória de uma família, tem cenas de ação muito bem feitas, não há nada que faça com que o filme seja desvalorizado, só se você por ter um monstro no filme, algo que não é da sua realidade, te faça desacreditar no filme, mas, se você deixa sua mente livre, se você gosta de imaginar e fantasiar estórias, este é um ótimo filme, até porque, se você admitir que possa existir um monstro como esse, o filme é bem realista. Espero poder assistir em breve outros filmes do Joon-Ho Bong ou Bong Joon-Ho. Este é realmente uma monstruosidade!

Curiosidades.

- Joon-Ho Bong fez um episódio do filme Tokyo! Que tem também os diretores Michel Gondry e Leos Carax, ambos já resenhados aqui no blog com os filmes “Rebobine, Por Favor” e “Pola X” respectivamente.

- Joon-Ho Bong dirigiu um ótimo thriller, chamado “Memórias de um Assassino” que se não me engano inspirou o David Fyncher (Clube da Luta, Zodíaco e etc) à fazer o filme “Seven”. Já vi esse filme rodando por lojas como Americanas.

- Tarantino já declarou que seu próximo filme, que será sobre um serial killer será influenciado nos filmes de Joon-Ho Bong.

Trailer.

 

O QUE É UM FILME?

Isto não é um filme (this is not a film) – 2011.
Dirigido por: Jafar Panahi.
Duração: 75 minutos.

This-Is-Not-A-Film

Um filme que não é um filme, um documentário filmado em um dia, no apartamento de um cineasta iraniano que está em processo de condenação criminal, no filme não fala exatamente qual é o motivo, mas parece algum perjúrio ou ofensa contra o Irã, no Irã tem que ter o roteiro aprovado pelo governo para que se possa filmar, é um processo burocrático e de censura para o que se possa fazer um filme de forma profissional no país.

O filme inicia-se com um plano fixo do cineasta tomando café da manhã, Panahi troca de plano e fala com algumas pessoas no telefone sobre o processo que está em andamento, Panahi liga para um amigo para que vá até sua casa para ajuda-lo, todas as ligações feitas no filme são através de um telefone celular com o viva-voz ligado. Seu amigo chega para ajuda-lo com a câmera, assim as imagens terão mais movimentos porque Panahi não queria apenas uma câmera fixa num tripé, assim ele busca mais movimento para o filme que está fazendo.panahiwithiggyA impossibilidade de filmar parece ser estritamente por motivos de censura do governo, o cineasta parece ter uma boa qualidade de vida financeira, tem uma câmera profissional, computador e celular de última geração, seu apartamento é enorme, ele vive em Teerã, e por algumas ligações que ele faz parece ter um escritório ou uma produtora, parece ter muito mais dinheiro do que os cineastas do Brasil, tirando aqueles que trabalham em grandes corporações ou são filhos de banqueiros, logicamente.

Panahi demonstra ao longo do filme que resolveu fazer este “não filme” porque esta com medo de ser condenado à qualquer momento e não poder realizar mais filmes, durante a filmagem deste filme, que primeiramente seria apenas a leitura de um roteiro censurado que ele escreveu.Panahi mostra um pouco do seu processo de criação, sua visão de espaço, ele improvisa tudo no tapete da sala do seu apartamento, fazendo uma planta baixa com fitas, assim ele começa a explicar onde estará a câmera, para que lado ela irá “chutar”, os movimentos dos personagens, suas emoções e motivações, Panahi mostra a forma como ele decupa e pensa cada cena, ele faz isso com algumas páginas do roteiro e se cansa daquela situação, fica deprimido ao pensar que poderia estar filmando num cenário, com atores, numa produção cinematográfica profissional.

Em alguns momentos Panahi lembra-se de cenas de seus filmes anteriores, que ele mostra na tv da sua sala,uma das cenas é do filme ESPELHO em que uma menina de uns dez anos, quer parar de atuar e Panahi diante daquela cena com sentimentos reais decide continuar filmando aquela situação new01com a menina não querendo continuar a atuação, registrando assim um momento com sentimentos reais. Outra cena que Panahi é quando ele usa um não ator numa cena do filme OURO CARMIM, ele visivelmente começa a passar mau e Panahi usa esta cena desconfortável no corte final do filme, porque o homem que estava atuando não conseguia demonstrar a emoção que Panahi estava querendo, mais uma das cenas mostradas é do filme O CÍRCULO, onde apenas o cenário foi suficiente para conseguir causar a sensação de claustrofobia e ansiedade na atriz, para que na tela parece muito mais real para o espectador, assim conhecemos vários modos de um diretor conseguir a cena que deseja e extrair do ator e imprimir na tela aqueles sentimentos e sensações.

Durante a realização do documental, há imagens de Panahi fazendo atividades domésticas, alimentando o lagarto do filho, fazendo chá, regando plantas, falando com entregadores e moradores do prédio. Ao anoitecer é a “Quarta dos Fogos”, pelo que entendi através do filme é um dia festivo877x658 onde há queima de fogos de artifício e faz-se muito fogo pelas ruas, os eventos atraem a curiosidade de Panahi, mas ele prefere continuar assistindo do alto das janelas do seu apartamento.

Panahi resolver ousar um pouco ao usar seu celular para fazer algumas imagens, não que isso seja algo inovador, mas no contexto de ter uma câmera profissional com seu amigo e para seus filmes anteriores é algo novo. Panahi e seu amigo começam a filmar um ao outro, mostrando, talvez sem intenção pré-concebida de que não há limites técnicos para se documentar momentos e transformar em um filme, é a descoberta de um cineasta profissional, privado de ter algumas regalias de estúdios de cinema, fazendo cinema.

O amigo de Panahi tem que ir embora, Panahi o segue até a porta do elevador, filmando com seu celular. Eles encontram um rapaz que está recolhendo o lixo, Panahi começa a indagar o rapaz, que meio envergonhado responde a Panahi,eles vão descendo o elevador e parando em cada andar para que o rapaz possa recolher o lixo. O rapaz diz que está fazendo mestrado em algo relacionado à pesquisa de artes, mas que faz diversos tipos de trabalhos, como entregador, limpeza, usinas, para que possa pagar os estudos, diz que ele mesmo com o mestrado terminado, não sabe se irá conseguir trabalhar na área, porque não há empregos, nem para pessoas com graduação e mestrado, é neste momento que conhecemos um pouco da área profissional do Irã, onde não oportunidades para estudar seguimentos artísticos, mas não há espaço para exercer a profissão, talvez, seja como o nosso país, onde não há “consumo” de arte pela maioria das pessoas, que no Irã que teve e tem tantos outros problemas ainda não é uma prioridade para a população.A cena, que é um plano-sequência termina com Panahi no estacionamento do prédio, parado, enquanto o rapaz leva o lixo para fora em meio aos fogos e ao fogo, Panahi, no escuro pNot-a-filmarado, preso entre as grades do prédio onde vive, enquanto o rapaz vai para a ação, onde as coisas estão acontecendo naquela noite em Teerã.

“ISTO NÃO É UM FILME” é um filme documental despretensioso, de um cineasta, impedido de fazer filmes que aos poucos encontra uma maneira de desenvolver o que ele chama de não filme. Neste filme que acredito ser um ótimo filme para aqueles que realizam, querem realizar ou até mesmo tem curiosidades em saber como é o processo criativo da realização de um filme, Panahi acaba descobrindo novas formas de se fazer um filme, que ele não precisa ficar preso ao modos convencionais para fazer um filme, que dentro de um prédio ele pode construir e contar ótimas histórias. O interessante no filme é que ele não fica somente na metalinguagem quando ele resolve sair do apartamento e pegar a história do estudante que está trabalhando no prédio.

CURIOSIDADES:
- Panahi apoiou um candidato oposicionista ao governo, foi acusado e está em prisão domiciliar e terá que cumprir 06 anos.
- O filme foi enviado ilegalmente para a França dentro de um pen drive, lá um produtor o envio para festivais.

Trailer:

CAMINHOS PARA A DESORIENTAÇÃO.

Pola X (pola x) – 1999.

Dirigido por: Leos Carax.

Duração: 134 minutos.

pola x_cartaz

Antes de assistir o filme POLA X, tinha assistido o sensacional HOLY MOTORS e também o primeiro filme de Leos Carax BOYS MEETS GIRLS, também assisti o episódio do filme TOKYO que também tem os diretores Joon-Ho Bong e Michel Gondry, foi uma ótima descoberta poder assistir os filmes do Leos Carax.

“Pola X” é um filme de 1999, uma adaptação do livro “Pierre, Ou Les Ambiguités”, do Herman Melville, mesmo escritor do clássico “Moby Dick”, não encontrei nenhuma tradução e lançamento do livro no Brasil, se alguém souber de alguma tradução do livro, me avise, gostaria muito de ler, não há muitas informações sobre o filme no Brasil, ele não chegou a ser lançando em vhs, nem dvd e deve ter tido apenas algumas exibições em festivais.

O filme a trajetória de Pierre, um escritor de um livro “best seeler” que ele assina com um peseudônimo. Ele vive em alguma cidade do interior da França em uma mansão/castelo com sua mãe e tem uma namorada, Isabelle que visita com frequência, a qual está prestes a se tornar noivo. Neste início do filme, onde tudo parece tranquilo, lindo, onde há muita natureza, os personagens são brancos, loiros e ricos, vivendo uma vida de sonhos ocidentais burgueses, de tão perfeito que é tudo, parece prever que algo muito terrível irá acontecer com toda aquela tranquilidade, porque há sempre algo podre por trás de uma vida tranquila.

pola x_03

Pierre começa a ter sonhos intranquilos, onde ele vê uma mulher de cabelos negros, na verdade estes sonhos parecem muitas vezes real, não sabendo se ela é um personagem de seu novo livro que o está perturbando, apenas uma projeção fora daquela zona de conforto ou alguém que realmente está lhe perturbando na vida real.

      Pierre começa a sonhar, ou ter visões, ostensivamente com a misteriosa mulher, decidido a finalmente tornar Isabelle sua noiva, Pierre sai ao seu encontro, quando encontra a misteriosa mulher que vinha incomodando a sua mente, neste momento acontece uma cena muito perturbadora, Pierre perseguindo a mulher misteriosa dentro de uma floresta fechada e escura, ele alcança a mulher e há um longo diálogo entre eles, obscuro, depressivo, e confuso apesar de explicar quem é esta mulher, tanto para o espectador, quanto para Pierre, numa atuação fenomenal dos atores. A mulher misteriosa, chama-se Lucie, diz ser a irmã de Pierre, atormentado, ele procura mais informações sobre isso em sua casa, sua mãe tenta contê-lo, Pierre em um ato de revolta e emoções a flor da pele muda radicalmente sua vida, abandonando sua mãe, a namorada e parte para Paris com a irmã, Lucie, mais uma mulher estrangeira e sua pequena filha que viviam com Lucie, parece que elas viviam na rua ou em alguma casa abandonada.pola x_01

      Em Paris Pierre vai encontrar-se com um velho amigo de infância, amigo que finge não conhecê-lo, na rua, com pouco dinheiro, com a responsabilidade de abrigar sua irmão, a mulher e sua filha, ele procura um hotel, é rejeitado em alguns por causa da aparência suja e vestimenta velha das mulheres, encontra um local na periferia onde consegue um quarto para a mulher e sua filha, para ele e para a irmã. Pierre tenta contato com a editora que lançou seu livro anterior para um adiantamento e começa a escrever um novo livro, com a dificuldade de escrever o novo livro e com a morte estúpida da filha da mulher estrangeira eles partem para um outro local.

      Lucie, Pierre a mulher estrangeira partem para um local totalmente industrial, onde há grandes fábricas e pequenas casas velhas, eles entram em uma fábrica que parece abandonada, há um grande barulho de cachorros na porta, já mostrando que é um ambiente hostil, dentro há muitas famílias e pessoas dormindo em colchões no chão, percebe-se também que há algum grupo político extremo vivendo no lugar, provavelmente terroristas, conforme vão adentrando o ambiente começa-se a escutar uma música ruidosa e com fortes batidas, eles encontram uma pessoa que parece reger uma banda, são várias pessoas tocando uma música industrial pesada e bem forte, com percussões feitas com objetos velhos, provavelmente máquinas e pedaços de máquinas de quando a fábrica estava em funcionamento e também há instrumentos convencionais, o som lembra a banda The Swans, esta cena me impressionou tanto por ter este estilo de som pola x_04feito durante a cena, como pelo modo que o diretor encontrou em mostrar como se sentia Pierre e Lucie chegando naquele ambiente novo, cheio de incertezas e que eles foram apequenados pela grandeza de uma cidade grande, industrialmente violento que exclui aqueles que não se adaptam facilmente ao modo de vida urbano.

      Desistindo em definitivo de escrever o livro que havia começado, Pierre começa a ter encontros com o líder dos terroristas, eles se encontram em um bar, próximo ao prédio abandonado em que vivem e se escondem, não há como saber sobre o que eles falam, eles são filmados do lado de fora ou em planos gerais com a câmera distante, onde apenas vemos as ações e não escutamos os diálogos, a conversa deles parece ser secreta até para o espectador ou até mesmo o diálogo ficando “escondido” para dar um maior suspense ou por não ser interessante para o modo como a história está sendo contada.

Pierre e Lucie aprofundam cada vez mais o relacionamento deles, eles se ligam através de uma tristeza existencialista talvez, tem a ligação de serem irmãos ao mesmo tempo eles não se conhecem, não sabem quem são realmente, eles começam a se aproximar cada vez mais fisicamente, numa relação incestuosa, até que eles transam, a cena é feita com sexo explícito, parece que foi feita com os próprios atores e não foi usado dublês. Esta nova ligação entre eles parece que ajuda a aumentar a tristeza, a confusão e a melancolia que eles transmitem, ao mesmo tempo que as coisas parecem estar melhorando, com Pierre escrevendo o livro e Lucie estar um pouco menos depressiva.

pola x_05

Outra reviravolta na história é quando a Isabelle, ex-namorada de Pierre aparece novamente na história, ela parece estar muito doente e deseja passar seus dias junto de Pierre, que conversa com o líder e aceita Isabelle no local, Pierre começa a viver num quarto entre Lucie e Isabelle, com porta que liga os quartos, entre sessão de escrita, a tristeza de Lucie e a doença cada vez pior de Isabelle, ele parece viver com uma certa dose de esperança que o seu livro irá trazer tranquilidade para a vida dele novamente, Lucie e Isabelle parecem estar se dando bem também.

Pierre acaba de escrever o livro, mas não consegue vende-lo, ele começa a ficar desesperado com toda aquela situação, onde não há certeza do amanhã, Pierre, apesar da sua situação financeira e de vir de uma família com bastante dinheiro parece ser uma metáfora das pessoas que saíram do campo para a cidade e acabam vivendo a margem da sociedade, cheio de dinheiro e o glamour das grandes cidades, também há a metáfora do artista, que trabalha em seus projetos e não alcança sucesso financeiro através de um trabalho autoral, mais controverso e subversivo e não algo de puro entretenimento e acomodado que foi o primeiro livro que ele havia escrito enquanto estava em sua zona de conforto. Pierre surta e resolve sair da fábrica com Lucie e Isabelle, ele parece ter tudo sobre controle agora, até que Lucie tenta o suicídio e Pierre novamente perde o controle e para começar a levar a sua vida adiante ele resolver acabar definitivamente com seu passado, porque a aparente tranquilidade do seu passado está causando o caos do seu presente.

Pola X é um filme lindo, porque o roteiro é totalmente envolvente, Leos Carax consegue passar um clima de desconforto durante o filme todo, com as imagens, com as atuações, com a trilha sonora, um filme que mostra como a vida é algo surpreendentemente estranha e que a segurança que temos pode ser abalada a qualquer momento, que aspectos psicológicos podem nos levar a lugares dentro de nós mesmo que nunca estivemos, que o ambiente pode influenciar em muito sobre como somos, que há muito sofrimento ao se adaptar a novos ambientes que feridas do passado se não forem fechadas irão atrapalhar o presente, são diversos assuntos abordados, nada muito novo, mas acho que a estética usada no filme funcionou muito bem para que o espectador experimente estas sensações através de um filme.

Curiosidades:

- o nome Pola X é por causa das iniciais do título do livro: Pierre, Ou Les Ambiguités e também porque o roteiro final foi o 10º tratamento.

- o ator Guillaume Depardieu, filho de Gerárd Depardieu, morreu aos 37 anos de pneumonia.

- depois de Pola X, Leos Carax demorou 13 anos para lançar seu próximo longa-metragem Holy Motors.

 

Trailer:

 

Bizarre cousine

O Cozinheiro, o chefe, sua esposa e seu amante (the cook, the thief, his wife and her lover).

Dirigido por: Peter Greenaway

Duração: 125 minutos.

Este filme estava no congelado em meu computador a uns quatro anos, e recentemente que resolvi descongelá-lo, não me lembro ter experimentado a sensação de ver algum filme do Peter Greenaway, mas já tinha ouvido falar bastante dele e lido em alguns cardápios de diretores imperdíveis para ver um filme.

A entrada é uma primeira cena que choca, claro que não é algo tão extremo e gore como o canibalismo em Cannibal Holocaust, mas causa uma certo asco quando se vê cachorros se alimentando laricamente de carne, em um lugar sujo, parecendo um futuro desolado, no melhor estilo Blade Runner, continuando a cena em um plano-sequência, um grupo liderado por um homem que fala alto, começa a humilhar um homem, fazendo ele ficar nu, passando merda nele e deixando ele totalmente sujo e no meio da rua. Há uma cena interessante deste homem sendo lavado depois, algo meio bíblico, tirando os excessos de sujeira necessários para se fazer um lindo prato.

Albert é o chefão de um grupo que comanda toda a entrega de comida para os restaurantes da cidade e envenena a comida daqueles que não colaboram com ele, algo como um policial que recebe propina para deixar algum comercio ilegal continuar funcionando. Albert parece um ditador, tem um interessante diálogo dele falando sobre a preferência gastronômica dos ditadores, Albert é um cruel e insano chefe de uma sociedade criminosa, em todo lugar que ele está, é o único que tem razão e sempre fala alto, e acredita que com o seu dinheiro e poder ele que dita as regras  e escolhe os melhores ingredientes para o restaurante que está montando em sociedade com um cozinheiro francês, Richard.

Junto com Albert está sempre sua esposa Georgina que em alguns momentos tenta discordar dele, escolhendo pratos que não agradam a Albert, porém sempre acaba apanhando, é um estereotipo de mulher de malandro, porque mesmo apanhando não deixa todo o luxo que Albert proporciona à ela. Junto a Albert também está sempre um lacaio que as vezes tenta colocar as asinhas para fora e se dá mal quando quer ser igual ao seu chefe, usando das contradições do seu chefe que em todo momento o humilha.

No primeiro dia em que eles estão jantando,  Albert todos os dias da semana janta com sua esposa, alguns empregados, sócios e amigos, numa grande mesa no meio do restaurante, acontece um inusitado encontro de Georgina com um cliente do restaurante que sempre está lendo um livro, que mais tarde ficamos sabendo que seu nome é Michel, que ele é judeu, pelo menos Albert o chama assim e além de vender livros e ter uma livraria, ainda se diz ginecologista, os dois começam a ter um relacionamento sexual silencioso, degustando a cada dia, revezando os locais do restaurante, primeiro no banheiro, depois locais na cozinha, depósito e até em um freezer gigante, eles transam com outras pessoas vendo, Georgina assume que faz isso na frente de qualquer um porque precisa de testemunhas para aquele sonho que está vivendo.

Com uma traição, acontecendo debaixo do nariz de Albert, encoberta por diversas pessoas que vivem ao seu redor, inclusive o seu sócio-cozinheiro, Albert sempre preocupado com os modos e a higiene das pessoas, sempre contando vantagem de si mesmo e das coisas que gosta e tratando com desdém aqueles que não se parecem com ele, não agem como ele e não gostam das mesmas coisas que ele. Enfim, Tudo é desvendado por Albert, que começa uma vingança e ele usa de todos modos culinariamente cruéis possíveis contra sua esposa e o amante, ao mesmo tempo que sua esposa também não deixa de lado a perversidade que pode criar uma mente querendo se vingança.

Um cozinheiro, um chefe, sua esposa e seu amante é um filme inteiro feito em estúdio, todos os cenários são construídos e belamente iluminados, cada cenário geralmente é de uma cor, a parte onde ficam os clientes do restaurante é sempre vermelha, com um grande quadro da revolução francesa ao fundo, tudo fortemente vermelho, o vermelho do sangue que escorre daqueles que são abatidos, lembrando toda a crueldade que acontece neste salão, principalmente as psicológicas e algumas físicas desenvolvidas por Albert, o banheiro é todo branco, simbolizando limpeza, é no banheiro que acontece o primeiro encontro carnal entre Georgina e o livreiro Michael. Na cozinha temos cores geralmente de alimentos, como o verde, o vermelho, o amarelo, e fora do restaurante, uma cinzenta e esfumaçada escuridão, as trevas que assola o mundo. A câmera passeia pelos cenários, geralmente com grandes planos-geral e longos planos-sequência, são poucos os momentos que vemos as expressões faciais dos personagens, o cenário que é lindíssimo, parece muito mais importante que boa parte das ações dos personagens, mesmo com maravilhosas atuações, nunca se perde o tom de intensidade seja em cenas de violência, de humor-negro, sexo e amor eterno.

Com um enredo cheio de ingredientes, misturando a submissão misteriosa do casamento entre Albert e Georgina, um ditador da alimentação num possível futuro, um estranho e intenso relacionamento sexual entre Georgina e Michel, a submissão revoltada de Richard que precisa do apoio de Albert para continuar com seu restaurante mas vai aos poucos moldando sua vendetta contra Albert e também na mesma situação de Richard, encontra-se Mitchel, lacaio de Albert, que parece paradoxalmente concordar e discordar de seu chefe, há ainda personagens secundários interessantes, a namorada de Mitchel uma mulher de geniosa que vive discordando de Albert e não leva seus desaforos para viagem, um artista que em um certo momento aparece para jantar e trata Albert com desdém, mesmo com Albert fazendo e pedindo o que ele quer, este é o único personagem que destrata Albert e não sofre nenhuma represália, um menino que trabalha na cozinha e vive cantando uma musica, um pouco desafinado de alguma ópera que desconheço e temos ainda o amante que é o intrigante livreiro Michel, que mesmo sem palavras, com seu grande conhecimento de leitura e literatura, conquista Georgina. Há diálogos ou mesmo monólogos de Albert que são muito interessante e quase toda frase no filme, faz com que você reflita sobre o assunto, um roteiro realmente fenomenal.

Talvez não agrade aqueles que não estão acostumados com filmes ditos de arte, pratos sofisticados e caros com longos planos-sequência, falta de planos mais fechados e cores mais agradáveis aos olhos, o filme é muito escuro, exceto quando há cenas no banheiro do restaurante. A mim, agrada muito como quebra de muitas técnicas e estéticas que estamos acostumados a ver na televisão e em filmes mais populares de Hollywood e de brasileiros também, ele ousa uma linguagem diferente, nada que eu já não tenha visto antes ou que não tenha visto mais ousada, mas tem uma ousadia particular quando ele usa da violência, seja ela nos diálogos, nas ações, na luz, nos movimentos de câmera e no seu olhar pessimista da humanidade, mesmo que o filme aparentemente se passe num futuro, algo que não fica totalmente esclarecido, mostra o modo que muitas pessoas agem no dia-a-dia num mundo que “ainda” não virou um caos, apenas por interesses naquilo que as pessoas podem lhes dar, seja dinheiro, poder, status e quando algo sentimental acontece, ele é penalizado. Todos estes ingredientes fazem deste filme um grande prato para qualquer gourmet do bom cinema.