Consumindo para o declínio.

A Grande Noite (Le Gran Soir) – 2012.
Direção: Benoit Délépine e Gustave Kervern.
Duração: 92 minutos.

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Filmes que tem personagens punks sempre me chamam a atenção, por isso, resolvi assistir “A grande noite”, um dos personagens é um punk-cachorro, como ele mesmo se rotula, que é um punk que mora na rua e vive pedindo, contrapondo as amarras da sociedade capitalista europeia atual. Este é um filme franco-belgo que contém um ator Albert Dupontel, como o irmão trabalhador do punk, Dupontel que fez o inesquecível filme “Irreversível” de Gaspar Noe.

O punk que gosta de ser chamado de NOT, ele renega o seu nome de registro, ele tem soiraté o nome NOT tatuado na testa, ele é um morador em situação de rua que vive com seu cachorro, dormindo em praças e parques e pedindo e ou roubando comida e cervejas de clientes em um estacionamento de um hipermercado e também dentro do próprio mercado, as vezes por troca de favores, como carregar a compra das pessoas ou simplesmente enfiando a mão no carrinho de compras e pegando aquilo que deseja, em geral as pessoas, mesmo que revoltadas, não fazem nada além de algum resmungo ou reclamação. Os pais de NOT tem um restaurante que serve pratos feitos à base de batatas, seu pai parece ser um simples comerciante e a sua mãe parece ter alguns distúrbios mentais, o irmão de NOT, Jean-Pierre, é um vendedor de uma loja de colchões, ele tem uma esposa e uma pequena filha, NOT, Jean-Pierre e seus pais estão comemorando o aniversário da matriarca da família e conversando sobre diversas coisas em uma verborragia quase enlouquecedora dos dois irmãos, se não fosse pela tranquilidade do pai que tenta ajustar algo em seu telefone celular que ele não sabe mexer screenshot_00010e a mãe que fuma na cozinha do restaurante tranquilamente, o caos estaria completamente instalado nas conversas familiares.

Enquanto NOT vive em sua preocupação de arrumar comida para si e também para seu cachorro, Jean-Pierre vive uma crise em seu trabalho, seu chefe cobrando que ele atinja a meta do mês que ele não atingiu e ele começa a pirar, bebe e “bagunça” a loja, seu chefe grava tudo com seu celular, assim Jean-Pierre se vê sem emprego e sua esposa também não quer um homem desempregado e o abandona, Jean-Pierre se junta ao seu irmão NOT em uma jornada de andarilho punk.

20496542.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxNOT e Jean-Pierre que agora se chama DEAD e tem uma tatuagem caseira na testa igual ao irmão, começam a pedir pelas ruas, tomam banho em fontes de água em locais públicos, até que são expulsos da cidade, o pai diz que eles não são filhos dele e da esposa. Então, eles partem para uma zona rural dirigindo uma empilhadeira.

Há diversas cenas interessantes no filme, uma delas é quando eles encontram um camponês que está prestes a se matar enforcando-se e eles convencem o cara a não fazer aquilo daquela maneira que aquilo não é a solução, que não é nada criativo o cara morrer enforcado em uma viga, em um celeiro, mas o camponês acaba colocando fim em sua vida de um modo um pouco mais criativo, só que NOT e DEAD ficam achando que salvaram a vida do cara; outra cena que vale a pena citar é quando o segurança do hipermercado vai falar com o pai de NOT e DEAD que um dos filhos vivendo na rua e “perturbando a ordem” dava para aguentar, mas dois é um problema, o interessante é que o diálogo acontece de um modo estranho, não é um diálogo direto com palavras duras é como se o segurança não quisesse ir até lá falar aquilo para um velho amigo e que o pai deles se sentisse um pouco constrangido e entendesse que ele era responsável em resolver “o problema”, é um diálogo amigável e triste; uma das cenas que marcam é le grand soir 2012 25quando os dois querem recrutar pessoas para uma revolução, algumas pessoas até ouvem o que eles estão falando, mas, ouvindo-os como loucos, apenas para não contrariá-los e ninguém aparece na reunião que eles estavam planejando.

Há frases que ficam na cabeça por serem engraçadas, como quando NOT está no mercado e uma mulher passa com um carrinho de compras cheio de coisas orgânicas e ele diz para ela depois que ela passa ignorando seu pedido de ajuda com comida: – tudo orgânico hein? Vai fazer quimioterapia com beterraba? Tem outra cena onde NOT está dormindo em uma casinha de criança e o segurança do local pergunta o que ele está fazendo e pergunta é sobre a raça do cachorro, NOT responde que a raça dele é punk, o segurança pergunta se ele é inglês, porque se for, espera que ele não faça suas necessidades dentro da casinha, para não precisar limpar no dia seguinte.

Apesar de caricatos em alguns momentos, os personagens são muito bem construídos, não são apenas aquilo que eles mostram com suas roupas e diálogos, são em detalhes de suas ações que vemos o que há na formação de cada um deles, mostrando que a sociedade não é apenas pessoas que trabalham e tem bons empregos e ternos que podem ter vidas boas, que há alternativas em se realizar e sentir-se bem sem estar consumindo, mesmo que de certa forma eles estejam indiretamente consumindo, não são escravos de um modelo que o objetivo final é o consumo. As atuações são muito boas, muito convincentes, hoje em dia o cinema parece ter encontrado diversas maneiras de fazer com que os filmes passem credibilidade em seus personagens através principalmente das atuações e não com truques de câmera, de som, de closes e trilhas le-grand-soir-2-480x250sonoras que ajudam a criar um clima, o ator parece estar se tornando o foco da representação da história, o que valoriza muito mais o trabalho humano em cena.

NOT vive tendo sonhos que está num show punk, onde ele sobe no palco e dá um “mosh”(…é quando a pessoa pula do palco e cai sobre as pessoas que assistem o show e “nada” entre elas), também canta junto com a banda que está se apresentando, em um dos “mosh” ele vai parar fora do local que está acontecendo o show, dentro de uma lixeira enorme, onde ele acorda num outro dia. Quando o seu irmão junta-se a ele, ele até sonha que o irmão está junto com ele, os dois parecem estar sonhando juntos neste momento, como se fosse uma cumplicidade entre os dois, estes sonhos remetem ao relaxamento, a hora de diversão e de extravasar os estresses diários.

O filme ganha ao mostrar uma cidade do interior da Europa onde há poucas pessoas e grandes redes de fast-food, móveis, materiais de construção e objetos que não precisamos a todo o momento comprar mais, trocar por produtos novos, um mundo de hipermercados e shopping centers, onde há poucas pessoas frequentando o pequeno comércio que é esmagado pelas grandes empresas e há muitas pessoas desempregadas e trabalhando em “sub-empregos”, onde os graduados já não arrumam empregos e o preço do imóvel absurdo faz com que pessoas morem nas ruas enquanto uma minoria tem alguns privilégios, onde cada vez mais uma pequena elite se forma através do capitalismo e outros se sentem da elite ao poderem consumir o que é mais caro, uma visão sobre a crise européia.

“A grande noite” pode ser um filme um pouco lento, porque ele tem longos planos-sequência, planos abertos e poucos diálogos, acredito que esta escolha seja para mostrar um pouco o que são os personagens por dentro, o que eles estão sentindo, que há vazios de sentido em suas vidas, que estão cansados de trabalhar e consumir, mas, a busca por mais dinheiro é a única alternativa que a publicidade e os meios de comunicação dizem existir e serem realmente prazerosos, estão procurando um lugar para seus pensamentos em meio aquela imensidão de grandes empresas e placas e outdoors com propagandas para eles consumirem cada vez mais, até eles não conseguirem pagar mais por aquilo e se afundarem em dívidas e depressões, mas também parece ser uma tendência cada vez maior nos filmes de hoje em dia, estes longos planos e silêncios, revivendo filmes de cineastas como Tarkovski, Antonioni e Bergman. É uma forma interessante de se contar estórias, principalmente porque é também uma forma de antagonismo do cinema comercial hollywoodiano, que domina as salas comerciais de cinema em países que não tem tradição em fazer cinema para entretenimento, cinema para o grande público, um cinema cheio de cortes e barulhos de tiros e efeitos especiais, talvez esta contemplação lenta, onde se aproveita mais as paisagens e os personagens seja uma boa forma de aproximar a estética de um filme ao existencialismo e também confrontar estéticas prontas, de sucesso, que cada vez mais prima por estórias de super-heróis, vindos dos quadrinhos, muitas vezes, apenas para ajudar a fixar a imagem de que os Estados Unidos da América está sempre em prontidão paraa salvar e ajudar as pessoas do seu país e dos aliados. A grande noite é um filme gostoso de assistir, é divertido e faz pensar.

 

TRAILER:

TERROR FEITO PELA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA.

Demência (Yeongasi) – 2012.
Dirigido por: Jeong-Woo Park.
Duração: 109 minutos.

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Confesso que adquiri este filme achando que era outro, porque o filme em inglês tem o título de Deranged que é o mesmo título do filme estadunidense sobre o serial killer Ed Gein, comecei assistir ao filme e vi que era um filme sul coreano, mesmo não sendo o filme que achei que seria assisti até o fim e pude ver um dos filmes com um dos melhores roteiros do gênero thriller dos últimos tempos.fullsizephoto238725

Jae-Hyeok é um homem na faixa dos 40 anos que trabalha como vendedor e ganha muito pouco para sustentar sua família, constituída de esposa e dois filhos pequenos, Jae parece já ter trabalhado em uma grande empresa farmacêutica, ele parece ter sido despedido através de algo a ver com investimentos errados na bolsa com indicações de seu irmão, que é um detetive da polícia de Seul, capital da Coréia do Sul.

Uma espécie de epidemia começa a atacar a Coréia do Sul, as pessoas começam a morrer afogadas, principalmente em córregos na cidade e pequenos rios ou até mesmo em suas banheiras particulares, não se sabe o que está causando este aparente suicídio. Com o passar das pesquisas descobre-se que as pessoas antes de se suicidarem começam a comer muito e a querer beber muita água.

A narrativa segue o percurso de Jae na maioria do tempo, mas também mostra a investigação que o seu irmão faz para descobrir o porque dos suicídios, também mostra pessoas da área de saúde que trabalham diretamente com o governo. A epidemia smallderanged01começa a aumentar no país e cada vez mais pessoas estão se suicidando e o governo pega os suspeitos de estarem contaminados e os confinam em um ambiente fechado, com a família de Jae confinada, ele procura alguma solução para ajudar a sua família.

Confinados, além da família de Jae, há diversas pessoas que estão enlouquecendo e tentando se matar, se desidratando e algumas vezes morrendo pelo parasita que habita o corpo destas pessoas doentes.

O governo é vítima de empresários que detêm o remédio para fazer o remédio que elimina o parasita, os empresários não querem fabricar o medicamente e não poderão apenas entregar a fórmula do remédio, que é uma receita secreta e apenas vendendo a empresa por um preço absurdo poderá então fornecer a fórmula do remédio para começar a produzir e tentar salvar as pessoas que ainda conseguem se manter vivas. Foi um grupo de cientistas sócios da empresa que detêm a fórmula do remédio que espalhou a epidemia para poderem vender os remédios, o governo desconfia do golpe, mas acima de tudo tem que parar a epidemia e aceita negociar com os empresários da indústria farmacêutica.

Enquanto isso o detetive irmão de Jae está encontrando evidências para incriminar e fullsizephoto242630encontrar a cura para os doentes. Jae tenta encontrar um frasco do remédio no mercado negro através da internet, em uma das vezes é quase pego pela polícia quando iria comprar de uma pessoa em um apartamento, depois consegue comprar de uma pessoa da indústria farmacêutica, mas vendo uma pessoa com um bebê na rua, acaba dando o remédio para ela e o que sobrou é destruído por uma multidão enfurecida que também tenta conseguir o remédio. O irmão de Jae consegue pegar os culpados e a compra da indústria farmacêutica é cancelada e eles vão até a empresa e conseguem pegar toda a matéria prima para fazer novos remédios para aqueles que ainda estavam contaminados.

Demência ou Loucura, o filme não saiu oficialmente no Brasil, então encontrei estas duas traduções pela internet, o filme conta como uma empresa privada da área farmacêutica pode ter o controle de toda uma população, através de um parasita que sofre uma mutação induzida para usar os seres humanos como hospedeiro desenvolve uma doença que pode ser transmitida através da água dos rios, onde diversas pessoas nadam no verão, se transforma em uma epidemia que poderia simplesmente dizimar uma população. Mostra como a falta de controle pode levar o ser humano ganancioso por riqueza financeira à cometer atrocidades para poder lucrar em cima daquilo depois, será que isso não pode ser interpretado como uma metáfora da realidade, como as novas doenças que surgiram de 50 anos atrás ou menos e que tem remédios que custam muito caro que só beneficiam as grandes empresas da área da farmacêutica, induzindo especialistas da área de farmácia e saúde a desenvolverem e acreditarem que a única forma de curar estas doenças é através destes remédios, tratamentos e cirurgias e não por uma prevenção.vlcsnap-2013-03-10-14h57m34s155

O roteiro do filme é sensacional deste filme, um verdadeiro trabalho de roteirização com pesquisas sobre assuntos muitas vezes secretos de grandes empresas, criticando as empresas farmacêuticas, a ganância do ser humano acima de tudo e que as pessoas em momento de crises podem tomar atitudes extremas e que além das críticas o roteiro mostra o lado humano dos personagens, há diversos tipos de personagens, desde os políticos corruptos e mal intencionados, os sempre mal intencionados donos de grandes empresas, o policial que apesar de não ser um exemplo de bom cidadão no momento de crise resolve fazer um trabalho em favor das pessoas, principalmente para tentar ajudar a família do seu irmão, o pai de família que tenta de todas as formas conseguir passar tranquilidade para sua família, a agente de saúde do governo que tenta fazer o certo, mas o certo sempre esbarra em leis e regras que a impossibilita de agir, os cientistas que não pensam necessariamente em encontrar melhorias para a sociedade e sim em fazer fortunas e diversos outros personagens que se superam em seus clichês e outros que se mantêm como vilões, mas que são trazidos à quem assiste ao filme como vilões, como se fossem “lobos em peles de cordeiros”.

O filme é longo e talvez se fosse mais curto tivesse tido mais sucesso, há muitas reviravoltas para se encontrar o fechamento da narrativa e ter um final, talvez o final encontre a pior parte do filme, com toda aquela coisa de que as pessoas mesmo sofrendo muito encontraram a tranquilidade, pelo menos até aquele momento, onde as lágrimas escorrem e um novo por do sol maravilhoso surge depois de tanto sangue escorrendo das entranhas. Temos uma edição clássica que em muitos momentos é feita de modo paralela, onde várias estórias são contadas com pequenos cortes em cada estória, a fotografia não compromete em nada, é muito bem feita e a atuação é um dos pontos altos, mesmo mostrando pequenas fragilidades em alguns momentos, talvez porque os orientais demonstram os sentimentos de uma forma diferente, muitas vezes exageradas ou se a tendência sobre o cinema mais minimalista na atuação e menos teatral Shakespeariana, já está impregnando principalmente no atual cinema ocidental de uma forma geral, tem essa sensação de atuação um pouco exagerada.

Este é um filme para ser visto e ser discutido entre amigos com belos drinks à disposição e confabular novas teorias conspiratórias que giram pelo mundo a fora, se sua tendência é apenas para entreter com “cenas gore” e não perceber toda a crítica que há diretamente no filme, não perca seu tempo, Transformers está aí para te deixar mais feliz, isto é cinema com estética popular, mesmo com o tempo longo, mas com assunto para se desenvolver além dos 109 minutos do filme, uma experiência cinematográfica para além da pipoca e do refrigerante.

 

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OSTENTAÇÃO E VIOLÊNCIA.

Narco Cultura (Narco Cultura) – 2013.

Dirigido por: Shaul Schwarz.

Duração: 103 minutos.

 

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Não consegui assistir este filme quando ele passou no festival in-edit brasil de 2014, mas consegui uma cópia do filme, em mãos no conforto do lar com os ruídos da cidade de São Paulo adentrando a janela pude ver este documentário dirigido pelo diretor israelense Shaul Schwarz que também é um experiente fotógrafo de guerra. Se você quer se surpreender totalmente com as estórias do filme, leia o texto inteiro somente após assistir o filme.

Sem Título-1Narco Cultura é um documentário que segue duas linhas narrativas que se convergem, mesmo que alas estejam distantes. Uma das estórias é sobre a vida de um criminalista da polícia mexicana que atende várias ocorrências por dia de crimes de assassinato cometidos principalmente pelo cartel de narcotráfico do México e vive sobre constante perigo de morte; o outro personagem do filme é sobre um cantor de narco-corrido que vive nos Estados Unidos da América, o narco-corrido é uma música que parece um pouco com as músicas dos mariachis só que com letras que glorificam o poder dos narcotraficantes e suas violências.

O criminalista Rich Soto vive em uma cidade na fronteira com os EUA chamada Juarez que é a cidade com maior taxa de assassinatos do México, Rich Soto apesar de ver Sem Título-5diariamente diversos corpos mutilados leva uma vida aparentemente tranquila, pelo menos Soto mostra certa frieza diante das câmeras, talvez uma frieza que adquiriu ao se tornar policial ou também por se acostumar a ver tantos corpos de pessoas mortas, ao mesmo tempo ele parece não estar totalmente contente com a vida que leva, já que ele não pode sair de sua casa, é sempre do trabalho para casa e da casa para o trabalho, sua família que vive na cidade não gosta do seu trabalho, vários de seus colegas de trabalho já morreram em serviço, em retaliações à investigações feitas ao cartel mexicano, Soto quer o dinheiro para poder ter maior estabilidade em sua vida e poder ir morar com sua esposa e filhos que vivem do outro lado da fronteira.

Edgar Quintero é um cantor de narco-corrido, ele não é um narco-traficante ele apenas faz músicas sobre o narco-tráfico e também aceita encomendas de traficantes Sem Título-3para fazer músicas especialmente para eles, sempre glorificando os feitos dos traficantes, Quintero parece viver uma vida fora da realidade em alguns momentos, ele tem muito dinheiro, no EUA este tipo de música dá muito dinheiro, chega até a ter uma certa popularidade até entre os estadunidenses, principalmente os de origem latina, mas o narco-corrido foi proibido em rádios e na televisão, então ele fica apenas nas comunidades de estrangeiros e em alguns momentos em shows de narco-corridos que parecem grandes bailes de música country, mas em vez de falarem da vida no campo as letras são voltadas ao mundo dos narco-traficantes.

Em um momento a equipe do documentário acompanha Quintero, que vai até o México para poder conhecer melhor o país e saber mais sobre o que ele canta. Há imagens dignas de completa ostentação, há um cemitério onde os túmulos são verdadeiras mansões, onde apenas a pessoa e sua família podem ser enterradas, são túmulos que tem até vidros à prova-de-balas, é algo totalmente insano de se ver, os traficantes e poderosos dos Cartéis mexicanos ganham tanto dinheiro com a droga que não tem onde gastar, eles não podem investir esse dinheiro em “empresas oficiais” então muitas vezes eles fazem este tipo de excentricidade.Sem Título-4

Uma das coisas mais interessantes do documentário é como a equipe teve acesso à vida destas pessoas, tanto no México, junto de uma equipe especializada em ir até a cena do crime e descobrir o que aconteceu, não necessariamente encontrar os culpados, esta não é a função dos criminalistas e também como eles conseguiram filmar a intimidade de pessoas ligadas ao tráfico de drogas, além da coragem da equipe de estar em lugares extremamente violentos para contar estas estórias, vejo que os cantores de narco-corridos e os narco-traficantes adoram uma exposição também, eles querem que outras pessoas saibam que eles são a autoridade, não é o governo e sua polícia que comanda aquela área, e que se eles querem produzir e vender drogas, acabar com cartéis vizinhos com violência muito acima do que apenas alguns tiros, Sem Título-2eles vão e fazem, e há diversas imagens dignas de filmes no estilo “faces da morte”.

Falando da parte técnica do filme, não há algo muito diferente do que já se viu em outros documentários, são entrevistas com câmera parada entrevistando os personagens principais e também outras pessoas próximas ao assunto ou os personagens para corroborarem as estórias contadas, também há câmeras na mão/ombro acompanhando os personagens e a câmera realmente mostra pessoas despedaçadas e muito sangue, é um filme com imagens fortes de uma violência que ocorre no México contrastando com as festas de quem faz música glorificando a morte de outras pessoas. A estética do filme em geral é muito boa, nada novo, mas muito bem feito e tudo que ele propõe esteticamente dialoga com o assunto abordado.

O filme vale ser visto para poder conhecer Sem Título-6esta estória de violência que ocorre nos dias atuais no México, uma das partes interessantes do filme é a informação de que em Juarez foram assassinadas mais de 3 mil pessoas em 2010 e na cidade estadunidense somente 5 assassinatos e é lá em El Paso que os artistas de narco-corrido fazem fama e dinheiro, cantando com bazucas em suas costas e tudo isso não é tão divulgado pelo mundo, morre muito mais pessoas do que em algumas guerras que acontecem pelo mundo, e porque ela não é tão divulgada, principalmente no Brasil? Será que é muito longe e não afeta a nossa economia? Será que as grandes empresas e os governos tem algum interesse sobre a venda de drogas e a guerra entre cartéis? Cabe a cada pessoa responder estas e outras perguntas que podem surgir na reflexão de cada pessoa após assistir ao filme, enquanto uns detem o poder segundo as leis outros detem o poder pela violência e estes dois poderes em alguns momentos mantém o mesmo interesse. Um belo documentário para conhecer sobre o narco tráfico e o narco corrido, o que aqui é intitulado como narco cultura.

 

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REBELDIA FORA DOS GRAMADOS.

Rebeldes do Futebol (Les Rebelles du Foot) – 2012.
Dirigido por: Gilles Perez e Gilles Rof.
Duração: 92 minutos.

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Já que quase todas as conversas por mais distintas que sejam acabam terminando em futebol nestes tempos de efervescência pela copa do mundo e depois de achar e assistir este filme na internet, resolvi escrever sobre ele, porque não é um documentário sobre futebol e sim sobre jogadores que se destacaram principalmente por sua vida fora dos gramados jogando pelos seus times ou seleções.

“Rebeldes do Futebol” é um documentário apresentado por um ex-jogador francês Eric Cantona, que foi um jogador polêmico, principalmente por ter dado uma “voadora” num ????????????????????torcedor durante um jogo, mas sempre teve problemas com a autoridade dos técnicos e com sua aposentadoria precoce se envolveu com arte e cultura e assume sua posição política de esquerda. Cantona gosta de jogadores com atitude dentro e fora dos campos e o filme narra a história de cinco jogadores separadamente que atuaram além dos gramados.

A primeira história do filme é sobre um jogador contemporâneo que ainda está na ativa, Didier Drogba que jogou pela Costa do Marfim nesta copa de 2014 no Brasil, é através da drogba_simple_300seleção que ele agiu para ajudar a pacificar seu país, com seus gols e vitórias junto da seleção Marfinense que Drogba falou para o povo do país para largarem suas armas para poderem assistir ao jogo da seleção da Costa do Marfim contra Madagascar em um estádio que ficava até então em área que estava sobre o poder dos rebeldes, e graças a esta atitude de Drogba o país não está mais em guerra civil.

O chileno Carlos Caszely é o segundo jogador a ter sua história apresentada no filme, Caszely jogou pelo Colo-Colo e pela seleção Chilena e foi publicamente contra a ditadura de Pinochet e estando fora do país porque estava jogando no Levante, time da Espanha, ele teve sua mãe sequestrada e torturada pelo regime de Pinochet em represálias as suas declarações, mesmo com essa situação, em jogo da seleção chilena no país em Caszely_Levanteque Pinochet vai cumprimentar os jogadores, Caszely se recusa a dar a mão ao ditador e depois destes acontecimentos chegou a fazer campanhas televisivas para acabar com o governo de Pinochet, o que por fim aconteceu. Caszely ainda é vivo e conta as histórias pessoalmente.

Continuando temos a história de Rachid Mekholufi que era jogador do Saint-Etienne que fugiu com outros jogadores para a Argélia para jogar numa seleção da FLN (frente de libertação nacional), foi a partir dos jogos desta seleção, que mesmo após ter se tornado a seleção da Argélia ainda não era reconhecida pela fifa, a França começou a perceber que já não teria mais como continuar em guerra contra a Argélia que ela estaria se tornando um país livre. Mekholufi também está vivo e conta suas histórias pessoalmente memoria08-008_0no filme, é muito interessante ver como um jogador de estava se dando bem em outro país, foge escondido, como se fosse uma “persona non-grata” e conta os detalhes da fuga e o porquê dele estar fazendo isso para o seu país.

Ilijas Pasic foi jogador do Sarajevo FC e também jogou pela seleção da Iugoslávia, que hoje se desmembrou e se tornou outros países, mas a cidade onde viveu hoje faz parte da Bósnia e Herzegovina. Ainda na antiga Iugoslávia enquanto o país estava em conflitos resolve montar uma escola de futebol para crianças das várias etnias que faziam parte do país, como bósnios, servos e etc. Pasic convenceu os pais das crianças que elas, se fossem morrer que morressem fazendo aquilo que gostavam que fosse jogando futebol, o próprio Pasic conta que as crianças tinham que ilijamuitas vezes se esconderem no subsolo do ginásio onde jogavam, corriam por uma ponte para que não fossem atingidas por tiros e nenhuma das crianças da escolinha de futebol foi morta durante os conflitos no país.

E por último temos a história do jogador Sócrates que durante a ditadura militar foi um dos líderes do time do Corinthians no início dos anos 80, Sócrates era médico e jogador de futebol, ajudou a consolidar a democratização do futebol através da “Democracia Corintiana” que consistia em todos no clube tinham poder de votar nas decisões do time, não era apenas o presidente e a parte administrativa que tomava as decisões, mais também jogadores e funcionários do clube podiam tomar decisões e isso era além de uma revolução para os padrões de um clube de futebol, também era exemplo e uma forma de protesto contra a ditadura militar e poderia ser visto também como uma forma de gestão para empresas particulares onde apenas uma ou democum pequeno grupo de pessoas obtêm o lucro pelo trabalho de todos, Sócrates morreu em 2011 e viu a ditadura acabar, mas não a consolidação de um futebol e uma sociedade mais democrática, no sentido literal da palavra.

Esse é um documentário muito importante para quem gosta tanto de futebol como de revolucionários e política, porque é através destes exemplos, devem ter alguns com menores proporções por aí, mas com os exemplos deste filme podemos ver a importância de um jogador de futebol para o seu país, o que ele representa e como ele pode usar o seu “status de herói e até mesmo de celebridade” com podemos ver hoje em dia para construir uma sociedade melhor ou até mesmo para mudar radicalmente a sociedade onde vivem ou nasceram. Mostra o poder que os jogadores podem ter com suas palavras e atitudes, infelizmente, assim como na 6a01310f90b709970c0192aa43a997970dsociedade em geral são poucas pessoas que dão “a cara a tapa” para conseguirem mudar a sociedade e fazerem um lugar melhor não apenas para sua família, seus amigos ou pessoas que concordam com eles e sim para toda uma sociedade.

A parte técnica do filme não compromete, não há nada de especial e inovador, como também não tem problemas técnicos. Mas gosto do jeito que é apresentado em um teatro, já que o futebol também é um espetáculo que pode mudar o mundo, pode ser até interpretado como arte. “Os Rebeldes do Futebol” é um filme extremamente inspirador que poderia ser visto por mais aspirantes a jogadores de futebol e jogadores profissionais que são engolidos por seus empresários e “rios de dinheiro”.

 

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A TENSÃO DA FÉ.

Paraíso: Fé (Paradies Glaube) – 2012.
Dirigido por: Ulrich Seidl.
Duração: 109 minutos.

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Outro filme que consegui uma cópia e somente depois de um tempo que fui assistir e já não lembrava nem do que se tratava a estória, depois de uma pesquisa sobre o diretor descobri que ele havia feito o excelente documentário “Animal Love” e já tem diversos trabalhos no cinema, “Paraíso: Fé” é o segundo filme parte da trilogia chamada paraíso, que tem ainda os filmes, “Paraíso: Amor” e “Paraíso: Esperança”, o filme “Fé” é um filme intenso, perturbador e angustiante sobre a fé.

Anna Maria, a personagem principal do filme, vive em uma cidade Austríaca, é uma fanática religiosa, provavelmente católica, uma senhora aposentada, vive em uma grande casa, parece ter uma boa condição financeira pelo tamanho e localização de sua casa e estilo de vida. Ela faz um trabalho de pregação que é de ir até as casas das pessoas para deixar uma palavra religiosa e muitas vezes uma imagem de nossa senhora durante um tempo, tentando converter para que tenham uma vida igual à dela, à qual ela julga ser Paradies-Glaubemelhor, mas ela nem sempre é bem recebida e para conseguir resistir aos pecados carnais ela usa de violência contra si mesma, autoflagelação. As cenas em que Anna Maria se castiga são bastante perturbadoras, bate com força com um chicote, coloca uma espécie de coleira na coxa para a autopenitencia, também anda de joelhos pela casa, dando chicotadas nas costas e rezando. Mas, sua religiosidade não é apenas autoflagelação, ela canta músicas enquanto toca um teclado e encontra-se com um grupo em sua garagem para fazer rezas, provavelmente semanais, que lhe passa uma tranquilidade e sensação de estar fazendo aquilo que julga ser certo.

Nabil, o ex-marido de Anna Maria, volta para casa depois de um tempo fora, ele é um senhor cadeirante e muçulmano, ele esteve um tempo com sua família, não sabemos se foi um acidente ou alguma doença que o deixou na cadeira de rodas, só que ele esteve 10fora, porque estava passando um tempo com sua família. Nabil voltou porque quer tentar reatar o casamento, mas Anna Maria só se interessa por jesus agora, o relacionamento dos dois não evolui como Nabil quer, Anna Maria está sempre se esquivando, seu foco agora é jesus.

Há agressões constantes de Nabil contra a religiosidade de Anna Maria são tanto agressões verbais, contra os objetos religiosos dela, quanto à violência física, por mais que seja cenas intensamente absurdas um cadeirante batendo em uma mulher, vemos que o machismo da religião dele e a aceitação da religião dela, faz com que a mulher acabe sendo uma vítima atroz, ela aceita toda essa violência com a justificativa de que é um castigo ou uma provação pela qual está passando e tem que manter sua calma e bondade. Em dado momento Anna Maria perde a sua paciência cristã e cria uma espécie 20485821.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxde prisão para Nabil, eles moram em uma casa que tem dois andares, então ela pega a cadeira de rodas dele e coloca no andar de baixo e leva o elevador também, esta cena é interessante porque temos um sentimento de vingança permeando a cena por todo o sofrimento que Nabil está causando à Anna Maria, ao mesmo tempo em que é uma crueldade contra uma pessoa que tem problemas sérios de locomoção e tudo fica essa confusão de qual é o limite da bondade das pessoas diante de constantes ataques de violência e como pode ser a reação tanto de quem está oprimindo como quem está sendo oprimida.

Paradies GlaubeOs desejos carnais de Anna Maria se intensificam, em uma das cenas mais hereges do filme, com um crucifixo com Jesus crucificado Anna Maria começa a esfregar ele pelo corpo até começar a se masturbar, ela está com desejos carnais, mas, ao mesmo tempo sabe que não deve cometer este “pecado”, muito menos com um homem de outra religião, já que Nabil é muçulmano. Creio que este tipo de cena questiona até quando a religião é avessa a biologia humana, por mais que a sociedade influencie nossas atitudes, inclusive as sexuais, me parece que temos uma sexualidade latente que deseja o sexo, mesmo que seja apenas para a reprodução.

Anna Maria fica por alguns dias com o gato de uma vizinha, ela parece não ser dar muito bem com o animal, apenas o alimenta e limpa sua sujeira na garagem de sua casa até que Nabil encontra o gato e o liberta para dentro da casa e até na cozinha. Aqui vemos a falta de habilidade de Anna Maria com os animais, ela parece cuidar do gato apenas para ajudar uma vizinha e não por gostar e ter jeito com gatos ao contrário de Nabil que tem mais carinho com o gato e o usa como um companheiro para sua estadia solitária, principalmente quando Anna Maria sai para seus deveres.

694504Em algumas cenas Anna Maria tenta converter algumas pessoas totalmente peculiares, um velho senhor que depois da morte da mãe, vive entre uma bagunça gigantesca, parece até um colecionador de coisas velhas e lixo, ela tenta falar com ele, ele é até solicito com ela, mas não quer fazer muitos esforços para seguir as regras de reza que Anna Maria lhe passa. Outra pessoa que dá trabalho é uma mulher solteira em seu pequeno apartamento que está muito bêbada e quer continuar bebendo, tenta agarrar Anna Maria sexualmente, ela fica constrangida, porém fica ali para tentar enfrentar aquela situação difícil salvar aquela mulher daquele mundo de hedonismo e alcoolismo. Ela também encontra problemas em converter pessoas que não falam o alemão corretamente, algumas não têm o mínimo de interesse em serem religiosas e questionam a sua religiosidade por serem mais materialista, Anna Maria acredita tanto em deus, em jesus, que ela é totalmente apática as ideias alheias, ela tenta fazer o seu trabalho, pregando a palavra de jesus e tentando converter as pessoas para a sua religião.

Percebi que a todo tempo o filme tenta deixar Anna Maria como uma pessoa extremamente religiosa e ignorante, meio que transformando ela em uma pessoa ruim, paradoxalmente, ela é essa pessoa ruim por ter essa visão conservadora/católica segundo o que as imagens do filme vão passando e não por ser uma pessoa que não liga 01para os problemas que a cerca. “Paraíso: Fé” é um filme muito intenso, deixa a todo o momento uma sensação de revolta, tanto pela dedicação cega de Anna Maria; mas que parece lhe trazer paz até certo momento, quanto pelo machismo de Nabil e também pela subserviência de Anna Maria, a religiosidade é muito criticada neste filme, mostrando um lado de sofrimento pelo fundamentalismo de seguir uma religião não abrindo espaço para diálogos e a pessoa vai se afundando em sua crença, esquecendo que outras pessoas podem pensar diferente, atrapalhando o convívio social com quem não concorda e vive o mesmo estilo de vida.

Gosto muito dos enquadramentos de câmera do filme, que tem muitos planos fixos, mostrando estabilidade ou até mesmo dando uma sensação de tédio e tensão, estas câmeras fixas são mais onde Anna Maria está sozinha, quando ela está interagindo com outras pessoas a câmera costuma ter mais movimento, pode ser que o diretor quisesse ter passado a tranquilidade e intranquilidade interior de Anna Maria através dos movimentos de câmera. Tem planos incríveis no filme, onde não há a interação dos personagens com arquiteturas frias e também com as intempéries da natureza e com a sociedade em geral que continua acontecendo com diversas opiniões, estilos de vida e religiosidades.

“Paraíso: Fé” é um filme indicado para aqueles que gostam de ver como são as atitudes humanas diante de pessoas extremamente religiosas e como é a visão de uma pessoa sobre isso, no caso o diretor “Ulrich Seidl”, penso que este tipo de filme é algo que faz as pessoas que não acreditam em religião nenhuma gostar do filme e aquelas que são religiosas não gostarem do filme.

 

TRAILER:

AS BRUXAS SÃO NECESSÁRIAS.

As Bruxas de Zugarramurdi (Las Brujas de Zugarramurdi) – 2013.
Dirigido por: Álex De La Iglesia.
Duração: 109 minutos.

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O primeiro filme do diretor Álex De La Iglesia que lembro ter assistido foi o horror cult “Acción Mutante” e também assisti “O dia da Besta” e “A Comunidade” todos eles, exceto o “Acción Mutante” são filmes carregados de humor negro, mostrando a imbecilidade e idiotice dos seres humanos e neste novo filme “As Bruxas de Zugarramurdi” não é las-brujas-de-zugarramurdi-foto-pelc3adcula-3910diferente, um bela comédia com violência absurda e muita fantasia e bizarrices.

O filme começa com um assalto a uma loja, destas que compram e vendem ouro e joias, o interessante é que a gangue que irá assaltar a loja são pessoas vestidas de algum personagem famoso, um é Jesus prateado, outro é um soldado verde, uma pessoa vestida de bob esponja, uma criança que não tinha com quem ficar e vai com o pai e assim por diante. O assalto ocorre com suas bizarrices e trapalhadas e somente conseguem fugir o Jesus prateado, seu filho e o soldado verde, eles pegam um táxi e levam além do motorista o passageiro que estava no táxi.

Depois de uma fuga com tiroteios, perseguição de carro e tudo, quando conseguem despistar a polícia, decidem que irão cumprir o plano mesmo com muito dos companheiros do assalto terem ficado para trás, irão até a França, Jesus Prateado maxresdefaultchama-se José, o Soldado Verde chama-se Antônio, o filho do Jesus é Sergio e o taxista que resolve que irá com eles se apresenta como Calvo, o passageiro que só reclamava foi deixado no porta-malas e todos o chamam de Badajoz que é a cidade que ele gostaria de ter ido quando tomou o táxi. A esposa de José, Silvia, é procurada pela polícia para saber o paradeiro dele, só que ela não sabe onde ele está e o curioso nesta cena é que a polícia não consegue nenhuma foto de José com a esposa, porque todas as fotos que eles estavam juntos foram rasgadas e não sobrou nenhuma com José, Silvia vai atrás de seu filho Sérgio, a polícia segue a mulher que segue algumas pistas de onde pode encontrar o filho e o ex-marido. Todos acabam em uma estranha taberna, suja e com estranhos frequentadores no meio de uma pequena estrada rodeada por uma sombria floresta. Para chegar à França, no meio do caminho eles tem que passar pela cidade de Zugarramurdi que fica na divisa com a França, Calvo o taxista sabe da fama da cidade em ter bruxas e fica apavorado, mesmo assim eles seguem viajem. Em Zugarramurdi José e Antônio ficam estupidamente apaixonados por uma jovem bruxa chamada Eva e sua mãe e avó estão preparando uma Las Brujas De Zugarramurdi - Scenegrande festa aonde os recém-chegados convidados poderão ser o prato principal e o inocente e jovem Sergio é perfeito para ser usado no sacrifício para a bruxa-monstro.

Gosto muito dos personagens deste filme, apesar de que em todos os filmes do “Álex De La Iglesia” tem ótimos personagens, os homens neste filme são uns imbecis que apesar de conseguirem completar seus objetivos, os conseguem de modo totalmente atrapalhado e mal planejado. As mulheres são todas umas loucas, a todo o momento temos referências que na verdade, todas as mulheres podem ser bruxas. Os homens a todo o momento falam mal de suas esposas, pode até soar machista em alguns momentos, mas ao mesmo tempo, uma das bruxas, Eva se arrepende de ser bruxa e se apaixona por José e elas são quem realmente controlam o mundo, alimentando uma bruxa-monstro gigantesca que vivem em uma caverna, é algo muito absurdo e divertido ao mesmo tempo. Parece um retrato das mulheres espanholas, guardadas as devidas proporções é claro, estas mulheres que sempre estão com os sentimentos “à flor da pele”, “dramáticas” que se expressam com muita veemência e brigam por aquilo que querem, e as bruxas foram mulheres que subverteram o Status Quo na época da Idade Média, são mulheres com coragem de enfrentar o mundo, coragem de contestação de um mundo patriarcal.

13805782_24670_1Carmen Maura, que já fez o filme “A Comunidade” com Álex De La Iglesia faz o papel da bruxa-mestra, ela ficou muito conhecida fazendo vários filmes do Pedro Almodóvar e é muita conhecida na Espanha por diversos trabalhos como atriz, é sempre muito bom ver o jeito firme e engraçado de suas atuações em loucos personagens. Em “As Bruxas de Zugarramurdi” os personagens têm suas características, tem o corajoso, o medroso, o azarado, os homossexuais enrustidos, tem a bruxa má, a bruxa sem noção, a bruxa aventureira em dúvida, a mulher que é tão ruim que deveria ser uma bruxa, a criança inocente, o adulto infantilizado, o servo sádico, todos eles muito caricatos, mas sem soar irreal, mesmo com os exageros e estereótipos, tudo é muito bem feito.

Há muitos momentos interessantes no filme como o relacionamento dos policiais que estão perseguindo a gangue, os dois policiais brigam o tempo todo, como um típico casal que vive junto há muito tempo, eles se gostam, mas a profissão deles o fazem ser totalmente machões; o taxista que está cansado do casamento e na primeira oportunidade que tem foge, mesmo cometendo um crime; a bruxa que quer viver um outro tipo de vida, é um roteiro com pessoas infelizes que estão procurando outra vida e o Badajoz que é a única pessoa que gostaria de seguir sua vida como ela está é o personagem que mais se fode e sofre com toda essa história de fuga e bruxaria, gosto do começo do filme que começa em um assalto interessante no centro de Madrid, o assalto com uma criança e todos os personagens estarem disfarçados é muito interessante, porque são personagens que estão no dia-a-dia de grandes cidades, oferecendo os mais diversos serviços, e por causa da fuga eles irem parar numa cidade com bruxas que 16473682_EOZa1querem uma criança para um sacrifício para alimentar a bruxa-monstro, pelo que me pareceu, é o alimento para as bruxas manterem suas vidas e conseguirem fazer com que o mundo de certa forma não seja destruído pela bruxa-monstro ou algo do tipo, pode até ser que a bruxa-monstro faça parte da natureza e mantém certa harmonia no mundo.

A parte técnica de “As Bruxas de Zugarramurdi” é muito boa, exceto na parte de alguns efeitos especiais que soam um pouco falsos, sejam por causa da computação gráfica ou até mesmo por uma luz mal planejada, penso eu, mas nada disso tira o mérito do filme que é entreter e divertir, não é um filme revolucionário, não é um filme que vai mudar o mundo, é um filme leve, que arranca risos pelo seu exagero gore e com humor torto delicioso. Quem é fã dos filmes do “Álex De La Iglesia”, certamente irá curtir mais este filme deste diretor espanhol mestre em fazer filmes com temas de horror com uma visão humorística e de certa forma fazendo uma crítica as histórias absurdas que acabamos tendo medo, que talvez esta fantasia, muitas vezes religiosas, de um folclore bizarro, pode não existir, que focamos nosso medo em algo que pode nem existir e que tudo isso se transforma em piada nas mãos deste diretor experiente e debochado.

Curiosidades:
– Zugarramurdi é realmente uma cidade do norte da Espanha que faz divisa com a França.
– No site da cidade de Zugarramurdi lê-se: Zugarramurdi – Pueblo de las brujas – 400 años (Zugarramurdi – Povoado das bruxas – 400 anos).
– O primeiro filme de Álex De La Iglesia “Acción Mutante” foi produzido pelo famoso diretor Pedro Amodóvar.

 

Trailer:

A MALDADE SEM RESPOSTAS.

Borgman (Borgman) – 2013.
Dirigido por: Alex Van Warmerdam
Duração: 113 minutos.

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Peguei uma cópia deste filme por causa da sinopse: “Após ter problemas no lugar onde vive, um vagabundo bate na porta de uma família rica pedindo para usar o banheiro, isso é tudo que o vagabundo precisava para por em ação seus planos diabólicos, e transformar a vida de todos da família num verdadeiro inferno” e também por ter sido selecionado no festival de Cannes de 2013. O diretor Alex Van Warmerdam já fez diversos outros filmes que não tive a oportunidade de assistir. Garanto que “Borgman” é um filme no mínimo curioso.

O filme começa com uma espécie de caça, um padre armado com uma “calibre 12” e mais duas pessoas que parecem ser trabalhadores do campo, eles estão numa mata e vlcsnap-2014-02-13-20h51m24s11neste momento, um homem que vive embaixo da terra, começa a fugir, ele está muito bem vestido e leva uma maleta, ele avisa mais dois companheiros que vivem em outros buracos debaixo da terra e foge. Este início já é bem estranho, porque não há explicação sobre o porquê deles estarem sendo caçados, porque aquelas pessoas vivem debaixo da terra, como foram parar debaixo da terra, elas usam da tecnologia atual, já que têm celulares, não é um tipo de povo que vive no meio do mato sem tecnologias e há muitas perguntas que começam a martelar na cabeça quando outras cenas se seguem.

O homem do início do filme anda pelas ruas, toca campainha em uma casa e pede para tomar banho, a mulher que atende prontamente bate a porta na cara do homem que segue para outro lugar, ele chega a uma casa grande com um grande jardim em volta, vê algumas pessoas pela janela e resolve apertar a campainha, ele é atendido por um homem que pergunta o que ele quer, ele pede para tomar banho o homem recusa, ele usa alguns argumentos e diz que conhece a sua esposa, o homem chama sua esposa, uma confusão se arma e irritado o homem da casa começa a bater naquele homem barbudo e sujo que está em frente à sua casa, a esposa o detém, Borgman (o homem ator-do-filme-borgman-de-alex-van-warmerdan-que-concorre-na-mostra-competitiva-do-festival-de-cannes-2013-1368217242299_956x500misterioso) se esconde no mato, visivelmente machucado. O marido (Richard) e a esposa (Marina) tem uma discussão Marina pergunta se aquilo era necessário, Richard ainda nervoso, pega o carro e vai trabalhar, Borgman toca novamente a campainha e Marina o deixa tomar um banho, ela o alimenta e o deixa dormir aquela noite numa pequena casa que eles têm no quintal, que eles chamam de casa de verão. Nesta cena já se começa a abrir mais possibilidades de quem deve ser este tal de Borgman, ele conhecia realmente Marina, já que ele não diz seu nome certo no primeiro momento e será que ela não o conhece ou mentiu que não o conhecia somente na frente do marido já que ela o ajudou depois, mas poderia estar apenas com pena do velho homem porque o marido o espancou e não há nenhum diálogo de que os dois realmente se conheciam anteriormente, as perguntas aumentam.

Borgman acaba ficando mais do que uma noite na casa de verão e vai para a casa principal onde toma um banho, pega comida, conversa com os filhos de Marina e Richard, este último que não sabe da presença deste homem em sua residência, alguns cachorros vem visitar Borgman e ele diz aos cachorros que ainda não é a hora, que estão adiantados, há algo de mágico, meio diabólico nesta cena, os cachorros vão embora, como são dois, podem ser os dois homens, que ele avisa para fugir no começo do filme, transformados em cachorros. Borgman em uma manhã resolve ir embora, mas Marina estranhamente pede que ele fique, ele diz estar entediado e sugere se tornar o novo jardineiro da casa, para isso Borgman arma um plano para se livrar do atual, ele enveno-o, leva-o para casa e mata ele e a esposa com a ajuda de uma senhora e outra mulher mais jovem que parece sempre ajuda-lo. Já que Richard tem que arrumar outro jardineiro, sua mulher o ajuda, mas é Borgman quem seleciona os candidatos, todos eles são estrangeiros e negros que Richard não deixa nem entrar na casa por causa de seu racismo e preconceito, eis que Borgman com a barba e o cabelo aparados surge como o melhor candidato e fica com o emprego, resolve fazer uma grande mudança no quintal e ainda consegue o quarto de hospedes para dormir e ainda incluir seus dois seguidores wrborg03(vou chama-los assim), como ajudantes e consegue que eles fiquem na casa de verão. Marina parece cada vez mais brava com Richard, que parece estar com problemas no trabalho, Marina está cada vez mais afastada das crianças e nervosa com a babá das crianças e totalmente entregue aos desejos de Borgman, parece até que ele a enfeitiçou, talvez ficando pelado em cima dela enquanto ela dorme ao lado do marido e parece ter pesadelos ou de alguma forma fez com que ela simpatizasse com ele a fazendo rejeitar o marido. Neste momento algumas perguntas parecem estar respondidas, mas ao mesmo tempo outras perguntas surgem e o suspense aumenta.

Um dia um dos ajudantes de Borgman leva as crianças para a escola, porque a babá sente-se mal, então, ele as leva para outro local que não é a escola, junto das duas mulheres que ajudou Borgman anteriormente, elas parecem estar totalmente apáticas com aquela situação e as crianças sofrem uma espécie de cirurgia que as marca com uma cicatriz nas costas, na altura dos pulmões, igual à que Borgman também tem, as crianças voltam, como se tivessem passado um dia na escola e vão dormir. Neste momento parece que algum ritual está sendo realizado por Borgman, será que ele está tentando envenenar as crianças para ficar com a casa? Será que ele quer implantar algo para que as crianças sejam suas seguidoras? Será que ele quer tirar algo de ruim que está nas inocentes crianças?

Próximo do final há algumas reviravoltas no filme que o deixa muito interessante, algumas perguntas acabam sendo respondidas, mas outras se acumulam desde o início e não são respondidas, pelo menos não de um jeito metódico, talvez haja sinais e símbolos que nos responda o que ocorre no filme, só sei que numa primeira assistida o enredo envolve tanto que é praticamente impossível ficar reparando em detalhes, cria-se uma tensão grande em saber o que Borgman quer, o que ele faz ali, porque aquelas pessoas, quem é Borgman? Um demônio, um messias, um louco religioso, um novo imperador da maldade no mundo, ele é um líder de uma seita que está começando ou recomeçando? Quantas vezes ele deve ter feito isso e de onde ele vem e para onde vai? Me parece que todas poderiam ser uma resposta bem plausível.

20570927“Borgman” é um filme que desperta muitas perguntas que creio que não serão respondidas com facilidade, cada um pode ter a sua interpretação segundo o seu repertório, algumas pessoas podem não gostar, é um belo filme para ficar discutindo e analisando depois de assistido em grupo, ter umas viagens, ser estudado mesmo. A parte técnica do filme é muito boa, a fotografia ressalta bem a beleza natural e a arquitetura moderna da casa que há no meio da mata, é uma produção grande, já que há coisas grandiosas no filme, como tratores e a mudança de um quintal inteiro, os atores desenvolvem bem seus personagens, atuando de um modo realista, as crianças também estão muito bem no filme e isso tudo faz o filme fluir muito bem, fazendo com que prestamos atenção a estória em si e em todo o mistério que ele desenvolve e não responde na sua totalidade. Me fica a pergunta, quem é Borgman? Cheguei até a cogitar que poderia ser baseado em fatos reais, mas, o roteiro é original e não é baseado em um livro ou fatos reais, além de Cannes o filme esteve em vários festivais e ganhou alguns deles. Algumas pessoas consideram o filme como um thriller surreal, mas do jeito que é feito, parece que tudo isso poderia realmente ter acontecido mesmo algumas coisas serem absurdas e parecerem fora do lugar. “Borgman” é um ótimo filme, para deixar seus pensamentos confusos e fazer pensar e se decepcionar caso você não encontre as respostas esperadas para o mistério deste filme.

 

TRAILER: