ARTISTA NÚ.

Nick Cave – 20.000 dias na Terra (20.000 days on Earth) – 2014.

Dirigido por: Lain Forsyth e Jane Pollard.

Duração: 95 minutos.

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Tive a oportunidade de assistir este filme em um festival em São Paulo, o indie 2014, achando que iria lotar a sessão, cheguei muito mais cedo para garantir os ingressos, o que não seria necessário, o pessoal preferiu outros programas para um final de noite de um sábado. Gosto muito do trabalho artístico de Nick Cave, desde seu trabalho musical, que é o mais conhecido, até seus roteiros e livros, este filme foi uma bela oportunidade de conhecer quem é Nick Cave e como isso influencia na sua criação artística.

O primeiro plano do filme é de Nick Cave dormindo e acordando em sua grande cama, em seu grande quarto junto de sua esposa. Daí corta para um clipe de abertura com imagens dos 20.000 dias anteriores de Nick Cave na Terra, um clipe muito bem feito com 20000-days-on-earth-bigshotum som bastante forte estalando no cinema, mostrando logo de cara a potencialidade da música do cara, se tinha é que tinha alguém na sessão que não o conhecia.

O filme é muito bem amarrado, as cenas são muito bem pensadas para que possa contar os momentos marcantes da carreira de Nick Cave. Para contar um pouquinho da estória pessoal dele, ele vai até um psicoterapeuta e conversa sobre a sua infância, o papel que o pai teve em sua formação, lembranças remotas e como ele lida com o casamento e os filhos hoje em dia. Quando ele quer conversar com alguém do seu passado ele tem devaneios enquanto desloca-se de um lugar para outro em seu carro, nestes devaneios é como se a pessoa aparecesse como se fosse uma entidade, um fantasma, a pessoa responde como eles se conheceram e algumas perguntas que ficaram ou surgiram posteriormente no relacionamento com a pessoa que aparece, aparecem parceiros musicais principalmente, como a cantora Kylie Minogue que participa do clássico disco ‘Murder Ballads’. Para investigar mais o seu passado, os realizadores usam de um recurso muito interessante, eles vão até um 20000-Days-On-Earth-bilde-4estúdio de um amigo de Nick Cave e lá eles olham fotos antigas de seu acervo pessoal que estavam em uma velha caixa e comentam principalmente sobre o início de sua carreira musical e das presepadas e encrencas que arrumava no início da carreia. Quando ele encontra sua banda os Bad Seeds vemos a sua relação com a banda e seu modo de composição conjunto com a banda em momentos quase sempre tranquilos, não há brigas, nem nada e o que parece ser o principal compositor e produtor da banda Warren Ellis tem uma boa conversa com ele enquanto almoçam em uma casa de campo na Inglaterra. Outros momentos temos de Nick Cave em sua máquina de escrever, escrevendo suas letras.

O filme não é apenas para pessoas que gostam do trabalho do Nick Cave, ou de sua figura, excêntrica e em alguns momentos com um grande ‘ego’. 20.000 dias na Terra é um filme para quem gosta de conhecer a história de figuras que criam arte, como é parte do seu processo de criação, um pouco de sua intimidade com seus filhos, seus cave_3043460bcomplexos do passado e o principal é ver como que de um rockeiro ‘porra louca’ ele se torna uma pessoa metódica, que acaba usando da música como um trabalho comum, um exercício de criação metódico, que funciona. Ele mora numa bela casa em uma cidade do interior da Inglaterra, tem um estúdio, escreve e compõe com sua banda, que parecem ser seus amigos e assim Nick Cave cria suas obras, sejam elas musicais, sejam elas literárias.

Uma parte do documentário foca sobre a composição do último disco ‘Push the Sky Away’, mostra mais como eles finalizaram as músicas e em alguns momentos ele fala como surgiu a idéia para algumas delas, não de forma direta, mas através de metáforas visuais com as imagens do filme. Ele canta a sensacional músical ‘Higgs Boson Blues’ que ele cita Hanna Montana que era o alter-ego na tv infantil para a hoje ‘abusada’ Miley Cyrus, fico me pensando se Nick Cave assisti muita televisão, lê sobre música popular ou foi através de seus filhos que ele conheceu esta personagem da música que o influenciou a escrever uma parte de uma letra de uma música totalmente surreal, mas também pode ser só uma impressão que ele passa de que ele é um ser recluso e não está sempre informado com o que acontece no mainstream.

Li e ouvi muito que o documentário era misturado com ficção, eu não acredito nisto por mais o filme tenha algumas cenas que pareçam terem sido ensaiadas ou combinadas anteriormente, é a própria vida de Nick Cave que está sendo encenada, com as pessoas que fazem parte da sua vida, não é algo invento, é apenas planejado, por isso creio que o 488728581_640filme seja apenas um documentário. É claro que não é um documentário que se liga a câmera e espera-se que as pessoas digam algo bom para ajudar a contar uma história, mas é outra forma de fazer um documentário. Penso no modo de fazer documentários, porque diante de uma câmera, as pessoas se transformam, elas podem estar atuando mesmo sem ensaios, mesmo sem ser atores, o que seria filmar a realidade então? O documentário é a realidade? Creio que o documentário é muito mais a não-ficção recortada sobre uma visão particular de um ou mais realizadores.

20,000 Days on Earth Voltando ao filme, a parte técnica é perfeita, as câmeras são muito bem posicionadas, a cor do filme combina bastante com as sensações que passam a maioria dos discos do Nick Cave, as entrevistas são muito boas, as partes encenadas ou planejadas como eu prefiro são totalmente críveis, a montagem do filme também é muito boa, os trechos de shows antigos e a hora que entra a música tem o “timing” certo, não há exageros em ter muita apresentação musical e nem apenas as pessoas falando, é um filme certinho, bem feito, bem montado e dirigido. Mesmo com o ego inflamado de Nick Cave, a última cena do filme, mostra aos poucos que Nick Cave é apenas mais um pequenino em um lugar tão grande que é a Terra.

TRAILER:

NÃO HÁ ESPERANÇA PARA A HUMANIDADE.

Vida sem destino (Gummo) – 1997.
Dirigido por: Harmony Korine.
Duração: 89 minutos.

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Este filme me chamou a atenção porque li em uma sinopse que era um filme sobre a podridão humana. Só não achei que o filmei cumpriria tão bem o que a sinopse dizia, através de uma estória em uma cidade do interior de algum lugar dos EUA. No filme são focadas as pessoas e famílias que de alguma forma são pessoas à margem da sociedade, são pessoas que vivem bêbadas, que cometem pequenos delitos, que tem problemas mentais, que não tem oportunidade de melhorar, são pessoas que vivem em meio a lixos, famílias desestruturadas e que não tem capacidades de viverem na sociedade como é ditada hoje em dia.

Gummo-1Apesar de existirem vários personagens há um que parece conduzir o filme, que é um menino de aproximadamente 13 anos chamado Solomon e que junto com um amigo mais velho chamado Tummler matam gatos para vender para um açougueiro local, que lhes paga alguns poucos dólares e lhes dão pequenos pedaços de carne, Solomon usa este dinheiro para comprar bebidas e também para pagar para transar com uma jovem que aparenta ter problemas mentais e é explorada pelo irmão como prostituta, os dois costumam transam com ela, um de cada vez. Os dois amigos vivem suas aventuras, mas ao mesmo tempo estão sempre entediados, Solomon, vive com sua mãe, uma mulher que desistiu de arrumar a casa, parece estar em depressão e cuida dele quando pode, ele se vira sozinho, mas ela parece gostar muito dele, que teve seu pai morto, provavelmente em alguma guerra. Uma 1das cenas do filme que se tornaram clássicas, visto a quantidade de imagens sobre ela na internet, é a cena em que a mãe de Solomon leva um prato de macarronada para ele enquanto ele está na banheira e enquanto ele come ela lava seu cabelo e lhe dá uma barra de chocolate, ao mesmo tempo em que é uma cena de integração entre mãe e filho, é uma cena que beira o destrato, pelo ambiente sujo e por misturar comida com água suja, sabão, tudo no mesmo ambiente.

Os personagens são personagens totalmente entediados que procuram de alguma forma deixar aquele tédio de lado e conseguir algum tipo de diversão, seja dançando em cima da cama, matando gatos, bebendo, usando drogas, fazendo sexo, urinando em carros de cima de uma ponte, brincando de policia e ladrão, o filme mostra diversas formas que estas pessoas tentam sair da letargia de suas vidas miseráveis e sem esperanças. Os personagens são pessoas comuns de alguma cidade suburbana dos EUA, são crianças que não sabem o que fazer e procuram explorar a vizinhança, adolescente que querem maxresdefaultse tornar adultos através de drogas, bebidas e sexo, adolescentes preconceituosos e racistas, mulheres sentadas na varanda enquanto conversam superficialidades, pessoas aproveitadoras tentando ganhar dinheiro com o mínimo de esforço possível, no geral são pessoas perdidas em si mesmas antes de qualquer possibilidade de sociabilidade.
A aparência de sujeira, de que tudo é sujo está no filme inteiro, não vemos em nenhum momento, um local limpo, isso tudo causa certo nojo e angústia, toda essa sujeira, muito lixo na verdade, mostra o desleixo que há com aquilo que não será consumido mais, com aquilo que não há utilidade e simplesmente fica largado em algum lugar, não sei dizer ao certo qual a relação de ambição dos personagens, eles não parecem querer muito mais do que aquilo que eles têm, as meninas querem um namorado, uma menina quer seu gato, o menino coelho algo para fazer, Solomon me parece procurar algum tipo de amor e assim o filme vai mostrando esta sociedade que com a vida moderna, não parece se gummo-chloe-sevignyimportar com o lixo em suas vidas, faz o que está mais próximo conseguir para manterem-se vivas.

Este filme me causou uma sensação de que o mundo está perdido e podre, não vejo como uma alternativa para a sociedade burguesa, branca e ocidental, o que é mostrado no filme, e sim uma sociedade atual totalmente excludente que tem de um lado a tecnologia, os ativistas, planos para uma sociedade igualitária, projetos para se chegar ao espaço, curas para doenças inventadas, no filme é mostrado uma sociedade a margem que está totalmente desesperançada e as pessoas vivem suas vidas destrutivas porque é o único modo de viver que tiveram a oportunidade de conhecer, o lado podre da desigualdade. Acho que mais do que mostrar a realidade é um filme para tirar a esperança, um filme cético em relação ao futuro da humanidade.

gummoA estética do filme é muito boa, consegue sincronizar a parte técnica com as boas atuações e o modo de contar a estória. O filme tem muita câmera na mão, enquadramentos de dentro de carros, enquadramentos não convencionais, a montagem é muito bem feita, alguns momentos do filme são quase testemunhais de documentário, há inserções com os personagens em cena solo olhando diretamente para a câmera, tudo somando para que o filme seja o mais realista possível, você pode até sentir a podridão daqueles personagens enquanto assiste ao filme, é claro que é um filme independente feito sem muito dinheiro, mas é um filme muito bem realizado, não vi nada no filme que tirasse a minha atenção para a estória que estava sendo contada e um desvio ou quebra da sensação que o filme quer passar.

968full-gummo-photoNão descobri o que significa o nome ‘Gummo’, mas creio que o personagem do ‘menino coelho’ representa o título do filme, a sonoridade lembra muito “bunny” que quer dizer coelho em português, e essa fofura que representa o coelho, pode ser encontrada, nos momentos de alegria que estes personagens encontram em todo o tédio de suas vidas miseráveis e tediosas, mesmo em toda a merda eles conseguem encontrar momentos que conseguem se divertir um pouco, mesmo que estes jovens muitas vezes acabam se comportando com sexualidade de adultos e muitas vezes pegando doenças ou tendo filhos precocemente e transando sem afeto, tentando encontrar naquele prazer algo além para suas vidas tediosas. Também pode ser um modo de mostrar que as pessoas gostam de ver a “podridão” da qual não fazem parte, que os amantes do cinema alternativo querem estar mais pertos da podridão dos gummo-weightlifting-e1373279419200outros e estarem assistindo isso da tranquilidade de um cinema ou de suas casas, Harmony Korine mostra esta sujeira para este público sedento por podridão.

O diretor Harmony Korine não é um diretor convencional, ele não faz filmes para agradar, já teve outras incursões cinematográficas suas que tive a oportunidade de assistir e são filmes totalmente podres, no sentido de mostrar uma sociedade que está cada vez mais se afundando, se autodestruindo e “Vida Sem Destino” que foi o título no Brasil é mais um destes filmes sem esperança na humanidade do diretor que também escreveu o também controverso ‘Kids’ e é o tipo de cineasta que não fica preso em fazer longas, ele faz documentários, curtas e filmes para a tv. ‘Gummo’ ou ‘Vida Sem Destino’ é um filme para sentir-se mal. ‘Gummo’ é um dos filmes mais sujos que eu já assisti, de uma sociedade totalmente desorganizada, preconceituosa e sem perspectiva de um futuro melhor.

 

TRAILER:

EXCLUÍDOS E AGREDIDOS (ou o VOYEURISMO DOENTIO).

Titicut Follies (Titicut Follies) – 1967.
Dirigido por: Frederick Wiseman.
Duração: 84 minutos.

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Acredito que haja alguns seguimentos de filme documentário, tem o documentário investigativo/jornalístico, tem o documentário com entrevistas, tem o documentário que é a realidade filmada e montada, provavelmente o mais realista dos documentários e também há a possibilidade de fazer uma mistura de todos estes modos de fazer um filme documental. O caso de Titicut Follies pode ser enquadrado como documentário realista. ATENÇÃO: Estas definições e visões sobre documentários foram pensadas por mim e não segue nenhum estudo acadêmico sobre o assunto, você está livre para discordar delas.

titicut follies PDVD_011Titicut Follies foi filmado em uma prisão para presos com problemas psiquiátricos no estado de Massachussetts nos EUA, o documentário mostra de uma maneira invasiva o cotidiano dos internos, dos funcionários carcerários, dos médicos e da diretoria e dia-a-dia do hospital.

A câmera quase sempre fica sobre um personagem e ele vai interagindo com as pessoas ao seu redor, por exemplo, temos uma pessoa que faz um discurso comunista enquanto um ou outro começa a rebater o discurso, algumas pessoas aplaudem, outras gritam. Tem um homem que é músico, um canta uma canção, outro que diz não estar louco e que ele precisa voltar para a prisão comum que ali não é seu lugar, tem pessoas que não querem fazer a higiene pessoal, outros não querem comer, há sempre estes personagens mergulhados em sua insanidade, alguns parecem até atuar para a câmera em alguns momentos, mas a maioria parece não se importar com a presença da câmera. É uma câmera investigativa, tentando descobrir as reações tf_-_man_in_cell.jpg_largedaquelas pessoas, em muitos momentos chega a ser até constrangedor ver pessoas peladas, agredindo a si mesmas, tendo colapsos, mas, a curiosidade em conhecer o ser humano, de ver como essas pessoas vivem, é maior e isso prende a atenção do espectador, é quase parecido com ver imagens de acidentes ou violência, sabemos que são coisas ruins, mas algo faz com que nossos olhos se abram para aquela realidade extrema, onde pessoas perdem seus pudores e medos e se expõem.

É interessante ver o relacionamento dos funcionários do hospital com os internos, na maioria dos casos, talvez por estarem cientes da presença da câmera, os funcionários se mantêm calmos e tentam convencer os internos a fazerem o que eles estão pedindo gavage2através de conversas, ou a tentativa de uma conversa, já que alguns podem apenas se comunicar de outra maneira e também não cederem à autoridade dos funcionários, ao mesmo tempo eles tratam os internos como pessoas inferiores, não é que eles pensam que são coitados, mas inferiores mesmo, como se não fossem humanos. Em alguns momentos, quando eles necessitam usar a força, eles não hesitam em pegar os internos e prendê-los para tomarem banho, fazer a barba, arrumarem suas celas. Tem uma cena que impressiona bastante que é quando um médico tem que alimentar um dos internos com sonda, e é mostrado todo o processo do médico enfiando um cano, parece algo como uma “tripa de mico” e o médico não têm nem vaselina para colocar aquele cano no nariz do paciente e podemos assistir a todo o processo, de alimentação por sonda em uma situação no mínimo anti-higiênica e agoniante.

titicut_1_fullA relação dos médicos com os internos já são um pouco mais tranquilas, apesar deles ouvirem os internos, parecem já ter certeza do diagnóstico que realizaram, não há muita investigação do que está ocorrendo com a mente deles e sim em tentar mantê-los o mais calmo possível, para que não voltem a serem violentos, na minha interpretação do filme, os internos não são, na sua maioria condenados de crimes hediondos, talvez hajam até mesmo presos políticos e de pequenos crimes que estão ali apenas para serem afastados da sociedade, em nenhum momento parece que algum deles está ali para ser recuperado, tanto que um dos internos com bons argumentos em uma reunião com diversos médicos tenta convencê-los de que não é mais louco, mas, os médicos não se convencem de que ele não está louco, mesmo com toda a razão e argumentos que apresenta o interno, é algo mais repressivo mesmo este hospital, não é para curá-los e sim encarcera-los com a desculpa de que estão tratando.

Titicut Follies foi o primeiro filme dos EUA censurado sem que houvesse cenas de sexo ou violência, apesar de que muitas das imagens do filme podem ser interpretadas como violentas, mostrando a realidade e de certa forma denunciando os abusos do hospital e invadindo a privacidade daqueles internos ali presentes, mas da mesma forma o diretor do filme Frederick Wiseman conseguiu autorização para filmar e teve acesso a todas as alas e locais do hospital. O que não vi muito neste filme e que costumava ver muito em outras ficções sobre hospitais psiquiátricos é o uso de medicamentos, não me lembro de ter visto o uso de medicamentos no filme. Outro dos aspectos interessantes é o número tf_-_man_in_cell.jpg_largegrande de talentos musicais que aparecem no filme, não sei se foi uma escolha do diretor em mostrar mais estas pessoas ou se havia bastante delas no hospital, se for pensar que muitas vezes, se prendiam bêbados, drogados, outsiders em geral, não é de se estranhar que houvesse muito músicos, já que os músicos, boa parte dos que não fazem sucesso, vivem em bares e locais com mais violência.

Gosto muito do filme, principalmente por poder ver de perto a situação pela qual passam estes internos, estas pessoas que foram excluídas da sociedade e que vivem em situações de extrema pobreza e além de tudo isso são consideradas e julgadas incapazes de viver em sociedade. As cenas incomodam, elas são brutalmente verdadeiras, elas causam sensações ruins, porque estas situações aconteciam e ainda acontecem, até onde isso é mais segurança para a sociedade e até onde isso é sadismo? Sentimento de superioridade e poder? É deprimente ver um filme como este, é parte da realidade jogada com peso em cima de você, essa é a sensação que tive durante o filme e depois que acabou. Um filme mais que indicado para aqueles que gostam de filmes que te causam sensações, que te fazem aprender, a questionar, a pensar, filmes que mudam sua visão de mundo e te dá uma vontade louca de sair discutindo os assuntos abordados no filme com outras pessoas, um filme que evolui as pessoas, que no mínimo vai fazer você parar e refletir durante um instante.

TRECHO DO FILME:

MONTAGEM QUE DESTRÓI.

4F – nem esquecimento, nem perdão (4F, ni oblit, ni perdó) – 2013.
Direção: 15Mbcn.tv
Duração: 120 minutos.

cartell4F – NEM ESQUECIMENTO, NEM PERDÃO é o tipo de documentário que mostra como a injustiça praticada pelo maior representante do governo, a polícia, pode fazer para defender os próprios interesses e manter a pose de poder, o filme é sobre um dos casos de montagem policial mais absurdos hoje em dia na Espanha.

Durante uma operação policial para acabar com uma festa que estava acontecendo em um prédio abandonado da prefeitura de Barcelona as pessoas começam a jogar coisas do prédio para afastarem os policiais, um destes objetos é um vaso de plantas que cai em cima da cabeça de um policial, o deixando incapacitado. A polícia então começa a procurar um culpado e prende pessoas que poderiam ser suspeitas de cometer um crime, como roqueiros, pessoas com corte de cabelo e vestimentas diferentes, gente que é criminalizada pelo que veste e não pelo que é, a polícia então prende pessoas que nem estavam na festa, mas, estavam algumas quadras dali e os incriminam pelo crime, entre os presos alguns são estrangeiros que continuam presos e os espanhóis continuam respondendo o processo em liberdade.

Este filme é realizado por um coletivo audiovisual chamado 15mbcn.tv, um coletivo de mídia independente, criando e produzindo sem ter que recorrer aos modos tradicionais e mercadológicos de se fazer cinema, é interessante porque se deixa de lado o ego de profissionais de cinema e também não se cria ídolos e sim obras, o que é mais interessante do que vender um filme por quem o realizou, “vende-se” o filme pela história retratada, também é um filme independente, sem incentivos fiscais, dinheiro governamental e também dinheiro privado, é um filme independente.

Como retratado no filme a polícia de Barcelona incrimina pessoas por um de conduta errada da própria polícia. Um dos pontos interessantes de se conhecer esta história é que 4ff4a polícia da cidade de Barcelona não é uma polícia militar, é uma polícia desmilitarizada, só que, os policiais tem as mesmas atitudes de militares, continuam sendo a cara violenta do estado, infelizmente é a única que muitos tem a oportunidade de enxergar. Os policiais, mesmo quando são estrangeiros, mantem a ideologia fascista e por incrível que possa parecer, até os policias estrangeiros são xenofóbicos. A polícia continua enxergando aqueles que não se parecem com obedientes trabalhadores apáticos como marginais e em qualquer situação de não saber a quem culpar, vão tentar culpar aqueles que vivem, pensam e se vestem à margem, mesmo que não sejam pessoas que estejam quebrando a lei, tentando revoltas, qualquer pessoa que não represente o padrão social vigente pode ser enquadrada e sofrer abusos autoritários.

As pessoas que foram incriminadas neste caso, que ficou conhecido como 4F, vivem em uma completa incerteza, porque em alguns momentos estão presas, em outros ficam em prisão domiciliar e a cada julgamento os acusadores vão se complicando cada vez mais por apresentar falsas provas, mas que são aceitas porque os acusados não tem um bom álibi e a maioria deles são estrangeiros, pobres e considerados marginais, eles não tem condições de pagarem bons advogados que possam trabalhar com mais afinco no processo deles. Patricia Heras, uma das mulheres acusadas em todo esse processo, cansada das prisões, julgamentos e toda a violência física e psicológica que todo esse processo está lhe causando, comete o suicídio e o caso começa a ter um pouco mais de exposição nos meios de comunicação de massa e grupos de apoio ao caso criam um cinema chamado Patrícia Heras em sua homenagem.

Via-Laietana-Cinema-Patricia-Heras_EDIIMA20130608_0341_5No geral o filme mostra como o sistema e as autoridades usam o conhecimento e o poder ao seu favor, a justiça não é justa, a justiça só é justa com aqueles que podem ter acesso ao conhecimento e ao poder. Uma das principais reflexões que me suscitou foi a de que cria-se um tipo básico de conduta pessoal, de comportamento social e até de apresentação visual que as pessoas tem que seguir, qualquer desvio deste padrão é visto como algo fora da lei, dos padrões e quando não é visto como ameaça a esse padrão, as pessoas são tidas como loucas e quando houver uma oportunidade essas pessoas serão excluídas, seja através de prisões, como o cárcere ou até prisões sociais, como a pessoa não ter oportunidade de entrar em determinado local ou até mesmo não conseguir um emprego em determinada empresa, etc. É descriminar o diferente só por ele ser diferente, e talvez nem tão diferente no pensar, mas, apenas no vestir; e tudo isso desencadeia uma série de preconceitos que chega em todas as camadas sociais, desde a própria população, como até mesmo os policiais que também fazem parte da população, até pessoas que legislam as leis e as que julgam e determinam como devem ser cumpridas estas leis, acredito que tudo isso venham da cultura de repressão do estado, de calar aqueles que não participem do “status quo”.

4FF2O filme poderia ser dividido em três partes, a primeira é a apresentação da história, contando o que foi o caso e tentando dar o máximo de detalhes dos personagens do caso 4F, uma segunda parte seria mais uma parte investigativa, tentando derrubar todos os argumentos da acusação e mostrando a hipocrisia da polícia e seus erros que são apoiados pelo governo de Barcelona e uma terceira parte é o desdobramento do caso, quais foram os resultados até o momento, já que ainda não se tem o veredito sobre o caso que está em vigor desde 2006 e como diz o site do próprio documentário o principal acusado está preso desde 2012.

O filme é muito bem produzido, imagens da cidade de Barcelona, imagens conseguidas da situação da festa, provavelmente feita com celulares e entrevistas feitas com alguns dos acusados e também com advogados e ativistas do caso 4F, tem uma montagem bem dinâmica, bem parecida com o que vem sendo feito com a maioria dos documentários ativistas que tem aparecidos nos últimos anos, uma linguagem mais acessível à quem está acostumado com a linguagem televisiva, principalmente na edição. 4FF3As entrevistas feitas com os acusados são feitas em salas vazias o que causa uma certa cumplicidade através da estética, porque o lugar além de parecer inóspito à quem está sendo entrevistado parece que toda aquela situação que viveram lhes trouxeram um vazio existencial e hoje eles também não tem muito em que se apoiar, essa percepção pode ir mudando para quem está assistindo após ouvir um pouco da história de cada um.

Após assistir este filme você provavelmente irá sentir um sentimento de injustiça e revolta, porque temos que ter pessoas sendo sacrificadas para manter a credibilidade de uma instituição, é a pergunta que respondo, mas não consigo concordar com tal atitude.

OBSERVAÇÕES:

- Pude assistir este filme através da prévia do III festival do filme punk e anarquista de São Paulo que acontecerá em Dezembro de 2014 no Tendal da lapa, quem quiser saber mais sobre o festival visite: http://anarcopunk.org/festival/?page_id=187

- O cartaz desta postagem não é oficial do filme, é de uma exibição do filme com presença de alguém que colaborou na realização.

- O site do filme tem mais informações sobre o caso: http://documental4f.wordpress.com/

TRAILER:

QUALQUER AUTORIDADE REPRIME

THX 1138 (THX 1138) – 1971.
Dirigido por: George Lucas.
Duração: 86 minutos.

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Os filmes de George Lucas fizeram parte da minha infância e adolescência, acredito que da maioria das pessoas que fazem parte da minha geração, com a saga Star Wars e Indiana Jones. Fazia tempo que estava com vontade de assistir este primeiro experimento de ficção-científica do George Lucas.

THX 1138 é o nome/identificação de uma pessoa de um futuro ambientado quase que completamente em ambientes fechados e exageradamente brancos. THX trabalha em uma fábrica que usa produtos nucleares e ele é apenas mais um em meio a tantas THXLUHpessoas que fazem apenas uma parte de um processo que faz um produto, não é especificado qual o produto. Em seu lar THX divide com uma companheira LUH, que também trabalha na mesma empresa que ele, só que ela parece ter um trabalho de supervisão, um cargo menos perigoso, mas, com mais responsabilidades e submetida ao tédio e ordens constantes ditadas por uma voz através de alto falantes da mesma maneira. O relacionamento de THX e LUH começa a mudar quando THX cada vez mais deprimido começa a não aceitar todas as regras da sociedade em que está vivendo e é com o amor de LUH, que até então parecia ser algo frio e robótico, começa a incentivar THX a mudar, a questionar, a não aceitar tudo aquilo que lhes é imposto. THX e LUH passam por diversos conflitos até a prisão e fuga de THX que o leva para outra fase de sua vida, um novo início.

thx_1138_004Um dos aspectos curiosos do filme, que permeia muitos filmes de ficção científica, é que no futuro os estados se tornar-se totalitários e as pessoas vivem conforme objetos de uma gigantesca fábrica, o que nos lembra a atual sociedade, onde, quando uma pessoa já não serve para produzir e consumir, ela pode ser substituída, sempre há outra pessoa para ser explorada no lugar de uma que não serve mais, que não concorda mais com o que está acontecendo.

No filme o estado chega a ser até a religião das pessoas, que através de “cabines de conversa” onde as respostas de “deus” não passam de gravações para animar as pessoas, fazem que estas pessoas sejam ainda mais manipuladas e a tentativa de estimular que elas continuem produzindo nesta cidade. Se estas pessoas são uma peça podre, o estado as exclui e o tratamento neste estado é para que após uma lavagem cerebral as pessoas voltem a servir o estado como pessoas ainda mais escravizadas, porque elas não teriam mais direito a alguns privilégios, como um lar, entretenimento e um emprego. Pode ser até uma crítica aos estados Socialistas que querem poder total ao thx-1138-originalestado, ao mesmo tempo em que vemos que tem uma forte ligação com o atual estado Capitalista que vivemos, onde há um poder muito grande das empresas que detêm a maior parte do capital financeiro, pessoas sendo controladas e virando objeto de uma máquina parecem fazer parte de qualquer sociedade onde há autoridades.

As pessoas são tão controladas nesta sociedade, que há outras pessoas monitorando até o estresse de cada funcionário, para que ele não cometa erros e assim evitem que aconteçam ainda mais acidentes, principalmente na sessão aonde THX trabalha. Remédios ajudam as pessoas a controlarem seus sentimentos, George Lucas saca muito bem que os remédios, hoje em dia os antidepressivos, também são uma forma de controle social, principalmente os antidepressivos dado para crianças hiperativas, no filme faz com que elas estejam sempre “dopadas” e apáticas e assim não se atentem para os problemas da sociedade, por exemplo. Criando uma sociedade cada vez mais apática e deixando as pessoas com menos tempo para fazerem o que realmente gostariam, que pode ser mais lazer, mais tempo para interagir pessoalmente com aqueles do qual gosta, procurarem cultura, diversão, entretenimento, informação, ou seja, terem mais qualidade de vida, só que tanto no filme como na sociedade atual a máquina não pode parar.

screenshot-lrg-02O filme é totalmente branco, é um branco que cega, de tão branco, é muito mais difícil filmar a luz branca, porque ela reflete muita luz e isso dificulta o trabalho da direção de fotografia, mas o filme é muito bem realizado neste quesito, os atores na maior parte do tempo são apáticos em fisionomia, mesmo que eles expressem sentimentos apenas por palavras não comprometem o filme em nenhum momento, deixando a atuação irreal neste sentido, na verdade mostra bem como as pessoas “dopadas” agem, e através desta “dopagem” pode ser feita um paralelo tanto pela falta de tempo que temos em buscar informações, por perder tempo no trânsito, no trabalho, vendo televisão, comprando coisas que não precisamos, como consumindo produtos alimentícios e remédios que nos deixam cada vez mais doentes, não que o filme fale diretamente sobre isso, mas, abre um leque de possibilidades para interpretações sobre a sociedade atual, sobre como somos controlados para sermos ovelhas obedientes.

Para o estado poder controlar estas pessoas ele gasta mais do que necessário com repressão para manter as pessoas na linha, para amedrontar e punir aqueles que ac10ee09a4f12680ba46c914868e88bcquestionam o sistema e excluir aqueles que não concordam em viver segundo as regras impostas, as pessoas são absurdamente vigiadas pela polícia, que não ousa em usar violência e a justiça sempre será contra os “subversivos”. O filme é uma busca louca pela liberdade, por sair daquele lugar que não se encaixa, de poder viver segundo suas próprias escolhas e que elas não tenham influência de um estado, seja a qual regime elas estiverem submetidas.

No final alguns questionamentos ficam, como: – o que acontece quando encontramos a liberdade? O que este mundo novo e desconhecido pode nos proporcionar? Ficar sobre o controle de um governo é melhor para nós ou encontrar nosso próprio modo de construir uma sociedade é o melhor? Viver com o medo do conhecido é melhor do que viver com o medo do desconhecido? Estas e mais algumas perguntas ficam voando pela mente ao final da última cena do filme, é um final aberto a interpretações, o que vem depois que um objetivo é alcançado? Cabe a cada um refletir e interpretar as questões do filme conforme suas experiências. Um ótimo filme, mesmo com o andamento lento e o branco agressivo aos olhos.

TRAILER:

DA HIPNOSE AO…

Freud (Freud, além da alma) – 1962.
Dirigido por: John Huston.
Duração: 140 minutos.

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Freud foi um dos maiores pensadores e cientistas do século passado, por estudar a mente humana, como funciona o cérebro humano. “Freud, além da alma” fala sobre o início do seu interesse por pessoas com “histeria”, como os médicos chamavam pessoas doentes que não apresentavam nenhum sintoma físico específico, ou seja, doenças que tem sua causa principal em aspectos psicológicos.

No início do filme Freud é um assistente em um hospital, ele tenta sempre receber pacientes com “histeria”, mas o médico chefe não quer em sua ala pacientes com este tipo de doença, porque acha que as doenças psicológicas são meras frescuras, Freud é expulso do hospital por tentar receber pacientes com “histeria” e é acolhido por outro médico, Dr. Breuer, que tem pacientes que os visita em casa e também faz estudos para entender a “histeria”, assim Freud começa a trabalhar com alguns dos pacientes do Dr. Breuer.maxresdefault

O filme tem alguns flashbacks da vida de Freud e algumas lembranças são feitas através de diálogos de Freud com outros personagens, nestes momentos, vemos que ele é um judeu e foi o único da família que pode estudar medicina, foi uma aposta do seu pai, os outros irmãos não tiveram a mesma oportunidade, o que me parece que era comum no final do século 19, as famílias com muitos filhos não podiam pagar estudos para todos os filhos, então o filho mais velho, desde que fosse homem, iria estudar.

Um dos casos que Freud começa a estudar é de um rapaz que atacou o pai, com o descobrimento do por que o rapaz atacou o pai, Freud se sente chocado com a possibilidade de crueldade do ser humano e fica algum tempo sem trabalhar, tendo sonhos cheios de incógnitas e signos, sonhos que vão mostrando aos poucos o que ele esconde em sua própria mente. É recorrente esta dualidade entre a “histeria” dos pacientes e a própria “histeria” de Freud, é algo extremamente curioso que a sua pesquisa não está apenas no outro e sim nele mesmo também.

freud-pasion-secreta-1962-psicoanalisisApós a morte do seu pai, Freud descobre que tem um problema mal resolvido com seu pai e é através de sonhos que Freud aos poucos começa a descobrir a origem deste problema, ele usa dos sonhos para atingir o seu inconsciente já que não consegue usar a hipnose em si mesmo, a hipnose era um recurso usado por Dr. Breuer para atingir o inconsciente de seus pacientes e Freud segue a técnica de Dr. Breuer para que também possa atingir o inconsciente dos pacientes que está tratando, é estranho pensar que foi através da hipnose, que na sociedade atual é visto como uma magia, algo totalmente pagão e quase excluído dos meios médicos usais na sociedade ocidental.

Dr. Breuer pega um caso que vira problema para a sua vida pessoal, uma jovem, Cecily, que se apaixona por ele e começa a atrapalhar o seu casamento, assim, Dr. Breuer passa a paciente para Freud que sem poder usar a hipnose, porque Cecily não se deixa hipnotizar por Freud, tem que tentar outra maneira de acessar o inconsciente de Cecily, e é durante conversas que Freud começa a esboçar a ideia do que viria a ser a psicanálise.

Neste filme mostra como Freud cria a teoria do “complexo de Édipo” que é rejeitada por si próprio no início, antes mesmo dele chama-la assim e posteriormente é rejeitada pelo Dr. Freud-32436_1Breuer que o renega quando Freud resolve escrever um artigo que deveria ser de co-autoria do Dr. Breuer e Freud enfrenta diversos médicos ao ler seu artigo em um grande auditório na universidade de Viena e é veementemente vaiado.

Gosto do conceito deste filme porque mostra de forma sintetizada um pouco de algumas ideias de Freud, como temos medo não só do que a sociedade tem de ruim, mas o que temos dentro de nós mesmos, como o nosso inconsciente que pode trazer ideias completamente violentas e como as pessoas não querem enxergar estas ideias até hoje. Se na época que Freud apresentou o trabalho do complexo de Édipo a sociedade não aceitava que a criança foi apaixonada e tinha desejo sexual por seus pais e que isso reprimido poderia trazer problemas para a vida pessoal quando esta pessoa se tornasse adulta, até hoje, muitas pessoas não gostam de ouvir isso e não é algo falado abertamente entre as pessoas em geral. O filme também mostra como as novas ideias são sempre rejeitadas num primeiro momento, principalmente quando elas são extremamente contrárias o que as pessoas veem como verdades e tem pessoas que morrem sem aceitar novas ideias ou mudanças, é realmente difícil aceitar que há outras verdades, que a verdade absoluta não existe, é um conflito existencial constante que passamos, caso não aceitamos uma freuddverdade como absoluta e quem não aceita mudanças ou reflete sobre elas, vive num estado constante de negação e se frustra com a vida assim como aqueles que vivem na dúvida.

Gosto também do aspecto mais onírico do início dos estudos de Freud, que coloca a interpretação dos sonhos, no caso deste filme, apenas os seus como um objeto de estudo do inconsciente, porque sonhamos? O que significa isso? Muitas pessoas vivem sonhando e confabulam sobre o sentido de tudo aquilo, há até manuais hoje em dia sobre a interpretação dos sonhos e Freud fez um estudo minucioso sobre o assunto em um livro chamado “a interpretação dos sonhos” que tem duas partes, mas, isto não é visto como algo que pode solucionar problemas pessoais e ajudar a entender quem se é. O uso da hipnose é muito interessante também, porque ao meu ver a hipnose hoje é vista quase que exclusivamente como truques de mágica, explorados por programas dominicais de auditório na televisão brasileira, não se leva muito a sério o uso da hipnose para ajudar pessoas, alguns acreditam, ou tem medo, acredito que a maioria tenha medo, por não conhecer mesmo, mas, no filme, vemos que Freud usa a hipnose como ferramenta para outras descobertas e que apesar de naquela época já haver muito preconceito contra a hipnose por não ser uma ciência exata e não pertencer aos preceitos intelectuais da medicina, o seu uso é visto como absurdo e ultrapassado.

Diante de tantas descobertas científicas do campo da psicologia ainda temos em paralelo, a vida de Freud, seu relacionamento com sua já idosa e conselheira mãe, o relacionamento com sua esposa, que passa muito tempo em casa e quase não tem tempo de aproveitar a presença do marido em casa, mas que lhe apoia e o incentiva mesmo com as fofocas sobre a vida pessoal e profissional de Freud não serem muito boas para a vida em comunidade. Os traumas de Freud também são expostos mostrando que aqueles que estudam e podem encontrar o problemas psicológicos de outra pessoa, pode não ter encontrado o próprio problema, que ninguém está livre de entender completamente o que se passa no inconsciente, nem mesmo no seu próprio.

Freud, secret passion - Freud de espaldas ante su auditorioO filme é feito totalmente em preto e branco, a direção de fotografia do filme segue o padrão dos filmes da época, com um pouco mais de ousadia experimental quando mostra os sonhos e delírios dos personagens, é muito bonita, mas se você tem curiosidade sobre o assunto abordado no filme não prestará muita atenção aos aspectos técnicos, os atores conseguem levar o espectador para o enredo do filme com muita facilidade, com atuações muito impressionantes, digo impressionante, porque, ele cumpre o papel de contar a história, você quase não percebe a atuação como o forte do filme, os atores não estão se destacando, eles estão conseguindo ser os personagens, isto é fruto de uma direção consistente, apoiada por uma parte técnica perfeita. O filme atinge perfeitamente o seu objetivo, não é inovador em sua estética, mas é um filme muito bem feito, com uma preocupação gigantesca em torna-lo completamente realista a uma história real.

TRAILER:

UGRA THE KARMA – DOCUMENTÁRIO

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Título: Ugra The Karma.

Diretor: Paulo Oliveira.

Duração: 73 minutos.

Áudio: Português-Brasil.

Legenda: não tem.

Ano: 2012.

 

Sinopse: “Imagens e reflexões sobre o 1º Ugra Zine Fest, evento pioneiro que ocorreu em dois dias na cidade de São Paulo em 2011, realizado pela Ugra Press para discutir e difundir o fanzine e publicações independentes no Brasil”.

 

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