EXCLUÍDOS E AGREDIDOS (ou o VOYEURISMO DOENTIO).

Titicut Follies (Titicut Follies) – 1967.
Dirigido por: Frederick Wiseman.
Duração: 84 minutos.

TiticutFolliesPoster

Acredito que haja alguns seguimentos de filme documentário, tem o documentário investigativo/jornalístico, tem o documentário com entrevistas, tem o documentário que é a realidade filmada e montada, provavelmente o mais realista dos documentários e também há a possibilidade de fazer uma mistura de todos estes modos de fazer um filme documental. O caso de Titicut Follies pode ser enquadrado como documentário realista. ATENÇÃO: Estas definições e visões sobre documentários foram pensadas por mim e não segue nenhum estudo acadêmico sobre o assunto, você está livre para discordar delas.

titicut follies PDVD_011Titicut Follies foi filmado em uma prisão para presos com problemas psiquiátricos no estado de Massachussetts nos EUA, o documentário mostra de uma maneira invasiva o cotidiano dos internos, dos funcionários carcerários, dos médicos e da diretoria e dia-a-dia do hospital.

A câmera quase sempre fica sobre um personagem e ele vai interagindo com as pessoas ao seu redor, por exemplo, temos uma pessoa que faz um discurso comunista enquanto um ou outro começa a rebater o discurso, algumas pessoas aplaudem, outras gritam. Tem um homem que é músico, um canta uma canção, outro que diz não estar louco e que ele precisa voltar para a prisão comum que ali não é seu lugar, tem pessoas que não querem fazer a higiene pessoal, outros não querem comer, há sempre estes personagens mergulhados em sua insanidade, alguns parecem até atuar para a câmera em alguns momentos, mas a maioria parece não se importar com a presença da câmera. É uma câmera investigativa, tentando descobrir as reações tf_-_man_in_cell.jpg_largedaquelas pessoas, em muitos momentos chega a ser até constrangedor ver pessoas peladas, agredindo a si mesmas, tendo colapsos, mas, a curiosidade em conhecer o ser humano, de ver como essas pessoas vivem, é maior e isso prende a atenção do espectador, é quase parecido com ver imagens de acidentes ou violência, sabemos que são coisas ruins, mas algo faz com que nossos olhos se abram para aquela realidade extrema, onde pessoas perdem seus pudores e medos e se expõem.

É interessante ver o relacionamento dos funcionários do hospital com os internos, na maioria dos casos, talvez por estarem cientes da presença da câmera, os funcionários se mantêm calmos e tentam convencer os internos a fazerem o que eles estão pedindo gavage2através de conversas, ou a tentativa de uma conversa, já que alguns podem apenas se comunicar de outra maneira e também não cederem à autoridade dos funcionários, ao mesmo tempo eles tratam os internos como pessoas inferiores, não é que eles pensam que são coitados, mas inferiores mesmo, como se não fossem humanos. Em alguns momentos, quando eles necessitam usar a força, eles não hesitam em pegar os internos e prendê-los para tomarem banho, fazer a barba, arrumarem suas celas. Tem uma cena que impressiona bastante que é quando um médico tem que alimentar um dos internos com sonda, e é mostrado todo o processo do médico enfiando um cano, parece algo como uma “tripa de mico” e o médico não têm nem vaselina para colocar aquele cano no nariz do paciente e podemos assistir a todo o processo, de alimentação por sonda em uma situação no mínimo anti-higiênica e agoniante.

titicut_1_fullA relação dos médicos com os internos já são um pouco mais tranquilas, apesar deles ouvirem os internos, parecem já ter certeza do diagnóstico que realizaram, não há muita investigação do que está ocorrendo com a mente deles e sim em tentar mantê-los o mais calmo possível, para que não voltem a serem violentos, na minha interpretação do filme, os internos não são, na sua maioria condenados de crimes hediondos, talvez hajam até mesmo presos políticos e de pequenos crimes que estão ali apenas para serem afastados da sociedade, em nenhum momento parece que algum deles está ali para ser recuperado, tanto que um dos internos com bons argumentos em uma reunião com diversos médicos tenta convencê-los de que não é mais louco, mas, os médicos não se convencem de que ele não está louco, mesmo com toda a razão e argumentos que apresenta o interno, é algo mais repressivo mesmo este hospital, não é para curá-los e sim encarcera-los com a desculpa de que estão tratando.

Titicut Follies foi o primeiro filme dos EUA censurado sem que houvesse cenas de sexo ou violência, apesar de que muitas das imagens do filme podem ser interpretadas como violentas, mostrando a realidade e de certa forma denunciando os abusos do hospital e invadindo a privacidade daqueles internos ali presentes, mas da mesma forma o diretor do filme Frederick Wiseman conseguiu autorização para filmar e teve acesso a todas as alas e locais do hospital. O que não vi muito neste filme e que costumava ver muito em outras ficções sobre hospitais psiquiátricos é o uso de medicamentos, não me lembro de ter visto o uso de medicamentos no filme. Outro dos aspectos interessantes é o número tf_-_man_in_cell.jpg_largegrande de talentos musicais que aparecem no filme, não sei se foi uma escolha do diretor em mostrar mais estas pessoas ou se havia bastante delas no hospital, se for pensar que muitas vezes, se prendiam bêbados, drogados, outsiders em geral, não é de se estranhar que houvesse muito músicos, já que os músicos, boa parte dos que não fazem sucesso, vivem em bares e locais com mais violência.

Gosto muito do filme, principalmente por poder ver de perto a situação pela qual passam estes internos, estas pessoas que foram excluídas da sociedade e que vivem em situações de extrema pobreza e além de tudo isso são consideradas e julgadas incapazes de viver em sociedade. As cenas incomodam, elas são brutalmente verdadeiras, elas causam sensações ruins, porque estas situações aconteciam e ainda acontecem, até onde isso é mais segurança para a sociedade e até onde isso é sadismo? Sentimento de superioridade e poder? É deprimente ver um filme como este, é parte da realidade jogada com peso em cima de você, essa é a sensação que tive durante o filme e depois que acabou. Um filme mais que indicado para aqueles que gostam de filmes que te causam sensações, que te fazem aprender, a questionar, a pensar, filmes que mudam sua visão de mundo e te dá uma vontade louca de sair discutindo os assuntos abordados no filme com outras pessoas, um filme que evolui as pessoas, que no mínimo vai fazer você parar e refletir durante um instante.

TRECHO DO FILME:

MONTAGEM QUE DESTRÓI.

4F – nem esquecimento, nem perdão (4F, ni oblit, ni perdó) – 2013.
Direção: 15Mbcn.tv
Duração: 120 minutos.

cartell4F – NEM ESQUECIMENTO, NEM PERDÃO é o tipo de documentário que mostra como a injustiça praticada pelo maior representante do governo, a polícia, pode fazer para defender os próprios interesses e manter a pose de poder, o filme é sobre um dos casos de montagem policial mais absurdos hoje em dia na Espanha.

Durante uma operação policial para acabar com uma festa que estava acontecendo em um prédio abandonado da prefeitura de Barcelona as pessoas começam a jogar coisas do prédio para afastarem os policiais, um destes objetos é um vaso de plantas que cai em cima da cabeça de um policial, o deixando incapacitado. A polícia então começa a procurar um culpado e prende pessoas que poderiam ser suspeitas de cometer um crime, como roqueiros, pessoas com corte de cabelo e vestimentas diferentes, gente que é criminalizada pelo que veste e não pelo que é, a polícia então prende pessoas que nem estavam na festa, mas, estavam algumas quadras dali e os incriminam pelo crime, entre os presos alguns são estrangeiros que continuam presos e os espanhóis continuam respondendo o processo em liberdade.

Este filme é realizado por um coletivo audiovisual chamado 15mbcn.tv, um coletivo de mídia independente, criando e produzindo sem ter que recorrer aos modos tradicionais e mercadológicos de se fazer cinema, é interessante porque se deixa de lado o ego de profissionais de cinema e também não se cria ídolos e sim obras, o que é mais interessante do que vender um filme por quem o realizou, “vende-se” o filme pela história retratada, também é um filme independente, sem incentivos fiscais, dinheiro governamental e também dinheiro privado, é um filme independente.

Como retratado no filme a polícia de Barcelona incrimina pessoas por um de conduta errada da própria polícia. Um dos pontos interessantes de se conhecer esta história é que 4ff4a polícia da cidade de Barcelona não é uma polícia militar, é uma polícia desmilitarizada, só que, os policiais tem as mesmas atitudes de militares, continuam sendo a cara violenta do estado, infelizmente é a única que muitos tem a oportunidade de enxergar. Os policiais, mesmo quando são estrangeiros, mantem a ideologia fascista e por incrível que possa parecer, até os policias estrangeiros são xenofóbicos. A polícia continua enxergando aqueles que não se parecem com obedientes trabalhadores apáticos como marginais e em qualquer situação de não saber a quem culpar, vão tentar culpar aqueles que vivem, pensam e se vestem à margem, mesmo que não sejam pessoas que estejam quebrando a lei, tentando revoltas, qualquer pessoa que não represente o padrão social vigente pode ser enquadrada e sofrer abusos autoritários.

As pessoas que foram incriminadas neste caso, que ficou conhecido como 4F, vivem em uma completa incerteza, porque em alguns momentos estão presas, em outros ficam em prisão domiciliar e a cada julgamento os acusadores vão se complicando cada vez mais por apresentar falsas provas, mas que são aceitas porque os acusados não tem um bom álibi e a maioria deles são estrangeiros, pobres e considerados marginais, eles não tem condições de pagarem bons advogados que possam trabalhar com mais afinco no processo deles. Patricia Heras, uma das mulheres acusadas em todo esse processo, cansada das prisões, julgamentos e toda a violência física e psicológica que todo esse processo está lhe causando, comete o suicídio e o caso começa a ter um pouco mais de exposição nos meios de comunicação de massa e grupos de apoio ao caso criam um cinema chamado Patrícia Heras em sua homenagem.

Via-Laietana-Cinema-Patricia-Heras_EDIIMA20130608_0341_5No geral o filme mostra como o sistema e as autoridades usam o conhecimento e o poder ao seu favor, a justiça não é justa, a justiça só é justa com aqueles que podem ter acesso ao conhecimento e ao poder. Uma das principais reflexões que me suscitou foi a de que cria-se um tipo básico de conduta pessoal, de comportamento social e até de apresentação visual que as pessoas tem que seguir, qualquer desvio deste padrão é visto como algo fora da lei, dos padrões e quando não é visto como ameaça a esse padrão, as pessoas são tidas como loucas e quando houver uma oportunidade essas pessoas serão excluídas, seja através de prisões, como o cárcere ou até prisões sociais, como a pessoa não ter oportunidade de entrar em determinado local ou até mesmo não conseguir um emprego em determinada empresa, etc. É descriminar o diferente só por ele ser diferente, e talvez nem tão diferente no pensar, mas, apenas no vestir; e tudo isso desencadeia uma série de preconceitos que chega em todas as camadas sociais, desde a própria população, como até mesmo os policiais que também fazem parte da população, até pessoas que legislam as leis e as que julgam e determinam como devem ser cumpridas estas leis, acredito que tudo isso venham da cultura de repressão do estado, de calar aqueles que não participem do “status quo”.

4FF2O filme poderia ser dividido em três partes, a primeira é a apresentação da história, contando o que foi o caso e tentando dar o máximo de detalhes dos personagens do caso 4F, uma segunda parte seria mais uma parte investigativa, tentando derrubar todos os argumentos da acusação e mostrando a hipocrisia da polícia e seus erros que são apoiados pelo governo de Barcelona e uma terceira parte é o desdobramento do caso, quais foram os resultados até o momento, já que ainda não se tem o veredito sobre o caso que está em vigor desde 2006 e como diz o site do próprio documentário o principal acusado está preso desde 2012.

O filme é muito bem produzido, imagens da cidade de Barcelona, imagens conseguidas da situação da festa, provavelmente feita com celulares e entrevistas feitas com alguns dos acusados e também com advogados e ativistas do caso 4F, tem uma montagem bem dinâmica, bem parecida com o que vem sendo feito com a maioria dos documentários ativistas que tem aparecidos nos últimos anos, uma linguagem mais acessível à quem está acostumado com a linguagem televisiva, principalmente na edição. 4FF3As entrevistas feitas com os acusados são feitas em salas vazias o que causa uma certa cumplicidade através da estética, porque o lugar além de parecer inóspito à quem está sendo entrevistado parece que toda aquela situação que viveram lhes trouxeram um vazio existencial e hoje eles também não tem muito em que se apoiar, essa percepção pode ir mudando para quem está assistindo após ouvir um pouco da história de cada um.

Após assistir este filme você provavelmente irá sentir um sentimento de injustiça e revolta, porque temos que ter pessoas sendo sacrificadas para manter a credibilidade de uma instituição, é a pergunta que respondo, mas não consigo concordar com tal atitude.

OBSERVAÇÕES:

- Pude assistir este filme através da prévia do III festival do filme punk e anarquista de São Paulo que acontecerá em Dezembro de 2014 no Tendal da lapa, quem quiser saber mais sobre o festival visite: http://anarcopunk.org/festival/?page_id=187

- O cartaz desta postagem não é oficial do filme, é de uma exibição do filme com presença de alguém que colaborou na realização.

- O site do filme tem mais informações sobre o caso: http://documental4f.wordpress.com/

TRAILER:

QUALQUER AUTORIDADE REPRIME

THX 1138 (THX 1138) – 1971.
Dirigido por: George Lucas.
Duração: 86 minutos.

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Os filmes de George Lucas fizeram parte da minha infância e adolescência, acredito que da maioria das pessoas que fazem parte da minha geração, com a saga Star Wars e Indiana Jones. Fazia tempo que estava com vontade de assistir este primeiro experimento de ficção-científica do George Lucas.

THX 1138 é o nome/identificação de uma pessoa de um futuro ambientado quase que completamente em ambientes fechados e exageradamente brancos. THX trabalha em uma fábrica que usa produtos nucleares e ele é apenas mais um em meio a tantas THXLUHpessoas que fazem apenas uma parte de um processo que faz um produto, não é especificado qual o produto. Em seu lar THX divide com uma companheira LUH, que também trabalha na mesma empresa que ele, só que ela parece ter um trabalho de supervisão, um cargo menos perigoso, mas, com mais responsabilidades e submetida ao tédio e ordens constantes ditadas por uma voz através de alto falantes da mesma maneira. O relacionamento de THX e LUH começa a mudar quando THX cada vez mais deprimido começa a não aceitar todas as regras da sociedade em que está vivendo e é com o amor de LUH, que até então parecia ser algo frio e robótico, começa a incentivar THX a mudar, a questionar, a não aceitar tudo aquilo que lhes é imposto. THX e LUH passam por diversos conflitos até a prisão e fuga de THX que o leva para outra fase de sua vida, um novo início.

thx_1138_004Um dos aspectos curiosos do filme, que permeia muitos filmes de ficção científica, é que no futuro os estados se tornar-se totalitários e as pessoas vivem conforme objetos de uma gigantesca fábrica, o que nos lembra a atual sociedade, onde, quando uma pessoa já não serve para produzir e consumir, ela pode ser substituída, sempre há outra pessoa para ser explorada no lugar de uma que não serve mais, que não concorda mais com o que está acontecendo.

No filme o estado chega a ser até a religião das pessoas, que através de “cabines de conversa” onde as respostas de “deus” não passam de gravações para animar as pessoas, fazem que estas pessoas sejam ainda mais manipuladas e a tentativa de estimular que elas continuem produzindo nesta cidade. Se estas pessoas são uma peça podre, o estado as exclui e o tratamento neste estado é para que após uma lavagem cerebral as pessoas voltem a servir o estado como pessoas ainda mais escravizadas, porque elas não teriam mais direito a alguns privilégios, como um lar, entretenimento e um emprego. Pode ser até uma crítica aos estados Socialistas que querem poder total ao thx-1138-originalestado, ao mesmo tempo em que vemos que tem uma forte ligação com o atual estado Capitalista que vivemos, onde há um poder muito grande das empresas que detêm a maior parte do capital financeiro, pessoas sendo controladas e virando objeto de uma máquina parecem fazer parte de qualquer sociedade onde há autoridades.

As pessoas são tão controladas nesta sociedade, que há outras pessoas monitorando até o estresse de cada funcionário, para que ele não cometa erros e assim evitem que aconteçam ainda mais acidentes, principalmente na sessão aonde THX trabalha. Remédios ajudam as pessoas a controlarem seus sentimentos, George Lucas saca muito bem que os remédios, hoje em dia os antidepressivos, também são uma forma de controle social, principalmente os antidepressivos dado para crianças hiperativas, no filme faz com que elas estejam sempre “dopadas” e apáticas e assim não se atentem para os problemas da sociedade, por exemplo. Criando uma sociedade cada vez mais apática e deixando as pessoas com menos tempo para fazerem o que realmente gostariam, que pode ser mais lazer, mais tempo para interagir pessoalmente com aqueles do qual gosta, procurarem cultura, diversão, entretenimento, informação, ou seja, terem mais qualidade de vida, só que tanto no filme como na sociedade atual a máquina não pode parar.

screenshot-lrg-02O filme é totalmente branco, é um branco que cega, de tão branco, é muito mais difícil filmar a luz branca, porque ela reflete muita luz e isso dificulta o trabalho da direção de fotografia, mas o filme é muito bem realizado neste quesito, os atores na maior parte do tempo são apáticos em fisionomia, mesmo que eles expressem sentimentos apenas por palavras não comprometem o filme em nenhum momento, deixando a atuação irreal neste sentido, na verdade mostra bem como as pessoas “dopadas” agem, e através desta “dopagem” pode ser feita um paralelo tanto pela falta de tempo que temos em buscar informações, por perder tempo no trânsito, no trabalho, vendo televisão, comprando coisas que não precisamos, como consumindo produtos alimentícios e remédios que nos deixam cada vez mais doentes, não que o filme fale diretamente sobre isso, mas, abre um leque de possibilidades para interpretações sobre a sociedade atual, sobre como somos controlados para sermos ovelhas obedientes.

Para o estado poder controlar estas pessoas ele gasta mais do que necessário com repressão para manter as pessoas na linha, para amedrontar e punir aqueles que ac10ee09a4f12680ba46c914868e88bcquestionam o sistema e excluir aqueles que não concordam em viver segundo as regras impostas, as pessoas são absurdamente vigiadas pela polícia, que não ousa em usar violência e a justiça sempre será contra os “subversivos”. O filme é uma busca louca pela liberdade, por sair daquele lugar que não se encaixa, de poder viver segundo suas próprias escolhas e que elas não tenham influência de um estado, seja a qual regime elas estiverem submetidas.

No final alguns questionamentos ficam, como: – o que acontece quando encontramos a liberdade? O que este mundo novo e desconhecido pode nos proporcionar? Ficar sobre o controle de um governo é melhor para nós ou encontrar nosso próprio modo de construir uma sociedade é o melhor? Viver com o medo do conhecido é melhor do que viver com o medo do desconhecido? Estas e mais algumas perguntas ficam voando pela mente ao final da última cena do filme, é um final aberto a interpretações, o que vem depois que um objetivo é alcançado? Cabe a cada um refletir e interpretar as questões do filme conforme suas experiências. Um ótimo filme, mesmo com o andamento lento e o branco agressivo aos olhos.

TRAILER:

DA HIPNOSE AO…

Freud (Freud, além da alma) – 1962.
Dirigido por: John Huston.
Duração: 140 minutos.

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Freud foi um dos maiores pensadores e cientistas do século passado, por estudar a mente humana, como funciona o cérebro humano. “Freud, além da alma” fala sobre o início do seu interesse por pessoas com “histeria”, como os médicos chamavam pessoas doentes que não apresentavam nenhum sintoma físico específico, ou seja, doenças que tem sua causa principal em aspectos psicológicos.

No início do filme Freud é um assistente em um hospital, ele tenta sempre receber pacientes com “histeria”, mas o médico chefe não quer em sua ala pacientes com este tipo de doença, porque acha que as doenças psicológicas são meras frescuras, Freud é expulso do hospital por tentar receber pacientes com “histeria” e é acolhido por outro médico, Dr. Breuer, que tem pacientes que os visita em casa e também faz estudos para entender a “histeria”, assim Freud começa a trabalhar com alguns dos pacientes do Dr. Breuer.maxresdefault

O filme tem alguns flashbacks da vida de Freud e algumas lembranças são feitas através de diálogos de Freud com outros personagens, nestes momentos, vemos que ele é um judeu e foi o único da família que pode estudar medicina, foi uma aposta do seu pai, os outros irmãos não tiveram a mesma oportunidade, o que me parece que era comum no final do século 19, as famílias com muitos filhos não podiam pagar estudos para todos os filhos, então o filho mais velho, desde que fosse homem, iria estudar.

Um dos casos que Freud começa a estudar é de um rapaz que atacou o pai, com o descobrimento do por que o rapaz atacou o pai, Freud se sente chocado com a possibilidade de crueldade do ser humano e fica algum tempo sem trabalhar, tendo sonhos cheios de incógnitas e signos, sonhos que vão mostrando aos poucos o que ele esconde em sua própria mente. É recorrente esta dualidade entre a “histeria” dos pacientes e a própria “histeria” de Freud, é algo extremamente curioso que a sua pesquisa não está apenas no outro e sim nele mesmo também.

freud-pasion-secreta-1962-psicoanalisisApós a morte do seu pai, Freud descobre que tem um problema mal resolvido com seu pai e é através de sonhos que Freud aos poucos começa a descobrir a origem deste problema, ele usa dos sonhos para atingir o seu inconsciente já que não consegue usar a hipnose em si mesmo, a hipnose era um recurso usado por Dr. Breuer para atingir o inconsciente de seus pacientes e Freud segue a técnica de Dr. Breuer para que também possa atingir o inconsciente dos pacientes que está tratando, é estranho pensar que foi através da hipnose, que na sociedade atual é visto como uma magia, algo totalmente pagão e quase excluído dos meios médicos usais na sociedade ocidental.

Dr. Breuer pega um caso que vira problema para a sua vida pessoal, uma jovem, Cecily, que se apaixona por ele e começa a atrapalhar o seu casamento, assim, Dr. Breuer passa a paciente para Freud que sem poder usar a hipnose, porque Cecily não se deixa hipnotizar por Freud, tem que tentar outra maneira de acessar o inconsciente de Cecily, e é durante conversas que Freud começa a esboçar a ideia do que viria a ser a psicanálise.

Neste filme mostra como Freud cria a teoria do “complexo de Édipo” que é rejeitada por si próprio no início, antes mesmo dele chama-la assim e posteriormente é rejeitada pelo Dr. Freud-32436_1Breuer que o renega quando Freud resolve escrever um artigo que deveria ser de co-autoria do Dr. Breuer e Freud enfrenta diversos médicos ao ler seu artigo em um grande auditório na universidade de Viena e é veementemente vaiado.

Gosto do conceito deste filme porque mostra de forma sintetizada um pouco de algumas ideias de Freud, como temos medo não só do que a sociedade tem de ruim, mas o que temos dentro de nós mesmos, como o nosso inconsciente que pode trazer ideias completamente violentas e como as pessoas não querem enxergar estas ideias até hoje. Se na época que Freud apresentou o trabalho do complexo de Édipo a sociedade não aceitava que a criança foi apaixonada e tinha desejo sexual por seus pais e que isso reprimido poderia trazer problemas para a vida pessoal quando esta pessoa se tornasse adulta, até hoje, muitas pessoas não gostam de ouvir isso e não é algo falado abertamente entre as pessoas em geral. O filme também mostra como as novas ideias são sempre rejeitadas num primeiro momento, principalmente quando elas são extremamente contrárias o que as pessoas veem como verdades e tem pessoas que morrem sem aceitar novas ideias ou mudanças, é realmente difícil aceitar que há outras verdades, que a verdade absoluta não existe, é um conflito existencial constante que passamos, caso não aceitamos uma freuddverdade como absoluta e quem não aceita mudanças ou reflete sobre elas, vive num estado constante de negação e se frustra com a vida assim como aqueles que vivem na dúvida.

Gosto também do aspecto mais onírico do início dos estudos de Freud, que coloca a interpretação dos sonhos, no caso deste filme, apenas os seus como um objeto de estudo do inconsciente, porque sonhamos? O que significa isso? Muitas pessoas vivem sonhando e confabulam sobre o sentido de tudo aquilo, há até manuais hoje em dia sobre a interpretação dos sonhos e Freud fez um estudo minucioso sobre o assunto em um livro chamado “a interpretação dos sonhos” que tem duas partes, mas, isto não é visto como algo que pode solucionar problemas pessoais e ajudar a entender quem se é. O uso da hipnose é muito interessante também, porque ao meu ver a hipnose hoje é vista quase que exclusivamente como truques de mágica, explorados por programas dominicais de auditório na televisão brasileira, não se leva muito a sério o uso da hipnose para ajudar pessoas, alguns acreditam, ou tem medo, acredito que a maioria tenha medo, por não conhecer mesmo, mas, no filme, vemos que Freud usa a hipnose como ferramenta para outras descobertas e que apesar de naquela época já haver muito preconceito contra a hipnose por não ser uma ciência exata e não pertencer aos preceitos intelectuais da medicina, o seu uso é visto como absurdo e ultrapassado.

Diante de tantas descobertas científicas do campo da psicologia ainda temos em paralelo, a vida de Freud, seu relacionamento com sua já idosa e conselheira mãe, o relacionamento com sua esposa, que passa muito tempo em casa e quase não tem tempo de aproveitar a presença do marido em casa, mas que lhe apoia e o incentiva mesmo com as fofocas sobre a vida pessoal e profissional de Freud não serem muito boas para a vida em comunidade. Os traumas de Freud também são expostos mostrando que aqueles que estudam e podem encontrar o problemas psicológicos de outra pessoa, pode não ter encontrado o próprio problema, que ninguém está livre de entender completamente o que se passa no inconsciente, nem mesmo no seu próprio.

Freud, secret passion - Freud de espaldas ante su auditorioO filme é feito totalmente em preto e branco, a direção de fotografia do filme segue o padrão dos filmes da época, com um pouco mais de ousadia experimental quando mostra os sonhos e delírios dos personagens, é muito bonita, mas se você tem curiosidade sobre o assunto abordado no filme não prestará muita atenção aos aspectos técnicos, os atores conseguem levar o espectador para o enredo do filme com muita facilidade, com atuações muito impressionantes, digo impressionante, porque, ele cumpre o papel de contar a história, você quase não percebe a atuação como o forte do filme, os atores não estão se destacando, eles estão conseguindo ser os personagens, isto é fruto de uma direção consistente, apoiada por uma parte técnica perfeita. O filme atinge perfeitamente o seu objetivo, não é inovador em sua estética, mas é um filme muito bem feito, com uma preocupação gigantesca em torna-lo completamente realista a uma história real.

TRAILER:

UGRA THE KARMA – DOCUMENTÁRIO

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Título: Ugra The Karma.

Diretor: Paulo Oliveira.

Duração: 73 minutos.

Áudio: Português-Brasil.

Legenda: não tem.

Ano: 2012.

 

Sinopse: “Imagens e reflexões sobre o 1º Ugra Zine Fest, evento pioneiro que ocorreu em dois dias na cidade de São Paulo em 2011, realizado pela Ugra Press para discutir e difundir o fanzine e publicações independentes no Brasil”.

 

Torrent (Mega) – DOWNLOAD

Consumindo para o declínio.

A Grande Noite (Le Gran Soir) – 2012.
Direção: Benoit Délépine e Gustave Kervern.
Duração: 92 minutos.

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Filmes que tem personagens punks sempre me chamam a atenção, por isso, resolvi assistir “A grande noite”, um dos personagens é um punk-cachorro, como ele mesmo se rotula, que é um punk que mora na rua e vive pedindo, contrapondo as amarras da sociedade capitalista europeia atual. Este é um filme franco-belgo que contém um ator Albert Dupontel, como o irmão trabalhador do punk, Dupontel que fez o inesquecível filme “Irreversível” de Gaspar Noe.

O punk que gosta de ser chamado de NOT, ele renega o seu nome de registro, ele tem soiraté o nome NOT tatuado na testa, ele é um morador em situação de rua que vive com seu cachorro, dormindo em praças e parques e pedindo e ou roubando comida e cervejas de clientes em um estacionamento de um hipermercado e também dentro do próprio mercado, as vezes por troca de favores, como carregar a compra das pessoas ou simplesmente enfiando a mão no carrinho de compras e pegando aquilo que deseja, em geral as pessoas, mesmo que revoltadas, não fazem nada além de algum resmungo ou reclamação. Os pais de NOT tem um restaurante que serve pratos feitos à base de batatas, seu pai parece ser um simples comerciante e a sua mãe parece ter alguns distúrbios mentais, o irmão de NOT, Jean-Pierre, é um vendedor de uma loja de colchões, ele tem uma esposa e uma pequena filha, NOT, Jean-Pierre e seus pais estão comemorando o aniversário da matriarca da família e conversando sobre diversas coisas em uma verborragia quase enlouquecedora dos dois irmãos, se não fosse pela tranquilidade do pai que tenta ajustar algo em seu telefone celular que ele não sabe mexer screenshot_00010e a mãe que fuma na cozinha do restaurante tranquilamente, o caos estaria completamente instalado nas conversas familiares.

Enquanto NOT vive em sua preocupação de arrumar comida para si e também para seu cachorro, Jean-Pierre vive uma crise em seu trabalho, seu chefe cobrando que ele atinja a meta do mês que ele não atingiu e ele começa a pirar, bebe e “bagunça” a loja, seu chefe grava tudo com seu celular, assim Jean-Pierre se vê sem emprego e sua esposa também não quer um homem desempregado e o abandona, Jean-Pierre se junta ao seu irmão NOT em uma jornada de andarilho punk.

20496542.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxNOT e Jean-Pierre que agora se chama DEAD e tem uma tatuagem caseira na testa igual ao irmão, começam a pedir pelas ruas, tomam banho em fontes de água em locais públicos, até que são expulsos da cidade, o pai diz que eles não são filhos dele e da esposa. Então, eles partem para uma zona rural dirigindo uma empilhadeira.

Há diversas cenas interessantes no filme, uma delas é quando eles encontram um camponês que está prestes a se matar enforcando-se e eles convencem o cara a não fazer aquilo daquela maneira que aquilo não é a solução, que não é nada criativo o cara morrer enforcado em uma viga, em um celeiro, mas o camponês acaba colocando fim em sua vida de um modo um pouco mais criativo, só que NOT e DEAD ficam achando que salvaram a vida do cara; outra cena que vale a pena citar é quando o segurança do hipermercado vai falar com o pai de NOT e DEAD que um dos filhos vivendo na rua e “perturbando a ordem” dava para aguentar, mas dois é um problema, o interessante é que o diálogo acontece de um modo estranho, não é um diálogo direto com palavras duras é como se o segurança não quisesse ir até lá falar aquilo para um velho amigo e que o pai deles se sentisse um pouco constrangido e entendesse que ele era responsável em resolver “o problema”, é um diálogo amigável e triste; uma das cenas que marcam é le grand soir 2012 25quando os dois querem recrutar pessoas para uma revolução, algumas pessoas até ouvem o que eles estão falando, mas, ouvindo-os como loucos, apenas para não contrariá-los e ninguém aparece na reunião que eles estavam planejando.

Há frases que ficam na cabeça por serem engraçadas, como quando NOT está no mercado e uma mulher passa com um carrinho de compras cheio de coisas orgânicas e ele diz para ela depois que ela passa ignorando seu pedido de ajuda com comida: – tudo orgânico hein? Vai fazer quimioterapia com beterraba? Tem outra cena onde NOT está dormindo em uma casinha de criança e o segurança do local pergunta o que ele está fazendo e pergunta é sobre a raça do cachorro, NOT responde que a raça dele é punk, o segurança pergunta se ele é inglês, porque se for, espera que ele não faça suas necessidades dentro da casinha, para não precisar limpar no dia seguinte.

Apesar de caricatos em alguns momentos, os personagens são muito bem construídos, não são apenas aquilo que eles mostram com suas roupas e diálogos, são em detalhes de suas ações que vemos o que há na formação de cada um deles, mostrando que a sociedade não é apenas pessoas que trabalham e tem bons empregos e ternos que podem ter vidas boas, que há alternativas em se realizar e sentir-se bem sem estar consumindo, mesmo que de certa forma eles estejam indiretamente consumindo, não são escravos de um modelo que o objetivo final é o consumo. As atuações são muito boas, muito convincentes, hoje em dia o cinema parece ter encontrado diversas maneiras de fazer com que os filmes passem credibilidade em seus personagens através principalmente das atuações e não com truques de câmera, de som, de closes e trilhas le-grand-soir-2-480x250sonoras que ajudam a criar um clima, o ator parece estar se tornando o foco da representação da história, o que valoriza muito mais o trabalho humano em cena.

NOT vive tendo sonhos que está num show punk, onde ele sobe no palco e dá um “mosh”(…é quando a pessoa pula do palco e cai sobre as pessoas que assistem o show e “nada” entre elas), também canta junto com a banda que está se apresentando, em um dos “mosh” ele vai parar fora do local que está acontecendo o show, dentro de uma lixeira enorme, onde ele acorda num outro dia. Quando o seu irmão junta-se a ele, ele até sonha que o irmão está junto com ele, os dois parecem estar sonhando juntos neste momento, como se fosse uma cumplicidade entre os dois, estes sonhos remetem ao relaxamento, a hora de diversão e de extravasar os estresses diários.

O filme ganha ao mostrar uma cidade do interior da Europa onde há poucas pessoas e grandes redes de fast-food, móveis, materiais de construção e objetos que não precisamos a todo o momento comprar mais, trocar por produtos novos, um mundo de hipermercados e shopping centers, onde há poucas pessoas frequentando o pequeno comércio que é esmagado pelas grandes empresas e há muitas pessoas desempregadas e trabalhando em “sub-empregos”, onde os graduados já não arrumam empregos e o preço do imóvel absurdo faz com que pessoas morem nas ruas enquanto uma minoria tem alguns privilégios, onde cada vez mais uma pequena elite se forma através do capitalismo e outros se sentem da elite ao poderem consumir o que é mais caro, uma visão sobre a crise européia.

“A grande noite” pode ser um filme um pouco lento, porque ele tem longos planos-sequência, planos abertos e poucos diálogos, acredito que esta escolha seja para mostrar um pouco o que são os personagens por dentro, o que eles estão sentindo, que há vazios de sentido em suas vidas, que estão cansados de trabalhar e consumir, mas, a busca por mais dinheiro é a única alternativa que a publicidade e os meios de comunicação dizem existir e serem realmente prazerosos, estão procurando um lugar para seus pensamentos em meio aquela imensidão de grandes empresas e placas e outdoors com propagandas para eles consumirem cada vez mais, até eles não conseguirem pagar mais por aquilo e se afundarem em dívidas e depressões, mas também parece ser uma tendência cada vez maior nos filmes de hoje em dia, estes longos planos e silêncios, revivendo filmes de cineastas como Tarkovski, Antonioni e Bergman. É uma forma interessante de se contar estórias, principalmente porque é também uma forma de antagonismo do cinema comercial hollywoodiano, que domina as salas comerciais de cinema em países que não tem tradição em fazer cinema para entretenimento, cinema para o grande público, um cinema cheio de cortes e barulhos de tiros e efeitos especiais, talvez esta contemplação lenta, onde se aproveita mais as paisagens e os personagens seja uma boa forma de aproximar a estética de um filme ao existencialismo e também confrontar estéticas prontas, de sucesso, que cada vez mais prima por estórias de super-heróis, vindos dos quadrinhos, muitas vezes, apenas para ajudar a fixar a imagem de que os Estados Unidos da América está sempre em prontidão paraa salvar e ajudar as pessoas do seu país e dos aliados. A grande noite é um filme gostoso de assistir, é divertido e faz pensar.

 

TRAILER:

TERROR FEITO PELA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA.

Demência (Yeongasi) – 2012.
Dirigido por: Jeong-Woo Park.
Duração: 109 minutos.

2012 - Deranged (Poster 2)

Confesso que adquiri este filme achando que era outro, porque o filme em inglês tem o título de Deranged que é o mesmo título do filme estadunidense sobre o serial killer Ed Gein, comecei assistir ao filme e vi que era um filme sul coreano, mesmo não sendo o filme que achei que seria assisti até o fim e pude ver um dos filmes com um dos melhores roteiros do gênero thriller dos últimos tempos.fullsizephoto238725

Jae-Hyeok é um homem na faixa dos 40 anos que trabalha como vendedor e ganha muito pouco para sustentar sua família, constituída de esposa e dois filhos pequenos, Jae parece já ter trabalhado em uma grande empresa farmacêutica, ele parece ter sido despedido através de algo a ver com investimentos errados na bolsa com indicações de seu irmão, que é um detetive da polícia de Seul, capital da Coréia do Sul.

Uma espécie de epidemia começa a atacar a Coréia do Sul, as pessoas começam a morrer afogadas, principalmente em córregos na cidade e pequenos rios ou até mesmo em suas banheiras particulares, não se sabe o que está causando este aparente suicídio. Com o passar das pesquisas descobre-se que as pessoas antes de se suicidarem começam a comer muito e a querer beber muita água.

A narrativa segue o percurso de Jae na maioria do tempo, mas também mostra a investigação que o seu irmão faz para descobrir o porque dos suicídios, também mostra pessoas da área de saúde que trabalham diretamente com o governo. A epidemia smallderanged01começa a aumentar no país e cada vez mais pessoas estão se suicidando e o governo pega os suspeitos de estarem contaminados e os confinam em um ambiente fechado, com a família de Jae confinada, ele procura alguma solução para ajudar a sua família.

Confinados, além da família de Jae, há diversas pessoas que estão enlouquecendo e tentando se matar, se desidratando e algumas vezes morrendo pelo parasita que habita o corpo destas pessoas doentes.

O governo é vítima de empresários que detêm o remédio para fazer o remédio que elimina o parasita, os empresários não querem fabricar o medicamente e não poderão apenas entregar a fórmula do remédio, que é uma receita secreta e apenas vendendo a empresa por um preço absurdo poderá então fornecer a fórmula do remédio para começar a produzir e tentar salvar as pessoas que ainda conseguem se manter vivas. Foi um grupo de cientistas sócios da empresa que detêm a fórmula do remédio que espalhou a epidemia para poderem vender os remédios, o governo desconfia do golpe, mas acima de tudo tem que parar a epidemia e aceita negociar com os empresários da indústria farmacêutica.

Enquanto isso o detetive irmão de Jae está encontrando evidências para incriminar e fullsizephoto242630encontrar a cura para os doentes. Jae tenta encontrar um frasco do remédio no mercado negro através da internet, em uma das vezes é quase pego pela polícia quando iria comprar de uma pessoa em um apartamento, depois consegue comprar de uma pessoa da indústria farmacêutica, mas vendo uma pessoa com um bebê na rua, acaba dando o remédio para ela e o que sobrou é destruído por uma multidão enfurecida que também tenta conseguir o remédio. O irmão de Jae consegue pegar os culpados e a compra da indústria farmacêutica é cancelada e eles vão até a empresa e conseguem pegar toda a matéria prima para fazer novos remédios para aqueles que ainda estavam contaminados.

Demência ou Loucura, o filme não saiu oficialmente no Brasil, então encontrei estas duas traduções pela internet, o filme conta como uma empresa privada da área farmacêutica pode ter o controle de toda uma população, através de um parasita que sofre uma mutação induzida para usar os seres humanos como hospedeiro desenvolve uma doença que pode ser transmitida através da água dos rios, onde diversas pessoas nadam no verão, se transforma em uma epidemia que poderia simplesmente dizimar uma população. Mostra como a falta de controle pode levar o ser humano ganancioso por riqueza financeira à cometer atrocidades para poder lucrar em cima daquilo depois, será que isso não pode ser interpretado como uma metáfora da realidade, como as novas doenças que surgiram de 50 anos atrás ou menos e que tem remédios que custam muito caro que só beneficiam as grandes empresas da área da farmacêutica, induzindo especialistas da área de farmácia e saúde a desenvolverem e acreditarem que a única forma de curar estas doenças é através destes remédios, tratamentos e cirurgias e não por uma prevenção.vlcsnap-2013-03-10-14h57m34s155

O roteiro do filme é sensacional deste filme, um verdadeiro trabalho de roteirização com pesquisas sobre assuntos muitas vezes secretos de grandes empresas, criticando as empresas farmacêuticas, a ganância do ser humano acima de tudo e que as pessoas em momento de crises podem tomar atitudes extremas e que além das críticas o roteiro mostra o lado humano dos personagens, há diversos tipos de personagens, desde os políticos corruptos e mal intencionados, os sempre mal intencionados donos de grandes empresas, o policial que apesar de não ser um exemplo de bom cidadão no momento de crise resolve fazer um trabalho em favor das pessoas, principalmente para tentar ajudar a família do seu irmão, o pai de família que tenta de todas as formas conseguir passar tranquilidade para sua família, a agente de saúde do governo que tenta fazer o certo, mas o certo sempre esbarra em leis e regras que a impossibilita de agir, os cientistas que não pensam necessariamente em encontrar melhorias para a sociedade e sim em fazer fortunas e diversos outros personagens que se superam em seus clichês e outros que se mantêm como vilões, mas que são trazidos à quem assiste ao filme como vilões, como se fossem “lobos em peles de cordeiros”.

O filme é longo e talvez se fosse mais curto tivesse tido mais sucesso, há muitas reviravoltas para se encontrar o fechamento da narrativa e ter um final, talvez o final encontre a pior parte do filme, com toda aquela coisa de que as pessoas mesmo sofrendo muito encontraram a tranquilidade, pelo menos até aquele momento, onde as lágrimas escorrem e um novo por do sol maravilhoso surge depois de tanto sangue escorrendo das entranhas. Temos uma edição clássica que em muitos momentos é feita de modo paralela, onde várias estórias são contadas com pequenos cortes em cada estória, a fotografia não compromete em nada, é muito bem feita e a atuação é um dos pontos altos, mesmo mostrando pequenas fragilidades em alguns momentos, talvez porque os orientais demonstram os sentimentos de uma forma diferente, muitas vezes exageradas ou se a tendência sobre o cinema mais minimalista na atuação e menos teatral Shakespeariana, já está impregnando principalmente no atual cinema ocidental de uma forma geral, tem essa sensação de atuação um pouco exagerada.

Este é um filme para ser visto e ser discutido entre amigos com belos drinks à disposição e confabular novas teorias conspiratórias que giram pelo mundo a fora, se sua tendência é apenas para entreter com “cenas gore” e não perceber toda a crítica que há diretamente no filme, não perca seu tempo, Transformers está aí para te deixar mais feliz, isto é cinema com estética popular, mesmo com o tempo longo, mas com assunto para se desenvolver além dos 109 minutos do filme, uma experiência cinematográfica para além da pipoca e do refrigerante.

 

TRAILER: